Tuesday, March 27, 2007
O coelho corre!
Os dois trocaram cumprimentos, conversaram sobre amenidades, e o experiente advogado convidou o noviço a acompanhá-lo até o Tribunal, argumentando que ele poderia ter uma interessante experiência prática sobre as vicissitudes do Judiciário. Félix concordou.
Chegando no Tribunal de Justiça, os dois entraram na pequena sala que funcionava como Tribunal Pleno, se acomodaram em duas cadeiras e aguardaram pacientemente a sessão começar.
Na época, os desembargadores deliberavam essas questões mais complicadas numa mesa que ficava situada a poucos metros de distância da platéia.
O desembargador-relator começou a explicar para os seus pares os possíveis erros doutrinários que, no seu entendimento, invalidavam o processo em discussão.
Escutando o arrazoado do relator, diametralmente oposto ao que havia aprendido em mais de quarenta anos de profissão, o professor começou a comentar com o aluno, num tom de voz que dava para ser ouvido não só pelos demais desembargadores presentes na sala, mas até por quem estivesse no corredor:
– Olha, meu filho, quanta estupidez, quanta ignorância, quanta ignomínia em relação ao direito positivo! É muita estultice, muita prosopopéia inútil, muita tosa pra pouca ovelha! Ouça isso! Pelo amor de Deus, mas isso é um verdadeiro achincalhe contra a ciência jurídica normatizada! Este apedeuta não respeita, sequer, as leis vigentes, e ainda pretende legislar em causa própria, fazendo uso de sua ignorância soberba! E essa barbaridade, agora? Escutou? Pois isto é de uma vilania tremenda, meu filho, de uma infâmia soez! Só um ignaro de marca maior poderia ter um raciocínio tão tortuoso! Preste atenção neste outro vitupério singular! Ouviu?...
Percebendo que a temperatura ia subir, Félix Valois, na época ainda um simples advogado em início de carreira, resolveu cair fora. Aquilo ia ser uma briga de cachorro grande e, no fim, ainda poderia sobrar pra ele.
Ele se levantou e fez menção de se despedir do professor.
Segurando-o pelo braço, Adriano de Queiroz instou-o a permanecer no lugar.
– Fique aqui, meu filho, que você ainda não viu nada... A melhor parte vai começar agora...
Desvencilhando-se das mãos do emérito jurista, Félix foi de uma sinceridade atroz:
– O senhor pode dizer tudo isso, meu caro professor, mas eu não posso nem sequer ouvir...
E saiu da sala, quase correndo.
Pelo visto, o jurista Adriano de Queiroz não tinha papas na língua.
Confissão, não!
O índio chega no Fórum, meio amuado, e fica de cabeça baixa, na sala de audiências.
O juiz entra na sala todo paramentado, de toga de veludo negro, luvas imaculadamente brancas, ar professoral, e chama o rapaz, para colher seu depoimento:
– E, então meu filho, qual o seu problema? – pergunta o juiz, amavelmente.
O rapaz encara o magistrado durante alguns minutos. Depois de pensar um pouco, abre o jogo:
– Ah, seu padre, eu não tenho nada pra falar pro senhor, não – explica, meio contrariado. “Eles me mandaram vir aqui foi falar com o juiz, não foi pra me confessar, não!...”
E voltou a ficar mudo.
Foi um custo o juiz da 2a. Vara de Parintins, Mauro Antony, explicar que aquilo era uma toga de magistrado e não uma bata de religioso.
O barbeiro e o gozador
Em 1978, foi candidato à Câmara dos Deputados, mas, apesar da boa votação obtida em Manaus, acabou ficando na suplência. Em 1982, candidatou-se pela segunda vez e foi um dos mais votados do pleito.
Marinheiro de primeira viagem, seu guia turístico nos meandros do poder em Brasília era o deputado federal Mário Frota, já então um político veterano exercendo o mandato parlamentar pela terceira vez.
Numa dessas incursões, Mário Frota apresentou Artur Neto a um arigó cearense, chamado Zeca Xapuri, responsável pelo corte de cabelo da bancada nortista. Como os demais colegas de ofício, Zeca Xapuri não dispensava uma boa conversa enquanto aparava as madeixas dos parlamentares.
Se o freguês desse trela, ele era capaz de contar suas mil e uma peripécias como soldado da borracha nos seringais de Xapuri, no Acre, de onde herdara o apelido. O jeito expansivo e brincalhão de Artur Neto conquistou o cearense e os dois tornaram-se “amigos de infância”.
Junho de 1985. O barbeiro Zeca Xapuri estava cortando o cabelo de Artur Neto pela milésima vez quando resolveu perguntar sobre a “origem distinta” do deputado. Ficou surpreso em saber que Artur era filho de um ex-senador do PTB, que teve seus direitos políticos cassado pelo AI-5.
Ficou mais surpreso ainda em saber que o deputado era um diplomata de carreira. Na sua simplicidade nordestina, diplomata era sinônimo de embaixador, e embaixador era sinônimo de viagens pelo exterior. O arigó se interessou vivamente pelo assunto.
– Pra ser diplomata o cidadão precisa falar uma porção de línguas, né, não?... Ainda que mal pergunte, o senhor fala umas quantas?...
Eterno gozador, Artur Neto meteu bronca:
– Eu falo 27 línguas e uns 45 dialetos. Inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, russo, grego, japonês, hebraico, mandarin, cantonês, swaiili, tupi-guaranai, nheengatu, baniwa, o que vier eu traço...
O arigó ficou espantado.
– O senhor já esteve muitas vezes nos Estêites?...
Artur Neto respondeu que sim, muitas vezes. Conhecia todas as cidades importantes dos EUA: Chicago, Detroit, Washington, Seattle, Miami, Dallas, Saint Louis, New Orleans, Los Angeles. Também conhecia as mais importantes do México: Guadalajara, Cidade do México, Jalisco, Guanajuato, Puebla, Chiapas, Tlaxcala, Sonora, Yucatán, Zacatecas, Cancún. Do Canadá, só conhecia Montreal, Toronto, Vancouver e Quebec, porque não gostava de frio e nevava até durante o verão.
– E nas Oropas. O senhor já esteve nas Oropas?
– Também. Muitas vezes. Conheço Londres, Paris, Bruxelas, Amsterdam, Estocolmo, Oxford, Cambridge, Liverpool, Belfast, Glasgow, Edinburgo, Berlim, Copenhague, Madri, Nice, Toulouse, Bordeaux, Viena, Strasbourg, Marseille, Lyon, o diabo a quatro.
O arigó estava simplesmente abestalhado com o número de vezes que o passaporte do deputado já havia sido carimbado.
– E lá pras banda do Japão? Não me diga que o senhor já esteve lá?
– Muito. Já perdi a conta. Visitei quase tudo do Oriente, de cabo a rabo. Moscou, Pequim,Tóquio, Hong Kong, Osaka, Shangai, Guangzhou, Shenzhen, Cabul, Phnom Penh, Seul, Cingapura, Abu Dhabi, Nova Délhi, Jacarta, Teerã, Bagdá, Kuala Lumpur, Islamabad, Bangcoc, Damasco e Hanói.
Brilhante aluno de Geografia, Artur ia matando a curiosidade do cearense citando nomes que só conhecia do mapa-múndi.
– E Roma? O senhor conhece Roma?
– Conheço mais do que Manaus.
– Esteve com o papa?
– Estive. Fui recebido em audiência privada pelo papa João Paulo II no ano passado.
Aí o arigó interessou-se pra valer. Enquanto desabotoava o avental do parlamentar e espanava os pêlos com uma escova macia, quis saber mais detalhes.
– E sobre o quê qui ocês dois conversaram, meu bichim?
– Bom, eu cheguei lá levado pelo monsenhor Stanislaw Dziwisk, secretário particular do Sumo Pontífice – recordou Artur. “Então, ajoelhei-me para a benção, o Papa botou a mão na minha cabeça e perguntou: ‘quem foi o filho da puta que cortou o teu cabelo, meu filho? Esse corte está uma boa merda!...’”
Foi a gota d’água. O arigó só não cortou a jugular do deputado com golpes de navalha porque foi impedido pelos demais fregueses.
Desse dia em diante, Artur Neto nunca mais colocou os pés na barbearia do Zeca Xapuri.
A garça e o maguari
Na finalíssima, no hotel Quitandinha, em Petrópolis, um júri formado por notáveis como o poeta Manuel Bandeira e o escritor Fernando Sabino consagrou Marta Rocha. A Miss Brasil tinha a missão de chutar a canela da estrangeirada e mostrar como éramos bons de pernas, cintura, busto e tudo mais. E foi com essa bandeira que ela seguiu, no mesmo ano de 54, para o concurso de Miss Universo, em Long Beach, na Califórnia.
Fomos vice e Marta teria perdido, na versão do jornalista João Martins que trabalhava em O Cruzeiro e cobriu o evento na época, por ter duas polegadas no quadril a mais do que no busto. O segundo lugar serviu até de inspiração de uma marchinha que foi gravada pela própria Marta. “Por duas polegadas a mais/ Passaram a baiana para trás./ Por duas polegadas/ E logo nos quadris/ Tem dó, tem dó, seu juiz.”
A versão menos emocionada dá conta de que a americana Mirian Stevenson venceu Marta Rocha porque o concurso estava em decadência nos EUA e precisava de um fôlego. Bem-humorada, a baiana, que reinou absoluta durante anos na sociedade carioca, brincava com o folclore que fez de sua derrota uma vitória moral para o País, afinal ela tinha quadril em excesso, um orgulho nacional. “Meu consolo é que até hoje ninguém sabe quantos centímetros tem duas polegadas”, costumava dizer.
Vice-prefeito de Zé Esteves no início dos anos 60, Souza Filho assumiu a prefeitura de Parintins quando Esteves renunciou ao cargo para disputar o mandato de deputado federal. Segundo o ex-prefeito Gláucio Gonçalves, Souza Filho era um dos políticos mais articulados do Amazonas, porque combinava uma inteligência acima da média, uma educação refinada e um discurso que beirava o poético.
Em linhas gerais, o sujeito era um verdadeiro diplomata. Quando exercia o mandato de deputado estadual, bem antes de assumir a prefeitura do município, Souza Filho foi encarregado de homenagear Marta Rocha, na Assembléia Legislativa do Estado, quando a beldade visitou Manaus.
Depois de fazer mil elogios rasgados à plástica perfeita da quase-Miss Universo, Souza Filho encerrou o seu discurso com uma chave de ouro:
– Eu queria saudar essa beleza baiana com uma metáfora bem amazônica e neste momento a imagem que me vêm à mente é a de uma garça morena na beira da canarana...
Marta Rocha adorou a comparação elogiosa.
Em agosto de 1988, a estonteante atriz Adele Fátima veio a Manaus para participar das festividades oficiais pelos “Cem anos de Abolição da Escravatura”.
O Amazonas entrou no roteiro por ter sido o primeiro estado brasileiro a libertar seus escravos. O deputado estadual Enéas Gonçalves, ex-prefeito de Parintins, foi escolhido por seus pares para saudar a deusa de ébano na Assembléia Legislativa do Estado (ALE).
Adele Fátima, que era uma das cabrochas favoritas do saudoso Osvaldo Sargentelli, chegou na ALE num apertadíssimo vestido de cetim, deixando antever suas ancas bem fornidas. Os deputados estavam babando na gravata.
Enéas começou seu discurso enfatizando o significado histórico da Abolição da Escravatura, mas, no meio do caminho, pegou um atalho para elogiar a beleza da mulata e, no final, partiu para a cantada explícita, sem subterfúgios:
– Concluindo meu discurso, minha querida Adele Fátima, o que me vem à cabeça neste momento são as saudosas palavras de um deputado estadual parintinense chamado Souza Filho, um verdadeiro poeta, um homem de coração puro, e, que, nesta casa, homenageando a nossa inesquecível Marta Rocha, comparou-a com uma garça morena na beira da canarana. Eu gostaria de dizer o mesmo, mas com um pequeno adendo. Sua beleza, minha querida Adele Fátima, é de uma garça morena na beira da canarana, enquanto cá estou eu, nesta tribuna, como um maguari faminto a contemplá-la...
A Assembléia quase veio abaixo, de tantas palmas. A mulata de quatrocentos talheres sentiu um calafrio perpassando-lhe a espinha e ficou ruborizada. Ela podia até não saber que diabo era um maguari, mas percebeu nitidamente que havia uma conotação sexual na mensagem.
Para quem não sabe, maguari é o nome da maior de nossas garças, uma ave fabulosa, que mede 1,25m de altura por 1,80m de envergadura (em termos comparativos, a rainha das garças do Velho Mundo – a famosa cegonha dos bebês – mede entre 90 e 98cm). Reza a lenda interiorana que um maguari faminto come até tracajá, com casco e tudo. Se Adele Fátima comprovou ou não a lenda, só quem pode dizer é o ex-prefeito...
Magoou!
Praciano estende para Adamor uma cópia do requerimento que havia enviado ao presidente da Câmara.
Adamor começa a ler: “Ilmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Manaus. Conforme solicitação do Movimento dos Boiolas do Amazonas, solicito a este digno Poder Municipal que...” Adamor pára de ler, respira fundo e isola a bola na arquibancada:
– Olha, vereador, não gostei, não!...
– Não gostou não de quê, Adamor? – espanta-se o vereador. “O requerimento foi feito exatamente como vocês me pediram...”
– É, mas esse negócio, aqui no começo, de movimento dos boiolas... O certo seria movimento gay...
– Olha, Adamor, pra mim, esse negócio de gay, boiola, baitola, qualira, florzinha, fresco, viado, bicha, pederasta, besouro, perobo, frango, gobira, caçarola, coluna-do-meio, dedeca, chibungo, invertido, fruta, membeca, mandrake, saparrão, caçarola, adelaide, vinte-e-quatro, mariquinha, salta-moita, vagalume, galheiro, besouro e traveco é tudo a mesma coisa! – reagiu o vereador, já ficando irritado.
– Eu sei, meu bem, eu sei! Mas... sei lá... de repente esse negócio de boiola ficou assim tão... como direi?... Tão deselegante...
O cabra da peste resolveu cortar da linha de três pontos:
– Olha, Adamor, deselegante é um sujeito dar o cu!...
Quase que voam penas no gabinete do vereador.
Aprendiz de Feiticeiro
Numa sessão em que o parlamentar amazonense atacava violentamente os ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas, chamando-os de “malucos irresponsáveis” por terem editado uma medida provisória que feria o ordenamento jurídico das instituições, Virgílo Távora pediu um aparte, prontamente concedido por Fábio Lucena.
– Eu estou verdadeiramente encantado com os conhecimentos jurídicos de V. Exª! – ironizou Virgilio Távora. “Embora talvez decaia no conceito de V. Exª, responda-me uma coisa, eminente senador: em que escola V. Exª obteve esses pródigos conhecimentos?...”
Fábio, que havia abandonado o curso de Direito no terceiro ano e não possuía nenhum curso superior, não deixou a peteca cair:
– Nobre senador, eu aprendi Direito na melhor escola do mundo: na condição de réu primário em mais de 60 processos! E em nenhum deles fui condenado, senador!
A partir daí, ele conquistou definitivamente o respeito de seus pares.
Fazendo história
Lá pelas tantas, o advogado acusa o Ministério Público de ter obtido as provas apresentadas em juízo mediante o emprego de violência. Ouvindo aquilo, o promotor Luciano Nogueira dá um pulo da cadeira e, dirigindo-se para o juiz, alardeia:
– Está é uma acusação da maior gravidade, meritíssimo, da maior gravidade! Eu quero que se consiguine em ata...
Dessa vez, quem dá um pulo da cadeira é Valois:
– Não é consiguine, meritíssimo, é consigne!... E consigne em ata que o promotor disse consiguine...
Aí, virando-se para os jurados, diz como quem não quer nada:
– Quem não sabe fazer uma flexão gramatical correta não tem competência para pedir a condenação do meu cliente...
O réu foi absolvido por unanimidade e Félix Valois começou a construir a sua lenda pessoal.
Gay Pride
Num sábado pela manhã, ele estava atravessando a rua Sete de Setembro, quando percebeu uma pequena passeata atrapalhando o trânsito nas imediações da Praça da Matriz. Pensando tratar-se de mais um protesto estudantil pela meia-passagem, o economista continuou seu caminho, sem dar muita bola para o acontecimento, quando escutou seu nome sendo gritado por um dos manifestantes.
– Professor Botinelly! Professor Botinelly! A união faz a força e nós estamos precisando do apoio dos companheiros do PDT – explicou o professor de balé Oscarzinho Melo, um conhecido militante da radical Convergência Socialista.
– Olha, companheiro, você pode contar conosco porque o PDT sempre se faz presente em manifestações de cunho popular – avisou o economista. “Mas essa manifestação é de protesto contra o quê?...”
– Ah, isso não é manifestação de protesto, não! – derreteu-se Oscarzinho. “Isso aqui é a Parada de Orgulho Gay!”
Botinelly olhou para os manifestantes, olhou para Oscarzinho, olhou de novo para os manifestantes e só então a ficha caiu:
– Olha, companheiro, eu até admito que vocês gostem desse negócio de dar o cu, mas, porra, daí a ter orgulho disso...
E foi embora, puto da vida.
O bordão “Pau neles, companheiro!” havia sido completamente desvirtuado...
Champanhe de pobre
Em dezembro, o prefeito de Japurá, Antônio Amâncio, procurou o comerciante e explicou que tinha uma determinada verba do Ministério da Saúde, que seria devolvida para o governo federal caso não fosse “torrada” em remédios naquele ano fiscal. Desdeuth resolveu empurrar as 20 mil caixas de Sonrisal para o prefeito.
– Mas o que eu vou fazer com tanto anti-ácido efervescente? – indagou o prefeito.
– Sei lá... Diz que é um novo tipo de champanhe sem teor alcoólico e coloca no cardápio da merenda escola! – explicou o comerciante.
Durante três anos, os alunos de Japurá tiveram que consumir o “champanhe” junto com as refeições escolares. Em compensação, mesmo “bombados” por leite azedo, queijo mofado e pão dormido, ninguém se queixou de azia ou má-digestão.
Comunismo light
Enquanto os oradores se revezavam no microfone, Belarmino, sentado numa cadeira de rodas devido à idade avançada, começou a observar um grupo de militantes bem mais barulhento, eufórico e desassombrado do que os demais.
Comandados pelo artista plástico Roberto Cravo, os militantes não paravam de gritar, requebrar e balançar uma chamativa faixa de cetim negro com palavras de ordem na cor dourada.
Intrigado, o barbeiro chamou o advogado Laerte Aguiar e questionou:
– Ô, meu filho, que diabo está escrito naquela faixa que aqueles garotos estão agitando sem parar?...
– Ah, “seu” Belarmino, não esquente, não – contemporizou o advogado. “Aquilo é apenas uma das alas do partido saudando a redemocratização do país...”
– Sei, sei, mas o que está escrito na faixa? – insistiu o barbeiro.
O jornalista Deocleciano Souza, que estava aguardando sua vez de discursar em nome da Federação Nacional de Jornalistas, resolveu entrar na conversa:
– Olha, seu Belarmino, isso é reflexo da modernidade comunista – ironizou. “A faixa diz ‘O PC Gay saúda a legalização do poderoso Partidão e pede passagem!’. Aquela moçada ali é formada exclusivamente por comunistas gays...
– Guêis? Eu conheço comunistas marxistas, stalinistas, maoístas, trotskistas, lenininstas... Mas guêis? Que diabo é comunista guêi?... – devolveu Belarmino.
– Gay é viado, seu Belarmino. Aquela ali é a ala dos boiolas do partido...
Conservador até a medula, o velho comunista saiu do sério.
– Pôxa, Laerte, me tira daqui e me leva pra casa! Eu quero lá saber dessa sem-vergonhice! Não foi pra isso que a gente pegou tanta porrada da polícia! Viados? Quer dizer que agora tem frescos no partido? Eu não acredito! Viados? Porra, onde já se viu uma coisas dessas? Viado não tem firmeza moral para agüentar tortura, eles fofocam muito, são tudo uns frouxos! Puta que pariu, meu filho, se eu soubesse que ia acontecer essa merda toda, tinha saído do partido enquanto ele estava na clandestinidade. Me leva pra casa! Me leva pra casa!
E Belarmino deixou o palanque amaldiçoando a legalização do PCB, que muitos anos depois se transformou no PPS. Mas o velho comunista não estava mais vivo para assistir essa nova desfeita.
Preto no branco
Versátil e bem-humorado, o radialista entrevista os ouvintes, sacaneia os maus políticos, dá notícias curtas, atualiza as fofocas e põe pra tocar músicas primorosas.
Uma tarde, meio invocado com o mutismo do vereador Mauro Flávio Magalhães na tribuna, ele fez uma enquête com os ouvintes para saber “o nome do vereador que nunca havia se pronunciado na Câmara”.
Estava todo mundo ligando pra rádio e tirando uma casquinha dos edis, quando um sujeito entrou na linha:
– Ô, parente, essa tua enquête aí num tá com nada! Ela tá muito difícil! Faz uma mais fácil! Pergunta “o nome do radialista que mais dá no preto em Parintins”...
Mário Gordo, que não é racista, queria deixar o estúdio e ir atrás do ouvinte, para enchê-lo de porrada.
Love Story
A razão de utilizar árvores de copa encorpada? Proporcionar sombra para a população e refrescar o meio ambiente, já que o oxigênio liberado pelas árvores durante a fotossíntese tem uma temperatura de cerca de 5ºC inferior ao do meio ambiente.
Em suma, uma árvore frondosa funciona como um pequeno ar condicionado. O mesmo não pode ser dito, evidentemente, das palmeirinhas imperiais do prefeito Alfredo Nascimento. Aquilo é coisa de tuaregue!
Antônio Maia também se destacou pelo apoio dado às manifestações culturais da cidade, tendo sido responsável pela vinda a Manaus de numerosos artistas nacionais e estrangeiros, dentre eles a badalada cantora Bidu Sayão.
Famosa, bonita e viúva, Bidu Sayão não escapou aos encantos do também famoso, bonito e viúvo prefeito de Manaus, com quem acabou dividindo os lençóis de seda. Estando sob contrato com o governo norte-americano para uma série de apresentações no famoso Carnegie Hall, em Nova York, Bidu Sayão parou em Manaus, sob convite da Prefeitura, para realizar dois recitais no Teatro Amazonas.
Aí ocorreu o inesperado. Quando os dois se viram, foi amor à primeira vista. Eles apaixonaram-se na mesma hora e deram início a um tórrido romance, que virou o assunto favorito nos chás da cidade.
Três meses depois, o Departamento de Estado norte-americano reclamou da ausência de sua famosa cantora para o embaixador do Brasil nos EUA, o que levou o presidente Getúlio Vargas a transmitir a queixa para Álvaro Maia, então governador do Estado, que por sua vez chamou a atenção do irmão.
E foi assim que, a muito custo, por entre lágrimas e beijos, Bidu Sayão retomou o caminho para os Estados Unidos. Diz a lenda que por muitos e muitos meses ela e Antônio Maia trocaram uma ardente correspondência. Infelizmente, a distância e os compromissos profissionais de ambos fez os amantes caírem na real e o romance chegou ao fim.
Segundo alguns amigos íntimos, até sua morte, no Rio de Janeiro, em 1993, aos 92 anos de idade, o amazonense ainda morria de saudades do “bidu” que a cantora escondia embaixo do “sayão”.
Bacabeiro
Enquanto ele regravava a cena pela enésima vez, aproximou-se um vendedor de buriti e açaí, com um tabuleiro na cabeça, berrando aos quatro ventos a qualidade dos seus produtos.
Um dos assessores do vereador aproximou-se do vendedor e sapecou:
– Será que o senhor não consegue pra gente um litro de bacaba? É que o nosso candidato está precisando arrotar um pouco de bacaba e não está conseguindo...
Bosco Saraiva riu tanto da “proposta indecente” que a gravação teve que ser adiada.
No vocabulário próprio da região, “arrotar bacaba” significa contar vantagens, bancar o falastrão, mentir desavergonhadamente...
A Saga dos Medeiros
No regresso, confirmaria as suspeitas: no encontro dos rios Aguarico e Napo, ponto da atual fronteira Brasil-Peru, colocou marco de posse em nome do governo português, num gesto que deslocava o meridiano de Tordesilhas para milhões de quilômetros quadrados a oeste e depois significaria a incorporação ao território brasileiro de quase metade de sua área atual.
Em fevereiro de 1993, o escritor acreano, advogado e ex-deputado federal (cassado em 1964 pelo Ato Institucional n.º 1) Océlio de Medeiros resolveu fazer a mesma rota de Pedro Teixeira. Ele construiu uma réplica da nau capitânea, equipou-a com os mais modernos sistemas de navegação e, na companhia de 14 tripulantes, saiu de Belém com destino a Quito, no Equador.
A única mulher a bordo era uma ninfeta de formas esculturais, Elizabeth Skyarnaviciyz, que o setentão Océlio apresentava como se fosse sua filha. Nas internas, a tripulação desconfiava que estava rolando um romance “incestuoso”.
A pequena caravela fez uma pequena parada na ilha de Parintins, para um encontro informal entre o navegante e o clã dos Medeiros, que vive no município. O folclorista Tonzinho Sunier encontrou casualmente o compositor Carlos Paulaim em um boteco e foi logo dando a boa nova:
– Rapaz, vai ter um almoço com os Medeiros lá na caravela e eles me convidaram. Vamos lá, que só de tartarugas eles mataram cinco...
Paulaim, que não tinha mesmo nada para fazer, resolveu acompanhar o amigo na condição de “convidado do convidado”. Tonzinho, que sabia do ímpeto polemista do compositor, deu uma outra dica:
– Rapaz, tu fica na tua, que nós só vamos observar o ambiente. Em festa de macuco, jacu não pia!...
Os dois tomaram assento na imensa mesa situada no convés, sentando-se lado a lado. Na mesa, já estavam os irmãos Marco Aurélio, Toni e Inaldo Medeiros, o tio de ambos e ex-deputado estadual, Geraldo Medeiros, e o primogênito de Geraldo, o adolescente (hoje vereador) Henrique. A tripulação providenciou copos de cristal, baldes de gelo, potinhos de caviar, camarões cozidos no vapor e três garrafas de Johnnie Walker Black. A tertúlia prometia.
Depois de algum tempo, Océlio surgiu no convés abraçado com a ninfeta, e apresentou-a como sendo sua filha para cada um dos presentes. Observando o short minúsculo da menina e os peitinhos querendo sair da mini-blusa, Tonzinho sussurrou para Paulaim:
– Ele pensa que a gente somos besta, mas fica na tua, não te mete! Tá na cara que ele tá comendo a fruta... Mas fica na tua, não te mete! Barata que tem juízo não atravessa galinheiro...
Océlio e Elizabeth tomaram assento à mesa. O escritor começou a explicar para os presentes o motivo da viagem, enquanto a turma começava a encher a cara de uísque.
Meia hora de conversa e duas garrafas de uísque depois, Toni Medeiros apertou o parente:
– Ô Océlio e a nossa família, rapaz? Fala um pouco das nossas origens...
– Olha, Toni, nós somos todos de uma mesma raiz européia, que se espalhou pelo Brasil inteiro. Em todo canto que a gente anda, a gente topa com um Medeiros. É engraçado isso, né não?...
Antes que Toni respondesse, Océlio fez um sinal e a tripulação começou a servir os acepipes: sarapatel de tartaruga, paca no leite da castanha, galinha à cabidela, pirarucu de casaca, refogado de frutos do mar, pato no tucupi, camarão à baiana, moqueca de caranguejo, arroz de puçá, mexira de peixe-boi e tambaqui na brasa. Era comida para um batalhão.
Durante o almoço, Toni continuou insistindo:
– Ô Océlio e a nossa família, rapaz? Deixa de ser escroto e fala um pouco das nossas origens... Quer dizer que nós viemos da Europa, é? Pô, de repente a gente tem sangue de cavaleiro templário e nem está sabendo... Vamos lá, parente, mata essa nossa curiosidade...
– Olha, Toni, é melhor nós não falarmos sobre isso, que não é muito legal, não... – desconversou Océlio.
– Não, parente, deixa de onda e fala um pouco das nossas raízes – continuou Toni Medeiros. “Eu sei que você é um pesquisador sério e que tem muitas informações pra passar pra gente. Desembucha, parente, diz aí como foi que a nossa família surgiu... Explica como foi que nós saímos do Velho Continente e viemos parar aqui nesse fim de mundo...”
Tonzinho Sunier, com aquele risinho sarcástico que o transfigurava em Macunaíma, limitava-se a sussurrar para Paulaim:
– Tu não te mete! Tu não te mete! Macaco que muito pula tá querendo levar chumbo...
– Olha, gente, eu não gostaria de tocar nesse assunto porque a nossa história não é muito bonita! – Océlio tentou sair pela tangente mais uma vez.
– Porra, parente, não tem nada a ver! Deixa de subterfúgios e conta logo essa história! – disparou Toni Medeiros, já demonstrando irritação.
– Bom, sendo assim... Olha, então é o seguinte... Eu vou contar, mas não vão ficar brabos comigo, hein? Nada disso foi inventado...
Tonzinho Sunier, cada vez mais transfigurado em Macunaíma, voltou a sussurrar para Paulaim:
– Te prepara! Te prepara! É agora que a surucucu vai fumar...
Océlio tomou uma dose de uísque puro, limpou os óculos na mini-blusa da ninfeta, examinou as lentes contra o sol, recolocou no rosto e começou:
– Bom, como todos vocês devem saber, nós viemos da Europa na mesma época em que a Família Real fugiu para o Brasil. O nosso sobrenome não existia na Europa, ele surgiu aqui mesmo e é fruto da junção de dois outros nomes. Quando os nossos parentes chegaram aqui, uma parte se estabeleceu no nordeste e outra parte na capital do Império, no Rio de Janeiro. A parte da nossa família que ficou no Nordeste, como tinha baixa instrução, foi trabalhar na fazenda dos portugueses ricos. Eles passavam o dia carregando merda de gado para adubar as hortas das fazendas. Então, essa parte da nossa família recebeu o nome de “merdeiros”, porque carregavam merda...
Fingindo que estava se abaixando para pegar uma colher no chão, Tonzinho sussurrou mais uma vez para Paulaim:
– Eu num te falei?... Eu num te falei?...
Océlio tomou uma nova dose de uísque puro e retomou a conversa sobre a saga da família.
– Aqueles nossos parentes que foram para o Rio de Janeiro eram eméritos espertalhões, que não queriam nem ouvir falar em trabalho. Na Europa eles viviam de pequenos golpes, trambiques, jogos de azar, apostas arranjadas, estelionato e outras vigarices. No Brasil, eles logo entraram no ramo de falsificação de moedas e, por causa disso, foram apelidados de “moedeiros”. Aí, da união dos “merdeiros” com os “moedeiros”, nasceram os Medeiros.
O amo do boi Garantido estava lívido. Os demais Medeiros não sabiam onde esconder a cara.
Fingindo que estava se abaixando para pegar outra colher no chão, Tonzinho sussurrou mais uma vez para Paulaim, fazendo força para não cair numa gargalhada desmoralizante:
– Só deu pro cu dele! Só deu pro cu dele!...
A continuação do almoço transcorreu num autêntico clima de velório. Na mesma noite, talvez temendo uma represália dos Medeiros, Océlio abriu as velas, levantou âncora e abandonou a ilha em direção a Manaus. Aqui, ele incorporou à tripulação o artista plástico Jorge Palheta, mas isso já é uma outra história.
Código Penal Brasileiro
– De acordo com o princípio da nacionalidade, um Estado pode exercer jurisdição sobre seus nacionais, inclusive sobre atos por eles praticados fora do território do Estado, regra que suscita muitos conflitos de jurisdição internacional entre os Estados – explicou ele. “O fundamento deste princípio é a preservação de regras de direito interno, seja daquelas que garantem direitos fundamentais aos seus cidadãos, seja daquelas que tipificam condutas antijurídicas indesejáveis, catalogadas na categoria de crime. Alguém tem alguma dúvida sobre isso que acabei de falar?...”
A garotada parecia estar em estado de transe. Félix esperou mais alguns minutos e como ninguém se manifestou, ele foi em frente.
– Em matéria penal, o direito brasileiro dispõe sobre a jurisdição brasileira, sem prejuízo de convenções internacionais, tratados e regras de direito internacional, equiparando o crime cometido no estrangeiro por nacionais ao crime de nacionais cometido em território nacional – afirmou. “Considera a lei nacional como local do crime o lugar ‘onde ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado’ (art. 6º do Código Penal), sendo punido pela lei brasileira, embora cometido no estrangeiro, os crimes elencados no art. 7º do referido Código desde que, respeitadas as exceções previstas na lei, o agente adentre em território nacional, o fato seja punível também no local do fato, estar o crime entre aqueles que o Brasil permite a extradição, não ter sido o agente absolvido ou perdoado no estrangeiro e não estar extinta a punibilidade segundo a lei mais favorável. No que se refere à extradição, a Constituição Brasileira de 1988 trata do assunto entre as cláusulas pétreas (art. 5º, LI; 60, §4º, IV), determinando que ‘nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei’”.
Os alunos continuavam quietos, como se estivessem travando contato pela primeira vez com a Lei da Relatividade, de Einstein. Félix resolveu resumir a verborragia jurídica para português de botequim.
– Como vocês puderam perceber, o Código Penal brasileiro diz que o cidadão que comete um crime em outro país será punido no Brasil, mesmo que ele já tenha cumprido pena no lugar onde cometeu o crime. Aqui os legisladores pisaram na bola. O certo seria “processado” no lugar de “punido”...
– O senhor está dizendo que o código está errado? – espantou-se uma menina de vestido tomara-que-caia, sentada na primeira fila.
– Estou, minha filha! – garantiu Félix, consultando o relógio com impaciência.
– E por que então não se conserta o código?... – insistiu a menina.
– Não faço a menor idéia! – garantiu o professor, enquanto juntava seus papéis e abandonava a sala de aula.
Além de demoníaco, Félix Valois sempre foi um defensor incorrigível do mote “para perguntas imbecis, respostas de igual calibre”. Ah, sim, o código continua “errado”. Quem sabe se o novo Congresso Nacional não toma uma atitude e corrige a “mancada”...
Aula de Direito
– Nosso Código Penal diz que “se considera em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”.
– Traduza para o português, mestre! – apartou um aluno meio dentuço, cabelo de corte militar, os olhos mortiços escondido atrás de caprichosos óculos com lentes bifocais fundo-de-garrafa, ostentando um rosto cheio de espinhas, calça jeans detonada e camisa negra com estampa do Iron Maiden, enquanto se contorcia na cadeira para melhor roer as unhas. Em suma, o sujeito era um nerd profissional, ou melhor, um brasileiríssimo cdf.
Félix resolveu dar um exemplo simples.
– Imaginem dois náufragos em um pequeno bote inflável perdidos na imensidão do mar. A costa está a 200 milhas, mas a água potável disponível na embarcação é insuficiente para que ambos consigam chegar até lá. Entretanto, a água é suficiente para que apenas um deles realize a proeza. Neste caso, o mais forte pode matar o mais fraco, para tentar se salvar, que o crime não lhe será imputado. Isto, porque o Estado opta por preservar uma vida, em vez de simplesmente perder as duas...
– É evidente que nesta circunstância hipotética, o senhor está apenas emulando uma questão de fundo! – bazofia o cdf, crente que vai encurralar o professor numa sinuca de bico. “Eu estou olhando aqui no Código Penal Brasileiro e ele diz que o ato só se justifica se por outro meio não puder ser evitado...”
– Foi o que eu acabei de falar! – diz Félix, enquanto consulta o relógio com impaciência.
– Como o senhor já disse em outra ocasião, nós precisamos observar a questão por todos os ângulos! – insiste o cdf. “Será que não existe um outro meio de se evitar a tragédia?...”
– Neste caso hipotético, não, não existe. Foi para legislar sobre uma situação igual a esta que se instituiu o “estado de necessidade”... – explica Félix, pacientemente.
– Eu não acredito. O senhor está absolutamente convencido de que não existe uma segunda ou uma terceira alternativa, e de que, neste caso, a única solução admissível é o mais forte matar o mais fraco?... – continua o sujeito
Félix pensou um pouco.
– Para ser franco, nesse caso específico existem duas outras alternativas! – corrigiu o professor, aumentando o volume da voz para 130 decibéis. “O mais fraco pode se safar se tiver aprendido a voar, como os passarinhos, ou se tiver aprendido com o Pai Eterno a caminhar sobre as águas...”
O resto da turma explodiu numa gargalhada só. O cdf ficou tão transtornado, que trancou a matrícula e nunca mais foi visto. É bem capaz de hoje ser juiz classista aposentado em alguma comarca do interior.
O deslumbrado
Para quem não sabe, Cordeirinho, como o deputado é mais conhecido, era o símbolo mais vistoso dos “parlamentares deslumbrados”, essa plêiade de homens públicos que enriqueceu da noite pro dia, mas que nunca passou pelo desconforto de abrir um livro de gramática.
Cordeirinho saiu arrastando uma cadeira e posicionou a mesma na “cabeceira” da mesa ocupada pelos dois, causando um pequeno transtorno no fluxo de garçons e passantes.
Aí, para exibir uma intimidade com o vice-governador, começou a cortar a carne do prato de Samuel e servi-la na boca do vice-governador. Samuel, claro, ficou constrangido.
Não satisfeito, Cordeirinho tirou um charuto do bolso, acendeu, e começou a dar baforadas na mesa, enquanto os outros dois jantavam, falando sobre as qualidades do seu Habana.
Discretamente, Samuel chamou o garçom, pediu a conta, pagou e saiu apressadamente do restaurante, deixando a “chaminé ambulante” falando sozinho.
A partir desse dia, Cordeirinho começou a falar nos quatros cantos da cidade que “Samuel Hanan é a bossalidade em pessoa”...
Três anos depois, Cordeirinho seria o principal “peixe graúdo” preso pela Polícia Federal na “Operação Albatroz”.
Telefonia celular
Só que em vez de esculhambar com a Amazônia Celular, responsável pelo serviço, meteu o pau na Telemar, que cuida de telefonia fixa e não tinha nada a ver com o assunto.
Ao encerrar seu discurso furibundo, Jorge Maia ainda tentou fazer uma “gracinha” com o nome da empresa:
– Eu também não sei porque esses empresários ignorantes mudaram o nome da empresa de Telamazon para Telemar...
Aí pensou um pouco e arrematou:
– Telemar... Telemar... Aqui não tem nem mar!... O certo seria Telerio ou Teleigarapé!...
Foi aplaudido delirantemente pela arraia-miúda presente na galeria, que, a exemplo do vereador, nunca freqüentou uma sala do Mobral.
O assassinato do Faísca
Um dos operários falou que, durante a confusão ocorrida na noite anterior, o Faísca tinha saído correndo, mas que “acabou tomando um tiro na cabeça e morreu nos fundos do Sindicato”.
Ouvindo aquilo, Otalina entrou em pânico. Ela retornou ao plenário, assumiu a tribuna e fez um apelo dramático aos seus pares:
– Gente, gente, vocês precisam ir lá no Sindicato dos Metalúrgicos, que aquilo lá virou um barril de pólvora. Já tem até gente morrendo. Acabo de ser informada de que o companheiro Faísca, uma das lideranças da greve na Sanyo, foi assassinado cruelmente. Pelo amor de Deus, gente, nós precisamos fazer alguma coisa para evitar novas tragédias ou outras famílias vão ser enlutadas!
O presidente da CMM também entrou em pânico, mas teve o bom senso de primeiro confirmar os acontecimentos. Imediatamente, uma comissão de vereadores foi formada e se dirigiu para o sindicato, para checar o assunto. Retornaram duas horas depois, desfazendo o mal entendido da vereadora.
Faísca, na verdade, era o nome de um vira-lata que havia se instalado no Sindicato há dois anos e se transformado em “mascote” dos metalúrgicos. Ele participava das reuniões da categoria deitado placidamente no palco do auditório.
Naquela noite, quando começou a confusão, o cão correu para os fundos da sede dos metalúrgicos e foi realmente morto a tiros por alguém. Nenhum dos dois lados beligerantes, até hoje, assumiu a autoria do atentado.
O sumiço do rádio
– Égua, parente, onde foi que tu comprou essa camisa? – indagava, curioso.
– Ah, isso é uma camisa Lacoste que comprei em Manaus! Custou uma fortuna porque é importada, veio diretamente de Paris! – respondia o sujeito.
– Égua, rapaz, vou comprar uma pra mim também. Tu é meu patrão, mas não é melhor do que eu, não! – avisava Alcir.
Na semana seguinte, lá estava ele com uma camisa exatamente igual à do patrão. Mesmo que aquilo lhe custasse o salário de um mês.
Vereador em Nhamundá, o compositor Carlos Paulaim morava de aluguel numa casa pertencente a Alcir, quando este já havia se transformado em um próspero comerciante do município. Outro grande comerciante da época, o coronel Bitônio Hortêncio, morador de Parintins, comprou uma nova casa em Nhamundá e resolveu se mudar para a cidade.
Um dia, comecinho da tarde, o vereador estava tirando uma soneca numa rede atada na varanda, quando chegou seu senhorio:
– Êi, Carlinhos, chegou o compadre Bitônio. Tu vai lá comigo, tu é um vereador de merda, mas é meu amigo, então tu vai lá comigo, conhecer o meu compadre...
– Claro, claro! – concordou Paulaim. “Eu vou, eu vou, pra mim será uma honra...”
– Égua, porra, então chama o Jander Souza, ele num te larga...
– Chamo, sim, seu Alcir, pode deixar...
Carlos Paulaim passou na casa de Jander (aquele ex-secretário, que queria promover um salto noturno de pára-quedistas no município), convidou o rapaz para conhecer o compadre de Alcir, e lá foram os três para o barco do coronel Bitônio, que estava sozinho.
Depois de feitas as apresentações de praxe, o quarteto subiu para o convés superior e sentou-se à mesa, para conversar, beber cachaça e tirar gosto com torresmo. Em termos de birita, o coronel Bitônio era um verdadeiro leão: com quase dois metros de altura, parrudo que nem o Maguila, ele era capaz de beber três dias seguidos, misturando cerveja, conhaque, vodka, cachaça, água sanitária e creolina, que não ficava nem com bafo.
O comerciante Alcir Magalhães também era um emérito profissional do copo, graças aos chás de ervas medicinais que ingeria diariamente com pontualidade suíça: boldo, quebra-pedra, barbatimão, unha de gato, vassourinha, mururé, sálvia, carqueja, beldroega e pedra-ume-caá. Amadores mesmo, somente o compositor e o ex-secretário municipal, que, ainda assim, bebiam como gente grande. A ventania que corria no tombadilho e que, volta e meia, derrubava uma cadeira, também contribuía para a “maldita” custar a pegar.
Seis garrafas de cachaça mais tarde, quando todo mundo já estava meio calibrado, o coronel levantou-se da mesa, olhou em torno, ficou meio cismado, aí, voltou a sentar-se no seu lugar em silêncio. De repente, perguntou:
– Alcir, tu visse o meu rádio?...
– Égua, porra, não, não vi, não! – respondeu Alcir. Aí, virando-se para os outros dois convidados questionou: “Cadê o rádio, porra, cadê o rádio do compadre Bitônio?...”
Paulaim e Jander continuaram na deles, sem saber do que os dois compadres estavam falando.
Alcir e o coronel levantaram-se da mesa e começaram a procurar o rádio pelo convés do barco. Procuraram, procuraram, procuraram e nada do rádio ser encontrado. O coronel Bitônio estava ficando cada vez mais puto.
– Sumiu meu rádio... Porra, o rádio com que eu pego os avisos das minhas filhas, lá de Manaus, na Difusora. Eu não poso ficar sem esse rádio, Alcir, porra, cadê o rádio?...
Alcir também estava começando a ficar nervoso vendo a aflição do seu compadre. Depois de mais uma nova busca infrutífera, Alcir jogou a toalha:
– Égua, porra, cadê o rádio? Olha, rubaro o teu rádio, compadre, rubaro o teu rádio!... Tem um ladrão aqui dentro de nós!...
Então, como se fosse um Sherlock Holmes, parou perto da mesa onde Paulaim e Jander continuavam sentados, e começou a fazer suas brilhantes deduções:
– Porra, Bitônio, tu não vais roubar o que é teu, que tu num é leso...
O coronel nem respondeu porque estava a ponto de ter um troço, cada vez mais agoniado e aflito:
– Pelamor de Deus, cadê meu rádio, rapaz, cadê meu rádio?...
O Sherlock Holmes continuou suas deduções:
– Eu, Alcir Ferreira Magalhães, cinco mil rezezinhas, não tenho porque roubar um rádio de bosta desses, que deve ser a pilha...
Então, respirando fundo, limpou as mãos numa toalha que estava em cima da mesa, olhou sério para Carlos Paulaim e continuou:
– O Carlinhos, vereador, até que não tá muito bem de vida, mas não é capaz de fazer uma patifaria dessa...
Aí, olhando pro Jander, que parecia não se dar conta da gravidade da situação, sentenciou:
– Porra, Jander, devolve o rádio do homem! Tu tá desempregado, anda comendo do bom e do melhor e só se traja bem, é porque tu tá roubando! Devolve o rádio do meu compadre, porra, devolve o rádio!...
O coronel Bitônio, que havia acabado de conhecer o sujeito naquela tarde, não contou duas vezes. Correu na cabine, pegou um terçado e voou na direção de Jander, completamente transtornado:
– Me devolve meu rádio, seu desgraçado, ou eu te parto no meio!...
Num ato reflexo, Jander pulou da mesa, deu dois passos pra trás e voou por cima da amurada do tombadilho, caindo n’água de roupa e tudo, onde começou a nadar feito um desesperado em direção à praia. Nem Mark Spitz seria capaz de acompanhar suas braçadas vigorosas.
Carlos Paulaim era o único que mantinha o sangue frio e tentava colocar ordem na casa. O coronel Sidônio já estava colocando os cartuchos numa espingarda doze, papo amarelo, para ver se acertava no fugitivo antes dele alcançar o barranco, quando o compositor segurou no cano da arma e implorou:
– Seu Sidônio, tenha calma, não vá me fazer uma besteira!...
Alcir puxou o inquilino pelo braço e deu o maior esporro:
– Num te mete, Carlinhos, num te mete! Num protege o ladrão! Num protege o ladrão!...
Felizmente, Jander Santos conseguiu escafeder-se em direção à cidade, antes dos tiros serem disparados. Dentro do barco, depois de alguns minutos, os ânimos finalmente serenaram. O coronel é que continuava inconsolável:
– Porra, meu rádio, Alcir, meu rádio! Tava bem ali e eu inda punhei ele dentro da caixa! Tava novo, novo, novo, Alcir, porra, meu rádio!...
Nisso, um moleque, remando uma canoa, encostou ao lado do barco e começou a gritar pelo nome do comerciante. Quando Alcir meteu a cara na amurada, o moleque perguntou:
– Êi, seu Alcir, não é esse rádio que vocês estão procurando?...
E exibiu uma caixa contendo um pequeno rádio a pilha.
O coronel Sidônio quase desmaiou de emoção.
Na verdade, a ventania havia derrubado o rádio dentro d’água, mas o estojo protetor de isopor o impediu de afundar e a caixinha ficou flutuando no entorno da embarcação até o moleque resgatá-la.
Quando o coronel começou a retirar os cartuchos da espingarda, Alcir caiu na real:
– Puta merda, puta merda! Eu ofendi o Jander, Carlinhos, eu ofendi o Jander! – desculpou-se. “Manda chamar o Jander agora mesmo, pra mim pedir desculpa, que quase que ele pega uma terçadada e uma carga de chumbo por minha causa...”
Mas o ex-secretário municipal Jander Santos, àquela altura do campeonato, já estava num barco de linha com destino a Parintins, desejando que o coronel, seu compadre e o compositor ardessem pelo resto da vida no quinto dos infernos.
Wednesday, February 14, 2007
Conta lá, que eu conto cá!
Os soldados ianques retiraram a maioria dos mil cidadãos norte-americanos de Granada, mas ficaram aquartelados na ilha por quase um ano. Eles só se retiraram depois que uma coalizão centrista liderada pelo advogado nativo Herbert Blaize ganhou quatorze das quinze cadeiras numa eleição cuidadosamente monitorada pelos Estados Unidos e o referido Blaize tornou-se primeiro-ministro.
Dez dias depois da invasão de Granada, o atual Secretário Estadual de Justiça e Cidadania, Félix Valois, na época deputado estadual pelo PMDB, ocupou a tribuna da Assembléia Legislativa para fazer um discurso histórico, criticando a política expansionista e armamentista de Ronald Reagan, que ele comparou a “uma das bestas do Apocalipse”.
Comunista militante desde a juventude e mal-humorado como um sujeito sofrendo de gota (o que lhe valeu o apelido de “demônio”), Félix estava soltando os cachorros sobre a violação dos direitos humanos em Granada, quando o deputado estadual Jamil Seffair (PDS) pediu um aparte. Félix concedeu, meio a contragosto, já que ficava puto quando era interrompido.
– Muito me admira que o nobre colega esteja condenando com tanta veemência a invasão de Granada e esculhambando os Estados Unidos! – começou Seffair. “Contudo, quero lembrar ao nobre colega que tempos atrás a União Soviética também invadiu o Afeganistão...”
Félix foi logo chutando o balde:
– E o quê qui eu tenho a ver com isso?... – disparou. “O senhor, se quiser, que ocupe a tribuna desta Casa e faça um discurso condenando a invasão soviética. Eu estou aqui condenando a invasão norte-americana. Cada qual que cuide da sua invasão!...”
Totalmente sem graça, Jamil Seffair passou o resto da sessão de bico fechado.
A poupança da Zuleide
Setembro de 2000. Candidato à reeleição, o prefeito de Tefé, Hélio Bessa, estava mais quebrado do que arroz de terceira. A Prefeitura não pagava os funcionários há três meses. Os fornecedores não recebiam um centavo há mais de seis meses. Na sede da prefeitura, água, luz e telefone já haviam sido cortados desde abril. O município estava à beira de uma guerra civil não-declarada. Apesar de estar ciente da situação, o governador Amazonino Mendes não queria nem ouvir falar do prefeito. Até os “agiotas”, que costumam tirar proveito dessa situação, estavam fugindo do Hélio Bessa como o diabo foge da cruz. O prefeito estava sem dinheiro até pra colocar gasolina no carro.
Para completar o quadro, o grupo político do prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento, havia aberto as torneiras de dinheiro para irrigar a candidatura de Papi, irmão do presidente da Assembléia Legislativa, Lupércio Ramos, e ex-vice-prefeito do próprio Hélio Bessa. O alcaide estava entre o tacape e a espada. Numa reunião política ocorrida em Manaus, Hélio contou seu drama para alguns prefeitos, deputados e lideranças presentes, e acabou deixando o senador Bernardo Cabral bastante sensibilizado, apesar dele ser um notório “mão de neném” – só abre a mão se lhe fizerem cócegas no sovaco.
Na primeira oportunidade que teve, Bernardo Cabral aproximou-se de Hélio Bessa, estendeu-lhe um pequeno envelope pardo, e sussurrou-lhe no ouvido:
– Guarda no bolso, não abre agora, nem vai contar pra ninguém, mas aí está toda a economia da Zuleide! – avisou o senador. “Se ela souber que zerei a poupança dela, ela me mata, mas prefiro correr tal risco a deixar um correligionário numa situação tão embaraçosa.”
Dito isso, ele deu um demorado abraço no prefeito, se despediu e foi embora.
Hélio só faltou beijar os pés do senador.
Quando a reunião acabou, Hélio resolveu pegar uma carona no carro do prefeito de Manacapuru, Ângelus Figueira, seu amigo de longa data, que também estava tendo problemas financeiros indescritíveis para viabilizar a própria reeleição. O mesmo grupo que estava azucrinando a vida de Hélio Bessa, em Tefé, também estava baseado em Manacapuru, apostando todas as suas fichas no deputado estadual Washington Regis, que era candidato a prefeito do município.
Hélio Bessa comentou com Ângelus sobre a conversa que teve com Bernardo Cabral e não poupou elogios sobre a solidariedade do senador. Aí, meteu a mão no bolso, tirou o envelope pardo, abriu a encomenda, trêmulo de emoção, e apanhou um volumoso pacote de cédulas. Todas de cinco reais. Quando acabou de contar a “pacoteira”, ele tinha em mãos exatamente 495 reais. Não dava pra pagar dois cabos eleitorais trabalhando em meio-expediente apenas no dia da eleição. Hélio ficou puto.
– Ângelus, me leva lá na casa do senador, que eu vou devolver essa merda! – rugiu o prefeito. “Tá certo que eu estou lascado e mal pago, mas ainda não estou na fase de pedir esmolas...”
Rindo da cara de desapontamento do companheiro de infortúnio, Ângelus desabafou:
– Ô, Hélio, não fica puto com o senador, não. Ele também está “duro”, mas assim mesmo ainda te deu essa grana na maior boa vontade. Na semana passada, ele me falou a mesma coisa, só que no meu envelope tinha apenas 375 reais. Em comparação comigo, você está no lucro! O negócio é a gente meter bronca e não dar bola pro azar!
Apesar de bastante injuriado, Hélio Bessa aceitou as ponderações de Figueira. No fundo, os dois sabiam que dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro...
Em outubro, mesmo estando mais “lisos” do que candiru, Ângelus e Hélio foram à luta e conseguiram se reeleger.
A perereca do boto
Junho de 1982. Candidato ao governo pela segunda vez, Gilberto Mestrinho está chegando a Fonte Boa para fazer mais um comício arrebatador. Enquanto o barco ancora no pequeno porto na margem direita do rio Solimões, por volta das seis horas da tarde, o candidato relaxa no tombadilho, participando de uma roda de piadas com seus assessores mais próximos.
Uma das piadas é tão engraçada, que Gilberto, ao gargalhar, expele, sem querer, a perereca, que faz um vôo curto, suficiente apenas para ultrapassar a amurada do barco e despencar nas águas barrentas do rio, próximo ao casco da embarcação. Seria um retrato amazônico do mais famoso hai-kai de Matsuó Bashô (“o pulo da rã”) se não fosse pelo constrangimento geral. Sem dar uma palavra, Gilberto recolhe-se ao seu camarote enquanto os assessores discutem o que fazer para contornar o acidente.
Gregório Dias desce do barco, examina o local onde a perereca caiu, aí chama uns sujeitos que estavam observando a cena do barranco, explica o que aconteceu e faz a sua oferta:
– Pago 10 mil cruzeiros para quem mergulhar ali e trazer a perereca de volta!
Os sujeitos nem se mexeram. Para se ter uma idéia da oferta, o salário mínimo, na época, valia Cr$ 16.608,00.
– Ô quê que tá havendo com vocês? Taqui os 10 mil cruzeiros! – Gregório puxou a carteira e retirou um pacote de cédulas novinhas em folha. “É só mergulhar e trazer a bicha de volta, pra embolsar a grana...”
Os sujeitos continuaram impassíveis.
Gregório resolveu aumentar a oferta.
– Tudo bem, eu dou 20 mil cruzeiros pra quem localizar a perereca... – e abriu a carteira, retirando um segundo pacote de cédulas, tão novinhas quanto as primeiras.
Foi quando um dos cabocos resolveu falar:
– Olha, “seo” minino, além de aí ser muito fundo, tem muitas feras. É cardume de candiru, piranha preta, piranha vermelha, pirara, piraíba, mandii e arraia feito o cão. Além do mais, tá ficando escuro, que é quando as feras gostam de atacar. O único cara que tem peito de mergulhar no rio desse jeito é o Bola Sete, e ele não está aqui...
– Pois então vão buscar o sujeito, que, além da grana, eu ainda pago duas garrafas de cachaça pra cada um de vocês – garantiu Gregório.
Dali a dez minutos, os sujeitos reaparecem conduzindo o Bola Sete, um crioulão de dois metros de altura e 120 quilos bem distribuídos pelo corpo de halterofilista. O fole do negão era capaz de absorver todo o oxigênio existente no entorno da cidade. Os olhos vermelhos indicavam que ele gostava de carburar um dirijo.
Gregório explicou o problema. O sujeito subiu no barco, examinou detidamente o local apontado, mediu a velocidade do vento, aí, saltou de barriga no referido ponto, espalhado água que nem uma baleia azul. Passou três minutos no fundo do rio e depois emergiu, esbaforido, pálido como um defunto, mas com as mãos vazias. Encheu novamente os pulmões de ar e voltou a mergulhar, no mesmo local. Emergiu três minutos depois, ainda com as mãos vazias. Bola Sete repetiu a façanha por mais cinco vezes, sem resultado.
Gregório e os demais assessores do professor começaram a ficar nervosos.
Para incentivar o mergulhador, o secretário particular do boto, Luiz Costa, dobrou a oferta:
– Escuta aqui, ô Bola Sete! Em vez de 20, eu vou te pagar 50 mil cruzeiros para encontrar o “produto”. Mas, porra, vê se tu se esforça um pouco mais, hein?...
Os olhos vermelhos de Bola Sete ficaram acesos como dois faróis de milha. O negão mergulhou e permaneceu embaixo d’água por quase cinco minutos. Quando emergiu, trazia numa das mãos a perereca. Os assessores vibraram de contentamento.
Enquanto Gregório levava a preciosa carga recuperada para ser esterilizada e devolvida ao dono original, Luiz Costa pagava os 50 mil cruzeiros ao mergulhador e o resto dos assessores ia pegar as garrafas de uísque, para comemorar. O comício estava salvo.
Cinco minutos depois, Gregório sai do camarote do boto completamente lívido, sem esconder a decepção. A perereca era muito grande, não tinha entrado na boca do ex-governador. O comício estava inapelavelmente adiado e a ordem era retornar imediatamente para Manaus.
Conclusão: vendo que não ia encontrar mesmo a cremalheira do professor, Bola Sete optou por entregar a sua própria perereca em holocausto e, como estava muito escuro, os assessores não perceberam o truque.
Também, pudera. Com 50 mil reais, Bola Sete compraria vinte pererecas iguais àquela. De besta, os cabocos amazonenses só têm a fama.
Caneco Sam
Setembro de 1972. O então senador José Esteves consegue um financiamento em Brasília para os pequenos juticultores de Parintins, visando dinamizar a atividade no município. O gerente da agência local do Banco do Brasil, um nissei chamado Leonardo Kaneko, entretanto, só liberava o financiamento mediante garantias reais e a maior parte dos empréstimos, como sempre, estava indo parar nas mãos dos grandes produtores.
Os pequenos agricultores não entendiam patavinas dessas firulas bancárias e estavam cada vez mais irritados. Eles acreditavam que o dinheiro tinha vindo de Brasília para ser repassado a eles e ponto final. O “japonês do banco” só não liberava a grana porque era um cara muito escroto.
Sob a liderança de Aldenor Teixeira e Joaquim Buretama, os pequenos juticultores se reuniram com Zé Esteves e abriram o jogo:
– Senador, aquele dinheiro que o senhor conseguiu em Brasília está indo todinho pras mãos dos bacanas. A gente não consegue pegar aquele dinheiro, senador!.. Só quem está metendo a mão na grana é os ricos, que nem precisar, precisam...
José Esteves ficou puto.
Como ele havia chegado na cidade no dia em que seria realizado um grande comício, não deu outra. Naquela mesma noite, o senador usou de sua brilhante oratória para mandar um recado para a população, em geral, e para os pequenos juticultores, em particular.
– Acabo de receber hoje pela manhã uma comissão de amigos juticultores de Parintins. Todos a me reclamar que o senhor Kaneko está fazendo ouvido de mercador e não de amigo dos juticultores aqui de Parintins – esbravejou. “O senhor Kaneko não está atendendo, não está dando atenção devida aos nossos irmãos juticultores que pegam no pesado, que transformaram Parintins no maior pólo produtor de fibras naturais do estado do Amazonas. Pois muito bem. Eu quero garantir de público a todos vocês que amanhã mesmo estou ligando pro senhor Nestor Ioshi, presidente do Banco do Brasil. E tenham certeza, minhas amigas, meus amigos, que este ‘seo’ Kaneko vai sair daqui numa canoa furada, porque caneco é pra ficar na boca do pote, não na gerência do Banco do Brasil...”
O gerente ficou tão desmoralizado que, no dia seguinte, praticou o harakiri: pediu sua transferência para Manaus e foi prontamente atendido.
José Esteves, claro, a partir da saída do “japonês do banco”, ficou entronizado para sempre no panteão dos santos protetores dos pequenos juticultores de Parintins. O homem era pedra noventa.
Voando nos campos do Senhor
Junho de 1994. Filho do ex-deputado estadual Geraldo Medeiros, o vereador de Parintins, Henrique Medeiros, que, entre outros méritos, é primo dos compositores Inaldo e Toni Medeiros e da esfuziante Márcia Baranda, precisava levar os cartazes do candidato a deputado federal Cláudio Chaves para a localidade chamada Recordação.
Ele ia viajar no monomotor fretado pelo candidato e convocou para acompanhá-lo, na função de guia, o cabo eleitoral Silvano Leal, que nunca havia viajado de avião. O sujeito exultou de contentamento:
– Henrique, eu vou realizar meu grande sonho. Eu nunca entrei num avião na minha vida, mas sempre sonhei com esse momento...
O piloto do monomotor anfíbio era o irascível comandante Manuel, que, no mês anterior, quase havia levado à loucura o compositor Carlos Paulaim e o médico Tarciso Laime, num episódio já relatado aqui no blog.
Pra complicar as coisas, Silvano Leal só conhecia a comunidade viajando por terra, entrando pelos igarapés e paranás com a segurança de quem carrega um GPS na cachola. Henrique não fazia a menor idéia da localização do lugar.
O monomotor decolou e, depois de dez minutos sobrevoando aquele emaranhado de ilhas, o piloto se virou para Silvano Leal:
– Meu irmão, onde é que fica a porra dessa comunidade?...
Silvano olhava para um lado, olhava para o outro, e não conseguia identificar um marco conhecido. Era a primeira vez na vida que ele observava o município do alto e, pra quem não é piloto ou geógrafo, aquele mundão de matas, ilhotas e águas barrentas parece ser sempre a mesma coisa.
– Porra, tu não vais dizer onde é que fica essa comunidade? Então nós vamos voltar para Parintins... – insistia o piloto, cada vez mais puto.
Henrique, empapuçado de suor frio, não dava um pio.
– Eu acho que é bem ali! – apontou Silvano para meia dúzia de taperas na beira do rio, numa tentativa desesperada se livrar daquele olhar de cão hidrófobo.
O piloto, numa manobra meio suicida, pousou no campinho de futebol, quase batendo numa das traves. Silvano reconheceu a sede social da comunidade do Espírito Santo. Recordação ficava longe dali. Ao saber que havia errado de lugar, o piloto entrou em surto psicótico:
– Porra! Como é que vocês me mandam um cara desses como guia se ele não sabe nem a merda do lugar aonde nós vamos?... Desse jeito não tem boga de peruano que agüente... Merda! Merda! Merda! (e começou a esmurrar o manche da aeronave, completamente transtornado)
O anfíbio levantou vôo de novo. Silvano queria se esconder dentro do cinzeiro, mas ele já estava ocupado por Henrique. Dez minutos depois, ouvindo impassivelmente as imprecações de praxe, Silvano mandou o piloto descer numa pequena comunidade, onde uma aglomeração humana fazia sinais para a aeronave. Era a Recordação. O piloto pousou o anfíbio num pequeno braço do rio, com uma cara de poucos amigos.
– Meu, irmão, vamos lá, conversar com o pessoal, tomar um cafezinho, comer uma tapioca, beliscar umas bananas fritas... – Silvano insistiu, amigavelmente.
– Vou, porra nenhuma! Eu quero lá saber de papo com essa gente! – cortou o piloto, se preparando para dar um novo coice. “E vê se não demoram muito aí nessa bosta, que eu tenho mais o que fazer...”
Duas horas depois, Henrique e Silvano se aboletaram na aeronave e o anfíbio começou a fazer a viagem de volta. O silêncio dentro da aeronave dava pra ser cortado com navalha. De vez em quando, o piloto se virava para Silvano com aquele olhar de pit-bull observando, guloso, a batata da perna de uma suposta vítima, mas não dizia nada. Mentalmente, quem sabe, devia estar levantando suspeição sobre a masculinidade dos dois passageiros.
Finalmente a aeronave pousou no aeroporto e eles se despediram do piloto como o diabo foge da cruz. Silvano não escondia a decepção.
– O quê que tu achou da reunião? – quis saber Henrique.
– Olha, Henrique, a reunião foi boa... Eu só quero te dizer que o maior sonho da minha vida era andar de avião, mas hoje eu tenho trauma... Eu nunca pensei que a minha primeira viagem de avião fosse tão traumática...
– Meu irmão, eu também estava me tremendo lá
Silvano jurou nunca mais colocar os pés dentro de um avião e vem cumprindo a promessa até hoje. Henrique se matriculou numa escola de pára-quedistas, pensando nas futuras campanhas.
Friday, February 09, 2007
Os Miseráveis
Novembro de 1959. Prefeito de Manacapuru, o protético Mário Almeida faz um convite para que a seleção estudantil de futebol do Colégio Pedro II, mais conhecido como “Colégio Estadual”, enfrente a seleção de Manacapuru no estádio do Riachuelo, localizado em frente ao cemitério da cidade.
O convite foi encaminhado ao Centro Acadêmico Plácido Serrano, que na época era dirigido pelo estudante Amazonino Mendes. Naquele mesmo ano, a seleção de futebol do Colégio Estadual havia sido campeã dos Jogos Estudantis do Amazonas e gozava de um merecido prestígio.
Amazonino convocou a rapaziada, explicou que ia ser uma tremenda boca-livre, ninguém ia precisar levar dinheiro, todos iam ficar no melhor hotel da cidade, ia ter comida, bebida e mulheres a dar nas canelas, enfim, incendiou o ânimo dos jogadores. Como a estrada Manuel Urbano ainda não existia, a Prefeitura de Manacapuru mandou um barco de linha para apanhar os moleques.
A partir dos estudantes, na sexta-feira à noite, foi digna de uma expedição dos Argonautas. A maioria dos garotos sequer tinha ido até o Careiro, do outro lado do rio, quanto mais a um município que só seria atingido depois de uma viagem de barco de 14 horas. Para que a viagem não se tornasse monótona, Amazonino incluiu na delegação o violonista Acrísio Sete Cordas e providenciou duas caixas de cachaça Tatuzinho.
A delegação chegou no sábado pela manhã, mas não havia ninguém esperando por eles no cais do porto. Duas horas da tarde, todo mundo já urrando de fome, e necas do contato. Amazonino e o atual delegado da Polícia Civil, Renato Almeida, resolveram descer do barco para saber o que estava acontecendo. Vasculharam a cidade de ponta a ponta, mas nem sombra do prefeito Mário D’Almeida. Retornaram ao barco com meia dúzia de ovos e cinco quilos de farinha, que conseguiram, sabe Deus como, e providenciaram uma “farofa à moda da casa”. O rango serviu como almoço e jantar.
No dia seguinte, com a fome cada vez mais braba, os jogadores ameaçaram fazer um motim. Amazonino contornou a situação liberando as três garrafas de cachaça, que haviam sobrado da antevéspera. Foi pior. O ponta-de-lança Diacuí quase agride o centroavante Barata por este ter repetido a dose antes da primeira rodada terminar. O lateral Zezinho e o volante Tupinambá ameaçaram não entrar em campo se não surgisse pelo menos um bago de limão para o tira-gosto. O presidente do Centro Acadêmico Plácido Serrano estava simplesmente perplexo. Aquilo só podia ser um pesadelo.
Quinze pras quatro, chegou um moleque no barco com a missão de ensinar onde ficava o campo do Riachuelo. Os jogadores foram a pé, uniformizados, orgulhosos, sendo devidamente apupados por uma multidão enfurecida.
O diabo é que a seleção do Colégio Estadual era mesmo boa de bola. Apesar de estar há 48 horas sem colocar uma refeição decente no estômago (cachaça com farofa não vale!), os garotos foram lá e meteram dois a um. Saíram de campo debaixo de vaias, xingamentos, ofensas e tentativas de agressões, mas de alma lavada.
No cais do porto, ainda na presença de uma multidão que não parava de xingar os rapazes, Amazonino resolveu tomar as rédeas da situação. Depois de mandar ligar o barco e deixar a marcha a ré engatada, ele aproximou-se da proa, acenou com as duas mãos para que a multidão parasse a gritaria e aí, fazendo uso de sua esplêndida oratória, sapecou esses versos secos:
– Adeus, terra maldita, nunca mais me verás tu! Criei ferrugem nos dentes e teia de aranha no cu!...
O barco saiu de marcha a ré sob uma chuva de pedras, ovos e batatas podres. Teve nego que pulou n’água, querendo subir no barco pra detonar o orador.
Quase quarenta anos depois, Amazonino comemoraria em Manacapuru sua terceira eleição para governador, em virtude de o município lhe haver proporcionado, entre todos os demais municípios do Estado, a maior diferença de votos em relação ao candidato Eduardo Braga, ex-prefeito de Manaus.
A doença do senador
Agosto de 1970. Candidato ao Senado pela Arena, o deputado federal José Esteves desembarca em Parintins sem um tostão no bolso e vai direto para a prefeitura, onde se encontra com o prefeito Gláucio Gonçalves:
– Senhor, Gláucio, o senhor vai ter que me ajudar – explica o deputado. “As baterias estão descarregadas...”
– Não tem problema, deputado – tranqüilizou o prefeito. “O que eu puder fazer pra lhe ajudar, pode contar comigo. O senhor tem sido para Parintins mais que um grande parceiro, tem sido um verdadeiro filho pródigo desta terra”.
Acontece que José Esteves, a exemplo do saudoso deputado estadual Júlio Belém, era um homem extremamente despojado em termos de bens materiais (tanto que morreu pobre). Tudo que ele tinha, repartia com os menos favorecidos. E estar desprevenido, sem alguns trocados para dar pros pobres, fosse para aviar uma receita, fosse para comprar uma lata de leite, para Zé Esteves tinha a mesma sensação de ser portador de uma doença incurável.
Outro que rezava pela mesma cartilha era o já citado Júlio Belém. Sua missão terrena parecia ser ajudar a todos os desfavorecidos, sem exceção. Nunca usou um cargo público para se locupletar. Foi deputado estadual e prefeito de Parintins, mas sua vida pública foi marcada pela transparência. Júlio Belém faleceu no início daquele ano e hoje empresta seu nome ao aeroporto do município.
No dia do comício, com a presença de uma multidão incalculável, José Esteves fez um discurso emocionante. Relembrou a trajetória pública do amigo Júlio Belém, explicou qual seria sua nova função em Brasília e conclamou os parintinenses a sufragarem seu nome.
Terminado o comício, um compadre dele, já falecido, chamado Diquinho, subiu no palanque para dar um abraço no candidato. No meio do amplexo, José Esteves desmaia. Pânico na multidão. Alguns cabos eleitorais mais afoitos queriam subir no palanque para esfolar Diquinho, mas foram contidos pelos seguranças.
O prefeito providencia a remoção de José Esteves para a clínica do doutor Romualdo, na avenida Amazonas canto com a Tamaquaré. O doutor Romulado coloca José Esteves numa maca e examina os ossos da bacia, as costelas, o crânio, apalpa a barriga, os músculos, mas não descobre nada.
Recuperado do desmaio, o candidato agora urrava de dor, num diapasão monocórdico: “aaaiiii.... aaaiiii... aaaiiii...”
Lá fora, na frente da clínica, a multidão estava inquieta e xingava o causador da desgraça: “Filho da puta daquele Diquinho escroto!”, “O homem ia dar dinheiro pra gente e o cabra liquidou o homem!”, “Se eu pego aquele disgramado eu dou uma peixeirada nas tripas!”. A esta altura do campeonato, Diquinho já havia tomado um rumo incerto e não sabido.
– Olha, Gláucio, sinceramente, eu estou perdido – confessou o médico ao prefeito. “Acho melhor a gente chamar o Waldir Viana...”
José Esteves já havia caído da maca e rolava pelo chão, segurando a barriga, fazendo contorções dignas de um dançarino de break. Seus urros estavam cada vez mais altos: “aaaaiiii... aaaaiiiii... aaaaiiii...”
Cunhado de Gláucio Gonçalves, o carismático Waldir Viana foi chamado às pressas e começou a examinar o doente com aquelas suas mãos santas (conforme está registrado em uma das músicas de Chico da Silva). Depois de alguns minutos, ele chamou o prefeito num canto da sala e sussurrou:
– Gláucio, eu entendo de quebradura, de “quebradeira” eu não entendo! – disparou. “O deputado está ‘quebrado’, mas é financeiramente. E disso eu não entendo...”
Na manhã seguinte, José Esteves sai da clínica numa maca. Ele está visivelmente abatido, tomando soro e sendo assistido por três enfermeiras. A maca é cuidadosamente colocada numa pick-up, que ganha a direção do porto de Parintins.
O candidato, num esforço hercúleo, como se estivesse puxando o último sopro de vida, ainda consegue hipnotizar a massa ao gritar para seu compadre Belaco, que estava dentro da cabine do veículo: “Fala... aaaiiii... pra esse cara.... aaaiiii.... ir mais.... aaaiiiii.... devagar.. aaaiiii... com o andor... aaaiiii.... que o santo.... aaaiiii.... é de barroaaaiiiiiiii...”
Uma multidão fanática acompanha o cortejo, puxando terços, entoando hinos sacros e rogando pela vida do candidato.
A maca é cuidadosamente transportada para a lancha, que parte célere sobre as águas barrentas do rio Amazonas.
Quando a lancha dobrou a ponta da ilha, deixando definitivamente Parintins para trás, José Esteves retirou a agulha de soro do braço, levantou-se, espreguiçou-se e, aspirando uma boa dose de oxigênio matinal, abriu o coração:
– Tô começando a sentir um ar melhor...
Mesmo estando mais quebrado do que arroz de terceira, José Esteves foi o senador mais votado do pleito.
O pajé e o vereador
Maio de 1976. Chegando a Manaus para rever os amigos, o antropólogo Nunes Pereira está sendo ciceroneado na cidade pelo poeta Anthístenes Pinto. Embora maranhense de nascimento, Manuel Nunes Pereira era uma das figuras exponenciais da nossa literatura tendo sido, inclusive, um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras.
Quando da sua morte, em 1985, sua biblioteca de 5 mil livros foi comprada pelo Governo do amazonas e hoje faz parte do acervo do IGHA. Em 1993, o jornalista Arlindo Porto lançou o belíssimo livro “Nunes Pereira: o cavaleiro de todas as madrugadas do universo”, onde mostrava algumas facetas do autor do clássico “A Casa de Minas”.
Durante o passeio com o poeta, o pajé Nunes Pereira, do alto dos seus 83 anos bem vividos, cismou que queria rever o pessoal do Clube da Madrugada, para tomar umas “branquinhas” e atualizar as fofocas. Anthístenes Pinto resolveu leva-lo ao bar do Alfredo, no cruzamento das ruas Ferreira Pena com Monsenhor Coutinho.
Todos os intelectuais presentes (Artur engrácio, Jorge Tufic, Aloísio Sampaio, Van Pereira, Carlos Genésio, Garcibal do Lago e Silva, Rômulo Gomes e Afrânio de Castro, entre outros) fizeram a maior festa ao ver o morubixaba cada vez mais lúcido e saudável. Quer dizer, todos menos um. Sentado sozinho a uma mesa nos fundos, preparando-se para detonar a segunda garrafa de uísque vat 69, o vereador Fábio Lucena fez questão de não se manifestar.
Intrigado, Anthísthenes Pinto pegou Nunes Pereira pelo braço, levou-o até a mesa do vereador e tentou quebrar o gelo:
– Êi, Fábio, o que está havendo? Esse aqui é o autor de “Moronguetá – um decameron indígena” e de “Panorama da alimentação indígena”, dois livros fundamentais sobre a Amazônia. Este aqui é o nosso grande Nunes Pereira!!!
Fábio Lucena ajeitou os óculos, limpou a boca com a manga do paletó, olhou para aquele sujeito com fisionomia de índio e vasta cabeleira branca, que fazia um belo contraste com sua tez escura, aí, escandindo bem as sílabas, sem levantar-se da cadeira, disparou à queima-roupa:
– Nunes Pereira? O senhor, por acaso, não seria o tio da matinta pereira?...
Foi a primeira vez na vida que o pajé perdeu as estribeiras. E só não deu um tabefe no insolente vereador porque foi resgatado a tempo pela turma do “deixa disso”.
Explode, coração!
Agosto de 1994. O então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, candidato a governador pela segunda vez, viaja para Parintins com seus assessores, onde vai fazer um de seus últimos comícios de campanha. Minutos antes, no aeroporto Eduardinho, em Manaus, os setenta e cinco candidatos a deputado federal pela sua (dele) coligação haviam se envolvido em uma pancadaria generalizada tentando garantir uma das quatro vagas ainda disponíveis na pequena aeronave do “caboco”.
Aboletados em torno do prefeito, estão viajando os vencedores do “Ultimate Fighting Championship”, versão baré: Átila Lins, Cláudio Chaves, Euler Ribeiro e Pauderney Avelino. Enquanto isso, no aeroporto de Parintins, começavam a se posicionar, nas proximidades da pista, as claques dos referidos candidatos. A mais numerosa era a comandada pelo clã dos Gonçalves, que apoiavam Átila Lins, mas a mais ruidosa e articulada, sem sombra de dúvidas, era a que apoiava o Cláudio Chaves.
Comandada pelo badalado maestro Gudu, a turma do Cláudio Chaves levara tamborins, caixinhas, taróis, bumbos de marcação, bumbos treme-terra, repiniques, ganzás, agogôs, cuícas, charangos e uma trupe de passistas feministas de tirar o fôlego. Mal comparando, a claque era uma espécie de escola de samba em miniatura, com cerca de 150 integrantes vestindo a camisa do candidato, e estava mandando bala numa versão daquele refrão ganchudo de um conhecido samba-enredo do Salgueiro.
A nova letra do refrão dizia o seguinte: “Explode, coração, na maior felicidade/ É lindo Cláudio Chaves/ Fazendo um grande sucesso na cidade”. A cada três passagens do refrão, uma salva de morteiros explodia nos céus da ilha de Tupinambarana, anunciando o fim do mundo. Aquilo não era recepção para candidato a deputado federal, aquilo era recepção para candidato a Presidente da República. E dos Estados Unidos.
Vendo aquela cena apoteótica, as claques dos demais candidatos ficaram mudas de vergonha e ameaçaram bater
A contaminação foi imediata. Em questão de minutos, todas as claques (inclusive a do Gudu, para desespero do maestro) estavam cantando a versão espúria. Cláudio Chaves queria se enterrar. Foi um custo fazer o médico descer da aeronave. Ele e seu cabo eleitoral Jacob Cohen, também médico oftalmologista, não mereciam tamanha descortesia...
O Advogado do Diabo
Início dos anos 60. Manaus é uma cidade com pouco mais de 200 mil habitantes e está sofrendo uma das piores crises de desabastecimento de sua história. As prateleiras dos poucos supermercados estão às moscas. Metade das tabernas existentes no subúrbio já fecharam. As outras, vendem apenas cachaça e farinha d’água. O mercado Adolpho Lisboa parece uma cidade-fantasma. As pessoas brigam nas ruas por uma lata de conserva. Os gatos começam a desaparecer e ressurgir como churrasquinho em algumas barraquinhas suspeitas na orla da praia do Amarelinho,
Um anúncio publicado nos três principais jornais da época (A Crítica, Jornal do Comércio e O Jornal) desperta a curiosidade da população: “Oportunidade Única – Ovos de galinha Leghorne – Por motivo de viagem, vende-se excelentes ovos frescos de galinha da apurada raça Leghorne, por apenas Oitenta Cruzeiros a Dúzia. Havendo somente dois mil ovos disponíveis, pedimos aos interessados fazerem suasa quisições a partir de hoje. Informações e vendas com o sr. José Ribamar Afonso, à Av. Getúlio Vargas, 179, telefone 20-98, no horário das 11h30 às 14h e de 18 às 20h.”
O trecho da Getúlio Vargas, entre as ruas Saldanha Marinho e Henrique Martins, transformou-se num arremedo de arquibancada do Parque amazonense em dia de clássico Rio-Nal. Mais de 10 mil pessoas se dirigiram para o local, lembrando romeiros em busca de milagres na Cova da Iria. Quando o jornalista Ribamar Afonso chegou na sua residência, por volta do meio-dia, quase teve um troço. Ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo e imaginou, de cara, que havia acontecido alguma tragédia com a sua família.
Depois de tentar explicar, sem sucesso, que era o dono da casa (quem iria acreditar naquela história e ceder a vez para um “furão” meio almofadinha que, ainda por cima, era gago?), Ribamar resolveu romper o cordão humano na base da cotovelada. Numa odisséia que durou mais de dez minutos, ele finalmente conseguiu abrir o portão de ferro da residência e se refugou no sacrossanto lar, enquanto a malta de famintos, cada vez mais ensandecida, exigia que os ovos começassem a ser vendidos.
Na sala da residência, o coronel PM Tenístocles Trigueiro, acompanhado da esposa Mirtes (que portava uma elegante cesta de ovos feita de arame), discutia asperamente com a mãe de Ribamar, que também não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Outros dois sujeitos haviam sido enviados pela Petrobrás, que queria todos os ovos disponíveis e invocava sua condição de empresa estatal estratégica contemplada com tratamento preferencial diferenciado durante as crises de desabastecimento por contingência da segurança nacional do país. Ribamar passou meia hora explicando que vermelho não servia pra luto: sim, o endereço era dele, o nome era dele, o número do telefone era dele, mas não tinha sido ele que mandara publicar o anúncio...
Mais gago do que nunca (o nervosismo aumenta o embaraço fônico característico dos tartamudos, diz a ciência), Ribamar percebeu que se fosse tentar explicar a situação para aquela turba furiosa seria transformado em picadinho e resolveu apelar. Apanhou uma cartolina em branco, pegou um pedaço de carvão e mandou brasa: “Acabaram-se os ovos. Estamos aguardando uma nova remessa”. Aí, como se fosse uma daquelas mocinhas que entram no ringue para anunciar um novo round, levantou a cartolina sobre a cabeça e ficou andando pra lá e pra cá, no pequeno terraço de sua residência, exibindo o cartaz. Foi vaiado, recebeu alguns caroços de pupunha no cocoruto, desviou-se de um ou outro saco de dindim, teve sua masculinidade colocada em suspeição, mas conseguiu dispersar a multidão.
Á noite, no Café do Pina, os autores da brincadeira (Frank Benzecry, Clínio Brandão, Hamilton Rio Negro Franklin e João Alfredo Veiga) constataram que a gagueira do amigo estava mais sólida do que nunca e partiram para o plano B. sem que Ribamar tomasse conhecimento, eles descobriram uma gráfica de fundo de quintal e mandaram imprimir 30 mil filipetas tipo “mosquito” com o seguinte texto: “Comitê Pró-propaganda do Jornalista Ribamar Soares Afonso. Comunicamos ao povo em geral estar a partir desta data lançada a candidatura à Deputação estadual do vibrante orador e jornalista José Ribamar Soares Afonso. Convidamos, outrossim, seus correligionários a se fazerem presente numa reunião que será realizada no dia 11 (onze) do corrente, às 20 horas, à av. Getúlio Vargas, 179, oportunidade em que o referido candidato exporá seu plano de metas. Manaus, 8 de fevereiro de
As 30 mil filipetas foram distribuídas pela cidade, mas no dia da reunião apareceu uma única alma piedosa: a do professor de inglês Nazareno Brasil Ramos, que não gostou nem um pouco da “brincadeira”. Agora, além de gago, Ribamar Afonso descobrira, com uma certa dose de comiseração, que não gozava de qualquer prestígio político na cidade. Formado
Em 1968, então advogado recém-formado, Ribamar começou a trabalhar na polícia civil, como delegado assistente. Ele só seria efetivado como delegado titular em 1975, quando passou no concurso público para delegado em primeiro lugar, obtendo 195 pontos. O secretário estadual de Administração, que elaborou o referido concurso, foi o advogado Lourenço Braga, secretário estadual de Administração no terceiro governo de Amazonino Mendes e primeiro reitor da UEA o que mostra que o exercício do poder é mesmo uma fonte da juventude. Para se ter uma idéia do nível de dificuldades das provas, o ex-deputado estadual Nonato Lopes obteve somente 40 pontos. O ex-vereador Vilson Benayon e o ex-radialista João Bosco Ramos de Lima foram reprovados, mas conseguiram ser efetivados na base do “tapetão”. João Bosco ainda exerceria os cargos de vice-governador e senador da República pelo Amazonas.
A fama de Ribamar Afonso ter parte com o Coisa Ruim começou em 1968. Manaus era uma cidade pacata, com um nível de criminalidade baixíssimo, mas era só Ribamar ficar como delegado plantonista para o Capiroto mostrar o rabo. Alguns exemplos: um louco, completamente nu, invadiu a igreja da Matriz para dar um sermão durante a missa dominical das seis da manhã quase matando do coração as beatas Filhas de Maria, que se encontravam orando no local. Um ladrão chamado Xandico, que estava no isolamento, amanheceu enforcado dentro do xadrez da Delegacia Geral. Uma mãe estrangulou a filha com o cordão umbilical logo após dar à luz e jogou o corpo da criança numa lata de lixo. O empresário Figueiredo, dono da pensão Maranhense, seviciou e matou o engraxate Walderglace. Uma equipe do Der-Am, quando trabalhava na ampliação da avenida Constantino Nery, descobriu um esqueleto humano pendurado numa árvore, atrás do bordel Verônica. E o diabo é que por mais esdrúxulos que fossem os casos, Ribamar acabava desvendando tudo e sempre chegava aos culpados.
Um dia, o comissário Mariolino Sá Pinheiro, num momento de indiscrição, falou para a imprensa que os policiais se benziam quando liam o nome do delegado escrito na lousa, toda vez que o “gaguinho” era escalado para o plantão. Os jornalistas, claro, deitaram e rolaram. Ribamar Afonso virou o Delegado do Diabo e, até se aposentar, em 1985, foi um grande exemplo de dignidade, zelo e competência, porque sempre levou a sério a questão da segurança pública.
Apertem os cintos, que o piloto pirou
Maio de 1994. O médico oftalmologista Cláudio Chaves, candidato a deputado federal com o criativo slogan “homem de visão”, se prepara para fazer um grande comício
Em Parintins, Mário Paulaim, um dos cabos eleitorais do candidato, convence seu irmão, o compositor e radialista Carlos Paulaim, a substituí-lo na missão. O radialista topa e, depois de embarcar o material de propaganda na aeronave, se aboleta no banco de trás, pronto para a viagem de quinze minutos. Ao lado do piloto, se senta o médico Tarciso Laime, que resolveu, de última hora, aceitar o convite do radialista para acompanhá-lo na aventura. O piloto da aeronave, um sujeito chamado Manoel, está visivelmente nervoso, tenso e mal humorado. Mal os dois passageiros apertam os cintos, ele pergunta, com rispidez:
– Rapaz, vocês vão votar em quem?...
– No Cláudio Chaves, claro! – responde Paulaim, meio sem jeito.
– É, nós vamos votar no Cláudio Chaves! – reforça Tarciso.
O piloto gira a chave na ignição, o motor não faz nem barulho. Ele começa a dar palmadas no painel com violência e repetir “Porra! Porra! Porra!”, enquanto gira a chave na ignição diversas vezes. Depois de alguns minutos, que parecem horas, o motor “pega” e a hélice começa a girar. Paulaim, já suando frio, inicia, baixinho, de forma que o piloto não perceba, a oração do Pai Nosso. Tarciso fecha os olhos e pensa no dia do Juízo Final.
Enquanto o avião começa a ganhar altura, o piloto reinicia a conversa, mostrando estar profundamente enfezado com a resposta dos dois:
– Vocês vão votar nesse filho da mãe? Esse cara é o maior filho da mãe que tem! – vocifera ele, completamente transtornado. “Rapaz, esse filho da mãe não desconta até a coca-cola que a gente toma no hotel?!... Esse cara é um fulêro muito grande! Se eu não fosse morrer, eu jogava a porra desse avião em cima do primeiro pedaço de terra que aparecesse, só pra não ter de entregar a propaganda do fulêro...”
Percebendo a gravidade da situação, o radialista iniciou mentalmente uma Salve Rainha e tentou sair pela tangente:
– Meu irmão, eu só estou indo fazer essa entrega porque o Mário Paulaim me pediu! Eu lá vou votar num cara escroto que nem esse!...
Tarciso não consegue nem abrir a boca. Seu corpo está tão frio que sua mandíbula entrou em processo de rigidez cadavérica. O piloto continua falando cobras e lagartos do candidato e ameaçando jogar a aeronave na serra da Valéria. Quinze minutos depois, eles chegam na praia da Liberdade. Um bote se aproxima do avião, recolhe os dois passageiros e o material de propaganda. Sem sair da cadeira, o piloto pega uma chave de fenda, começa a desmontar o painel e dá um ultimato:
– Se demorarem muito aí nessa merda, eu vou embora sem vocês...
A “merda” era o comício do Cláudio Chaves, mas nenhum dos dois teve coragem de contar ao candidato o que estava acontecendo.
Uma hora depois, Paulaim e Tarciso estão novamente dentro da aeronave, ao lado do piloto-suicida, que retomou a conversa anterior:
– Vocês viram só a cara do filho da puta lá na frente do povão? Minha vontade era subir no palanque e dizer que aquele fulêro não vale nada! Aquilo é um bandido, um safado, um nó cego!...
Aí, virando-se subitamente para o banco traseiro, enquadrou o radialista:
– E, você, rapaz, o quê que você acha?...
– Pra ser sincero, eu concordo com tudo que o senhor disse – escafedeu-se, mais uma vez, Carlos Paulaim, enquanto apertava na mão a medalhinha do Menino Jesus de Praga e iniciava mentalmente a oração de São Jorge da Capadócia.
Quando o avião estava sobrevoando Parintins, preparando-se para descer no rio Amazonas, Tarciso fez uma pergunta desinteressada, tentando mudar o tom da conversa:
– Escuta aqui, ô Manoel? E esse avião é seguro?...
– Esse aqui?... Esse aqui?... – o sujeito parecia não ter entendido a pergunta e aumentou o tom de voz. “Esse aqui plana, caceta, esse aqui plana! Essa porra daqui é segura, não cai nem com nojo!...”
– Ô Manoel,é ruim, hein? – insistiu Tarciso. “O avião só tem uma palheta, se parar a gente cai...”
O piloto se encrespou:
– Não cai, porra nenhuma! Não cai, porra nenhuma!
E desligou a chave de ignição.
O avião começou a cair em queda livre e, a menos de duzentos metros do solo, o piloto ligou o motor de novo e arrematou.
– Não falei que essa desgraça é segura? – insistiu o piloto.
Os dois passageiros só voltaram a abrir os olhos depois que o avião deslizou no rio Amazonas. Nunca mais Tarciso e Paulaim quiseram saber de campanha eleitoral. Mas no dia da eleição votaram no Cláudio Chaves.
O vereador apressadinho
Dono das famosas Casas Suburbanas, de Itacoatiara, o comerciante Jauari Nicolino se candidatou a vereador pelo PDS e terminou na 15.ª suplência. Para assumir uma vaga, só matando os cinco eleitos e pelo menos 10 suplentes.
Numa determinada tarde, quando se preparava para fechar a loja, o comerciante ouviu pela rádio Difusora que o vereador Luiz Onety havia falecido e que um suplente do PDS seria convocado para assumir a vaga do edil.
Nicolino ficou tão excitado com a notícia que nessa noite não conseguiu pegar no sono.
Mal o dia amanheceu, ele escanhoou o rosto, aparou os pêlos das narinas, cortou as unhas, passou brilhantina no cabelo, pegou o melhor paletó no armário, perfumou-se todo e rumou para a Câmara, onde montou campana. Por volta das 10h, o vereador Jurandir Chagas, presidente da Casa, deu o ar de sua graça e espantou-se com a presença de Nicolino no local.
– O que é que você está fazendo aqui, compadre? – perguntou Jurandir.
– Ué, eu vim assumir a vaga do Luiz Onety! – explicou o comerciante.
– Assumir como, se você é o décimo-quinto suplente, compadre?! – insistiu Jurandir
– Pode ser... Só que eu cheguei aqui primeiro!... – avisou Nicolino, com um ar triunfal.
Foi um saco explicar ao comerciante que o que valia não era a ordem de chegada na Câmara, mas a ordem de chegada no pleito...
Deus está morto
Do coletor de rendas Telino, comentando sobre a posse do vereador Pagão, então presidente da Câmara, na prefeitura de Tefé:
– Agora, se esculhambu-se tudo de vez! A cidade num tem água, num tem luz, num tem escola, num tem hospital, num tem nada que preste e inda botaro de prefeito um sujeito que nem batizado é! Cumé que Deus pode ajudar uma tranquera dessa?...
Wyatt Earp caboclo
Cabo eleitoral do PTB em Borba, o comerciante Eliseu Santana estava sendo julgado em Manaus por fraude e corrupção, acusado de violar urnas eleitorais e comprar votos para Tércio Araújo e Plínio Coelho.
Enquanto transcorria o julgamento, ele aguardava em sua casa, nervosamente.
De repente, toca o telefone e o advogado encarregado da sua defesa, diz, sem esconder a euforia:
– Doutor, a justiça foi feita!
– Vamos apelar! – emendou o comerciante, mais rápido do que Wyatt Earp enfrentando a quadrilha de Ike e Billy Clanton no célebre tiroteio do OK Corral.
O cristão-novo
Durante um comício em Parintins, Valdivino Mafra, o “Socozinho”, um ex-desordeiro que havia se regenerado e era candidato a vereador, discursava, inflamado, explicando sua conversão evangélica:
– Meus eleitores! Quando cheguei aqui, vindo de Faro, juro que tinha parte com o cão! Eu fiz muita indecença com crianças! Eu fui viciado em dirijo! Eu fui traficante! Eu fiz assaltos! Eu roubei lojas! Eu matei gente!
Aí, a turma do fundão começou a bater palmas e puxar um coro bem animado, que contagiou o resto da platéia:
– Prende! Prende! Prende!
Puto da vida, Socozinho abandonou o palanque e a candidatura.
Banho de Lua
Fevereiro de 1980. Candidato derrotado ao Senado pelo MDB em 78, Fábio Lucena está reorganizando o partido em todo o Estado visando as eleições de 82, onde pretende dar o troco. Tendo como companheiro de fé apenas o ex-deputado estadual José Dutra, ele está indo para Barreirinha, para dar posse ao novo diretório municipal. O barco em que os dois viajam singra lentamente as águas barrentas do Paraná do Ramos. A lua cheia ilumina o rio, fazendo um contraste espetacular com a escuridão da floresta.
Para passar o tempo, os dois conversam sobre amenidades e enchem a caveira feito gente grande. Fábio já detonou a segunda garrafa de uísque Vat 69 e parte, célere, para a terceira, quando acaba o gelo. José Dutra, que já havia enxugado quinze cervejas Brahma, desce do tombadilho para providenciar o material e requisitar mais tira-gosto de jabá.
Quando Dutra retorna ao tombadilho, cinco minutos depois, não encontra mais ninguém. A garrafa recém-aberta de Vat 69 e uma dose no estilo cow-boy descansando no copo são os únicos indicativos de que havia alguém ali, mas Fábio Lucena simplesmente desapareceu.
O ex-deputado entra
O barco faz o retorno e começa a voltar, em baixa velocidade. O holofote esquadrinha o rio, palmo a palmo, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, do norte pro sul, do leste pra oeste, mas nada de encontrar o vereador. Os foguetes de sinalização são lançados. Quando ocorre a explosão, as águas do rio assumem uma cor de sangue e a luminosidade residual clareia completamente o entorno do barco. Nem sombra do vereador.
– Uma hora dessas, uma piraíba já mamou o sujeito todinho de fio a pavio! – comenta um dos tripulantes, deixando Dutra cada vez mais nervoso. Sem se importar com o despropósito daquele comentário fora de hora e como se estivesse conjugando uma nova versão da língua do pê, o cozinheiro da embarcação vai em frente: “O que tem de piraíba, pirara e piranha preta nessas águas, não está no pindacuema! E esse Paraná tem prumada de mais de quinze metros...”
Vinte minutos de agonia e maus pressentimentos depois, alguém divisa uma coisa se mexendo no rio e dá as coordenadas para o holofote meter bronca. A primeira impressão é que se trata de um boto tucuxi. O barco se aproxima mais um pouco e – surpresa – é o Fábio Lucena, feliz como uma criança, brincando de mergulhar, se fingir de morto e flutuar de costas. Com roupas, óculos, sapatos e tudo.
O vereador é içado para bordo, ainda meio de porre, mas mais feliz que pinto
– Porra, Fábio, tu quase que mata a gente de susto! Que loucura foi essa de cair n’água sem nos avisar? E se o barco tivesse seguido viagem, sem que a gente desse pela tua falta?...
Providenciando uma nova dose de Vat 69 com bastante gelo, Fábio fez ouvidos de mercador.
– Ora, ora, ora, meu caro Dutra, você nem parece que já foi poeta! – explicou o vereador, enquanto despia as roupas molhadas. “O que sucedeu é que estando eu sozinho na amurada do barco, pus-me a olhar a beleza destas águas pardacentas, quando divisei a lua cheia refletida nelas. Mas não era uma lua qualquer. Não. Era uma lua brilhante, virginal, féerica, como sói somente ser a lua dos enamorados. E, aí, me deu uma vontade incontrolável de banhar-me nesta lua mágica, deslumbrante, impoluta. Pois foi o que fiz. Ou você vai me dizer que nunca teve vontade de tomar banho de lua?...”
Dutra ficou besta.
Aí, logo após sorver com prazer uma nova dose de uísque e se enrolar numa toalha seca, Fábio começou a cantarolar aquele antigo sucesso de Celi Campelo: “Tomo um banho de lua/ Fico branco como a neve/ E se o luar é meu amigo/ Censurar ninguém se atreve/ Como é bom sonhar contigo/ Ô, luar tão cândido...”
Dutra ficou mais besta ainda e teve que concordar com o amigo de que há muito tempo deixara de ser poeta. Por via das dúvidas, o ex-deputado não se afastou da mesa do tombadilho enquanto o poeta temporão não detonou a terceira garrafa de uísque e foi levado pelos tripulantes para dormir o sono dos justos na presença de Morfeu.
Nos tempos da Redentora
Agosto de 1978. Funcionário da Sharp do Brasil desde 1973, onde entrara com 17 anos, eu tinha tudo para ser um executivo bem sucedido: engenheiro eletrônico formado na primeira turma da Utam, cursava o 2.º ano de Administração na FUA, era assessor técnico do Diretor Industrial (Antônio José Areosa, filho do ex-governador Danilo Areosa, que era o Diretor Superintendente) e homem de confiança de Matias Machline, o dono da empresa. Na época, a Sharp era a maior empresa da ZFM com cerca de 5 mil funcionários e três unidades fabris. O empresário Matias Machline morreu num acidente de helicóptero, nos EUA, em 1994.
Volta e meia, eu era despachado para São Paulo levando documentos sigilosos para serem entregues pessoalmente na mansão do Morumbi, onde morava o clã Machline, e, entre outras traquinagens, “contrabandeava”, a partir de Manaus, milhares de peças de reposição para as assistências técnicas da empresa espalhadas pelo país, já que a legislação vigente impedia a importação das peças pelas vias legais. Como já se passaram mais de vinte anos, espero que o crime tenha prescrito.
O “contrabando” era simples. A gente retirava o chassi de uma televisão ou de um aparelho de som e enchia o aparelho de peças de reposição (válvulas, transistores e circuitos integrados) até ele ficar com o mesmo peso original. Aí, bastava identificar o aparelho com os dizeres “Segregar no Almoxarifado Central e enviar aos cuidados de Paulo Aratangy – Engenharia de Campo – Sharp do Brasil – São Paulo”. Por fax, eu informava ao Paulo Aratangy em que carreta estava seguindo a “encomenda” e a quantidade de componentes enviados. Não lembro dos números, mas devo ter enviado mais de US$ 20 milhões em peças de reposição.
Em 1977, eu havia passado dois meses no escritório central da Sharp, na avenida Bela Cintra,
Recém-chegado dos Estados Unidos, onde fizera um curso de pós-graduação no Massassuchets Institute of Tecnology (MIT), o engenheiro eletrônico Geraldo Nogueira, irmão do atual Secretário de Educação, Vicente Nogueira, e meu colega de turma na Utam, foi contratado, em junho de 78, para me auxiliar na tarefa de “reengenharia”. A gente logo descobriu o truque embutido na nova organização preconizada pela FGV. Os grumetes nativos (nós, de Manaus, que havíamos colocado a mão na massa e transformado a Sharp numa potência) iriam apenas servir de escada para os executivos paulistas abordarem a embarcação e controlar o navio. Expliquei para o operariado o que estava acontecendo e eles me mandaram ir em frente.
Nas internas, a batalha já havia começado. O atual deputado estadual Liberman Moreno, na época Gerente Contábil da empresa, estava ensinando a legislação aduaneira para um sujeito medíocre que depois, automaticamente, seria seu novo chefe. O atual prefeito de Novo Airão, Luis Carlos Areosa, na época Gerente Administrativo, estava ensinando as normas e procedimentos da empresa para um sujeito mais medíocre ainda, que depois também seria seu chefe. A mesma coisa estava ocorrendo dentro das fábricas (no meu caso específico, dei um pouco mais de sorte: meu “virtual” novo chefe seria o talentosíssimo engenheiro argentino Daniel Dazcal, fundador da Tec Toy e morto precocemente de câncer há alguns anos).
As cartas estavam dispostas na mesa e não havia ponto de retorno. Ou nós partíamos para a radicalização, exigindo que os cargos gerenciais continuassem nas mãos dos amazonenses, ou seríamos simples “lambaios” da paulistada, cuja competência empresarial era bastante discutível (tanto que a empresa faliu...). Optamos pela primeira via e, em plena ditadura militar, no mês do cachorro louco, fizemos a primeira greve do Distrito Industrial, com paralisação total do operariado. Durante três dias, eu, Geraldo, Liberman, Luís Carlos, Reinildo, Lean, Sales e os demais gerentes encaramos o aparato militar colocado em campo pelo Matias Machline com o único intuito de nos intimidar. Na calada da noite, um dos gerentes roeu a corda e nos entregou (eu e Geraldo) de bandeja. Fomos os únicos demitidos no final das negociações.
Machline prometeu mundos e fundos para quem retornasse ao trabalho, afirmando categoricamente que não haveria represálias. Claro que ele não cumpriu o acordo e, nos seis meses subseqüentes à greve, mais de 80% dos gerentes foram substituídos ou simplesmente demitidos. O diabo é que o famigerado Grupo de Relações Industriais (GRI), uma máfia formada por gerentes e chefes de pessoal do Distrito Industrial, plantou o boato de que aquele movimento nativista estava sendo orquestrado pelos engenheiros eletrônicos da Utam. Da primeira turma de formandos (que está completando 25 anos agora em agosto), quem trabalhava no Distrito foi demitido sumariamente: Engels Medeiros e Carlos Almeida (Evadim), Adalberto de Melo Franco e Paulo Roberto Saraiva (Semp-Toshiba), Aldenir Alencar (Telefunken), e por aí afora. Com os nomes inscritos na lista negra do GRI, nossa única alternativa era tentar o serviço público.
Em novembro de 78, ainda desempregados, estávamos discutindo o que fazer da vida (assaltar um banco, seqüestrar um empresário, explodir as fábricas paulistas ou se mudar para o interior) num boteco chamado Farol das Batidas, em frente à TV Amazonas, na Cachoeirinha, quando um sujeito todo de branco passou pela nossa mesa. Carlos Almeida achou que era o garçom e pediu mais uma nova rodada de batidas. O sujeito explicou que não era garçom, que tinha entrado no bar apenas para comprar cigarros, e a gente caiu na gargalhada. Bêbado ri de tudo.
Quinze minutos depois estaciona ruidosamente uma camionete Veraneio da Polícia Militar em frente ao boteco e descem do carro seis policiais da tropa de choque armados de metralhadoras. Eles encostam as armas nas nossas costelas e começam a nos xingar, numa balbúrdia infernal. Geraldo e Engels tentam confabular, mas são escorraçados. O sujeito de branco reaparece, aponta para o Carlos Alberto e diz “foi aquele”. Os meganhas se lançam em cima dele, torcem seus braços para trás, algemam, abrem a porta do camburão e o jogam lá dentro, com brutalidade. Aí, ligam a sirene e saem cantando pneus no rumo da Praça Catorze. A cena toda não durou três minutos.
Entramos em pânico, já que naquela época era comum a repressão “sumir” com os inimigos do regime (Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho haviam sido mortos no ano anterior, na PE paulista). Adalberto de Melo Franco me levou à casa do ex-senador Artur Virgilio Filho, que eu ainda não conhecia, onde relatei o ocorrido. Ele nos mandou procurar urgentemente o Felix Valois ou o Paivinha. Era um sábado, início da noite, e no escritório jurídico mais famoso de Manaus estava apenas o Alberto Simonetti, debruçado sobre um processo volumoso. Explicamos logo nossa situação: estávamos desempregados e, portanto, sem condições de pagar um tostão furado pela causa. Ele nos tranqüilizou: “Quem mandou vocês aqui foi o nosso senador Artur Virgílio Filho? Então é uma causa justa, meu irmão!”
O Simona agiu como um verdadeiro herói. O sujeito de branco era um coronel aposentado da PM, que dava expediente na Segunda Seção. As prisões efetuadas por ele não eram registradas nos livros de ocorrências das delegacias e o preso ficava no isolamento total. Para soltar alguém que o tal coronel prendia, somente com uma ordem pessoal do comandante da PM, na época o coronel Oyama Ituassu. Para completar o quadro, o coronel Oyama havia ido pernoitar em um sítio na Manaus-Itacoatiara. Até hoje não sei a mágica, mas Simonetti conseguiu falar com o coronel (provavelmente por meio de um rádio-amador), que entrou em contato com o comando geral da PM, na Praça da Polícia, autorizando a liberação do detido.
Com um oficial da PM a tiracolo, Simonetti rodou praticamente todas as delegacias de Manaus procurando pelo detido. Em cada uma delas, o advogado ameaçava processar o delegado plantonista se este estivesse mentindo sobre o paradeiro do rapaz. Finalmente, por volta da meia noite, ele localizou Carlos Almeida numa delegacia do Japiim, depois que o engenheiro fez um verdadeiro escarcéu ao escutar, da cela, a discussão do advogado com o delegado. Carlos havia sido colocado no isolamento, junto com o bandido conhecido por “Osga”, que anos depois seria morto pela polícia. Segundo ele, “Osga” havia apanhado tanto que nem conseguia ficar de pé e os policiais já haviam advertido que ele seria o próximo. Nossa dívida com o Alberto Simonetti, portanto, é impagável, mesmo porque nós não lhe demos, sequer, o dinheiro da gasolina. E ainda tem quem não acredite que o país mudou...
O busto do senador
Durante sua primeira gestão como prefeito de Parintins (no período 89-92), Enéas Gonçalves realizou o sonho de qualquer tiete do Fábio Lucena: fez uma praça bastante aprazível, batizada acertadamente de Praça da Liberdade, e entronizou, no centro geográfico da mesma, uma estátua feita de granito do ex-senador, trabalho do artista plástico Jair Mendes.
A homenagem de Enéas foi mais do que justa e veio preencher uma lacuna inexplicável. Em Manaus, onde se destacou como tribuno e jornalista, tornando-se depois conhecido no país inteiro, Fábio Lucena mereceu apenas o nome da ponte que liga o bairro de Aparecida ao de São Raimundo e, salvo engano, o de uma escola da periferia. Mas em Parintins ele ganhou uma praça pública, a Praça da Liberdade, onde reinava soberano.
Autor da caprichosíssima toada “Ninguém gosta mais desse boi do que eu”, o compositor e radialista Carlos Paulaim, que nos anos de chumbo foi um aguerrido militante emedebista, morava a alguns quarteirões da praça e tinha um orgulho justificado do vizinho ilustre. Por isso, foi com espanto que o radialista escutou, num domingo de maio de 1997, o barulho ensurdecedor de várias máquinas operando naquilo, que para ele, era um verdadeiro santuário.
Paulaim pegou a moto, foi ver o que estava acontecendo e quase teve um troço: sob o comando do então prefeito Carlinhos da Carbrás, as máquinas da prefeitura estavam fazendo uma blitzkrieg arrasadora na Praça da Liberdade. Na pá de uma moto-niveladora, ele ainda pôde ver a estátua de Fábio Lucena rolando aos trambolhões, na direção de uma caçamba que recolhia os refugos. A praça foi totalmente destruída em questões de horas. O radialista ficou indignado e quis reagir, mas a quantidade de seguranças armados, presentes no local, impedia qualquer eventual ação de guerrilha.
Na segunda-feira, Carlos Paulaim, que sozinho vale por um exército de boinas-verdes, ocupou seu programa na Rádio Clube para desancar a prepotência do prefeito e encerrou suas diatribes com um apelo emocionado: “Meu amigo, minha amiga! Se você tiver qualquer pedaço do Fábio Lucena, traga pra mim! Nós não podemos deixar que esse prefeitinho apague do nosso convívio a figura iluminada do maior tribuno do Amazonas em todos os tempos!..”
Dois dias depois, chega um curumim no estúdio da rádio, trazendo um pequeno embrulho.
– Seu, Carlinhos, é... sabe, eu trouxe aqui a mão do hômi...
– Tá, meu filho, obrigado! – agradeceu o radialista.
O curumim continuou no local, sério que só cachorro andando de canoa. Paulaim teve que morrer em dois reais, pro moleque ir embora.
Na seqüência, o radialista assumiu o programa e mandou ver:
– Olha, minha gente, eu acabo de receber a mão do Fábio Lucena. Quem tiver outra parte, qualquer parte da estátua, pode trazer aqui na Rádio Clube ou então levar lá em casa, que será bem recompensado. Essa estátua faz parte da história política do Amazonas e da nossa cidade, e possui um valor inestimável. Só quem não percebe isso é esse maluco que hoje ocupa a prefeitura...
Passados alguns dias, Paulaim está se preparando para ir ao curral do Caprichoso, num domingo, quando um sujeito, cheio da “maldita”, bate na porta da sua casa:
– Parente, é o seguinte. Eu vi o senhor falar na rádio, pedindo o negócio do hômi, né, a cabeça ou o corpo do senador, né? – começa o caboco, enquanto dava uma cusparada pro lado e fazia uma careta de cão chupando manga azeda. “Eu nunca me esqueço desse hômi. Aquela placa que tinha..., era... Sem ódio e Sem medo, Zé Dutra e dele, eu votei nos dois...”
Carlos Paulaim ficou todo arrepiado, já que é compadre do ex-deputado federal José Dutra e havia sido cabo eleitoral dele na aludida eleição.
– Parente, a cabeça do hômi taqui comigo! – avisou o caboco.
Aí, mostrou um embrulho pardo, rasgou um pedaço e Paulaim pode perceber o bigodão do ex-senador.
– Parente, eu não tenho dinheiro aqui, mas se o senhor aceitar uma garrafa de cachaça pela encomenda, o negócio tá fechado! – explicou o radialista, controlando, momentaneamente, o ímpeto de se atirar sobre o bêbado, tomar o embrulho na marra e se trancar dentro de casa com seu Santo Graal particular.
– É, parente, então me passa pra cá a bicha! – concordou o sujeito. “Mas é o seguinte, parente. Olha, eu vou levar a cachaça e passar lá no bar do Pedrão, pra dar uma biritada com esse meu amigo velho, mas depois trago ele de volta...
Paulaim concordou.
O bar do Pedrão é um conhecido boteco de pés-inchados de Parintins. Chegando lá, o sujeito colocou a cabeça do senador em cima de uma mesa e todo mundo começou a discursar e fazer brindes ao Fábio Lucena. Por volta das dez da noite, o cicerone da estátua deu a decisão:
– Olha, eu não posso deixar aqui o nosso senador porque tenho um compromisso com o Carlinhos, ele pediu na rádio, já fui lá com ele, essa cachaça aqui foi ele que deu, nós troquemos pela cabeça do senador...
E o cicerone abandonou o bar para cumprir o prometido.
Paulaim, que havia esperado pela devolução da estátua até as oito da noite, já estava no curral do Caprichoso. Segundo os vizinhos, o bêbado só faltou derrubar a porta da casa do radialista, para entregar a encomenda, mas não havia ninguém. Aí, ele sumiu na calada da noite.
Uma semana depois, Paulaim começou a ficar nervoso com o desaparecimento do sujeito. Mas mantinha as esperanças, mandando recados cifrados no seu programa na rádio:
– Quero mandar um abraço praquele meu amigo que gosta de biritar com o senador Fábio Lucena e avisar que estou esperando pela encomenda... – martelava, diariamente, o radialista.
Quinze dias depois, o sujeito aparece no estúdio da Rádio Clube.
– Carlinhos, mano, taqui sua encomenda! – explicou ele, nervoso. “Custou, né, parente, mas taqui a sua cabeça, taqui a cabeça do senador, mano, agora deixa eu ir embora!...”
Vendo a aflição do caboco, Paulaim quis saber o que estava acontecendo. Ele não se fez de rogado
– Pelamor de Deus, parente, a minha mãe já nem dormia mais – começou o sujeito. “Esse hômi é muito perigoso. A minha mãe dizia meu filho, leva esse cara embora senão vão matar nóis! Meu filho, some com essa coisa daqui ou só vai dar pro nosso! Por isso, parente, que só hoje pude vim trazer a encomenda. Os pau mandado do Prefeito passavam todo dia lá em frente de casa, izibindo os berros na cintura e procurando a estalta do senador...Esse hômi é perigoso, parente, Deus que te livre!...”
Na realidade, depois que decodificou as mensagens cifradas ditas pelo radialista, o prefeito Carlinhos da Carbrás e seus bate-paus haviam empreendido uma verdadeira caçada ao que sobrara da estátua de Fábio Lucena nos moldes da caçada que fez a Força Delta americana para encontrar o terrorista Osama Bin Laden nas montanhas afegãs. Até dinheiro eles prometeram, para quem desse uma pista segura. Nos dois casos, os prepotentes deram com os burros n’água.
A cabeça de Fábio Lucena hoje repousa placidamente na sala de estar do Carlos Paulaim, enfeitada com fitas do boi Caprichoso.
Foi mais uma vitória, ainda que parcial, da sensibilidade de um bêbado humilde contra a barbárie de um político demagogo.
A saia justa do Ouvidor-Geral
No final do ano
Em Manaus, quem introduziu esse tipo de “quiz show” foi o radialista Josué Filho, ex-vereador e ex-deputado estadual, ouvidor-geral do Estado e comandante em chefe da rádio Difusora. Em troca de um rancho, de uma camiseta ou de um CD, o ouvinte responde as questões repletas de barbaridades que não podem ser contestadas ou de obviedades rocinantes. Qual é a ave que bota ovo azul? O que faz um filatelista? Qual a maior glândula do corpo humano? Qual o nome da capital da Indonésia? Qual a cor do cavalo Branco de Napoleão?
Moralismos à parte, qual seria o segredo dessa pequena aventura enciclopédica do nosso ouvidor-geral, que já dura mais de 10 anos e cujos índices de audiência beiram os 65 pontos? Bom, não há intrincados mistérios socio-patológicos a desvendar. Os estudantes do 1.º grau adoram por que aquilo parece ter sobre eles o efeito de um álbum de figurinhas – os prêmios dependem de esforço mínimo do intelecto e alguma dose de sorte. Mas e os adultos? O que leva uma porção de pais de família a perder tempo ligando para uma rádio com o intuito de participar de um programa de adivinhação e cultura inútil de péssima qualidade?
O nome da charada é Josué Filho, um verdadeiro mago da comunicação. Ele venderia geladeiras no Pólo Norte ou aquecedores elétricos no deserto do Saara. Tranqüilamente. “Eu vi esse filme, e acho que não é Liszt – talvez Beethoven ou Mozart”, diz, como quem dá uma dica desinteressada. A pergunta é: qual o compositor clássico que é personagem de um filme do diretor Milos Forman chamado “Amadeus”.
De vez em quando, entretanto, o radialista entra numa saia justa. Lembro de uma delas, cujo diálogo transcrevo de memória.
– Quem está na linha? – pergunta Josué Filho.
– Marco Antônio Ribeiro, do Japiim – responde o ouvinte.
– Marco Antônio, você quer ganhar o ingresso para o show do Jorge Aragão ou quer ganhar um rancho?...
– Quero ganhar um rancho.
– Muito bem. Então responda a pergunta. Qual o nome de um país com duas sílabas, em que uma das sílabas é uma coisa que todo mundo gosta de comer?...
– Cuba – responde o sujeito.
– Ah, sabichão, você quis dar uma de esperto, mas errou feio. O nome do país é Japão... – diz o radialista, sem esconder o constrangimento.
– Olha, Josué, gosto não se discute, certo? Mas que eu acertei, acertei... – devolve o ouvinte.
Só resta ao radialista desligar o telefone do gaiato e chamar os comerciais.
Mas não foi como apresentador de “quiz game” que o nosso ouvidor-geral entrou para o anedotário político. Foi como entrevistador, função que ele exerce com competência ímpar ao deixar todos os entrevistados à beira de um ataque de nervos.
Em março de 1997, já imerso num processo de fritura explícita, o Secretário Estadual de Saúde, Tancredo Soares, é convidado para participar de uma entrevista com o Josué Filho, para explicar um novo surto de cólera
As dependências do estúdio da rádio Difusora onde são realizadas as entrevistas, para quem não conhece, é um pequeno guichê de, no máximo, dois metros quadrados. Não cabe mais do que três pessoas ao mesmo tempo, uma delas tendo que ficar de pé. No local, existe um único microfone, o que impede o entrevistado de reagir, já que o microfone fica o tempo todo na mão do entrevistador. Daí essa facilidade que o Josué Filho tem de fazer a pergunta, responder, tecer seus comentários e deixar o entrevistado falando sozinho, sem que os ouvintes da rádio percebam o truque.
A entrevista com Tancredinho começa. Depois de elogiar o Secretário de Saúde e comentar o assunto que será debatido, Josué vai direto na carótida:
– Mas o senhor não acha que se o estado tivesse feito um trabalho preventivo, a gente não teria tido tantos casos de cólera? – e estende o microfone para o Secretário.
– Na verdade – começa Tancredo – a Secretaria de Saúde fez um trabalho intensivo de prevenção...
Josué retoma o microfone e continua:
– Mas aqui diz que a gente já teve 300 novos casos em apenas seis meses. Esse relatório não foi elaborado pela Sesau?...
– Sim, claro, foi elaborado pela Sesau – explica Tancredo. “Mas como eu estava dizendo, a Secretaria de Saúde fez um trabalho intensivo de prevenção...”
Josué retoma o microfone e continua:
– Olhe, perdoe a minha franqueza, mas se aqui diz que foram 300 casos em apenas seis meses, o governador não tem razão de achar que houve incompetência de sua parte?...
– É verdade, é verdade, eu sou um incompetente! – rende-se Tancredo. Só que antes que Josué Filho começasse a saborear o nocaute técnico, Tancredo toma-lhe o microfone e abre o jogo:
– Eu agora vou falar direto com vocês, meus caros ouvintes, porque o Josué Filho, além de não entender absolutamente nada do assunto, ainda está tentando tumultuar a entrevista. O negócio é o seguinte. A cólera é causada por uma bactéria com a forma de uma vírgula, da espécie Vibrio cholerae. Ela é transmitida por meio de água e de alimentos contaminados e se dissemina com rapidez em cidades sem saneamento básico, onde a população convive em favelas e palafitas ameaçadas por rios poluídos e esgotos. Os primeiros sintomas são vômitos e diarréia. Mas para que a doença se manifeste é necessário ingerir, em média, 1 milhão de vibriões. A dose varia de acordo com a pessoa e o estado de saúde. A doença se manifesta quando uma toxina produzida pelo vibrião colérico age na mucosa do intestino, obrigando o organismo a soltar líquido
Pânico na Difusora. O ouvidor-geral não consegue acreditar no que está vendo (e ouvindo, se é que ele ouve alguém). A espada Excalibur está nas mãos de Lancelot. Puto da vida, Josué Filho abandona o estúdio. Tancredinho continua sua aula didática, agora muito mais à vontade. Pela primeira vez na vida, Deep Blue venceu Kasparov. Mas há um problema. O Secretário não tem nenhuma intimidade com a função de radialista e, portanto, não sabe como apertar um daqueles botões para chamar o “break” comercial. O operador de áudio gesticula, para ele parar de falar e chamar os comerciais. Tancredo nem liga. Agora, ele não se limita mais a falar sobre o cólera, mas sobre todas as moléstias tropicais do planeta. Cita números estatísticos, mostra por A mais B porque investiu nisso ou naquilo, discorre sobre ações de saúde.
No estúdio da técnica, o operador de áudio se desespera. Ele gesticula, aponta para o botão do “break”, aponta para o botão on-off no microfone, mas Tancredinho faz de conta que não é com ele, e segue em frente, cada vez mais empolgado.
Esgotada a questão das doenças, o médico parte para um novo assunto e começa a falar de sua vida de menino pobre nascido
Desse dia em diante, o médico nunca mais foi convidado para participar de um programa de entrevistas na rádio Difusora.
O mulato ilustrado
Advogado recém-formado, o pernambucano Artur Virgilio do Carmo Ribeiro desembarcou em Manaus, em 1905, em companhia do seu ilustre conterrâneo André Vidal de Araújo, ainda hoje considerado “o grande mestre de várias gerações”. A exemplo de André Araújo, Artur Virgilio também seguiu a carreira jurídica, tendo sido juiz em Moura, Fonte Boa, Benjamin Constant, Barcelos, Boa Vista (RR) e Porto Velho (RO).
Desembargador do Estado do Amazonas a partir de 1930, ele foi presidente do Tribunal Regional Eleitoral e do Tribunal Estadual de Justiça, tendo se aposentado em 1952. Homem culto, educado, inteligente e bom caráter, Artur Virgilio era um verdadeiro poço de sabedoria e incorruptível até a alma, mas costumava ser discriminado por causa de sua pele escura. Em virtude da presença de negros no Amazonas ter sido sempre muito restrita, aquele “mulato ilustrado” despertava a curiosidade dos nativos.
Nos anos quarenta, seu filho mais velho, Artur Virgilio Filho, foi candidato a deputado estadual e o “mulato ilustrado”, que tinha uma esplêndida oratória, foi convocado para abrilhantar o palanque do candidato neófito. Durante um comício realizado em Codajás, em 1947, com a praça da cidade apinhada de gente, o então desembargador Artur Virgilio iniciou sua oratória inflamada, de uma beleza estilística a toda prova, falando sobre a hipocrisia de vários homens públicos, que se apresentavam como verdadeiros salvadores da pátria:
– A hipocrisia é mais profunda do que a mentira: esta pode ser acidental, aquela é permanente. O hipócrita transforma a sua vida inteira em uma mentira metodicamente organizada. Faz ao contrário do que diz, toda vez que isto acarrete um benefício imediato. Vive traindo com suas palavras, como esses poetas, que com longos cabelos, disfarçam o fôlego curto da sua inspiração. O hábito da mentira paralisa os lábios do hipócrita, quando chega a hora de pronunciar a verdade.
Uma voz, vinda do comício, interrompeu o discurso do juiz:
– Cala a boca, jumento!
Artur Virgilio tentou divisar o autor do insulto, mas não conseguiu. Ele então fez um corte epistemológico no próprio discurso e mandou bala:
– Jumento?... Jumento?... Sim, por que, não?... Os jumentos são mamíferos da ordem dos perissodáctilos, do gênero Equus, da espécie Equus asinus. São animais facilmente domesticáveis e utilizados desde tempo imemoriais como animais de tração e carga. Foi no lombo de um jumento que a Sagrada Família fugiu para o Egito, foi no lombo de um jumento que Jesus Cristo entrou em Jerusalém e foi por meio do jumento que a civilização litorânea penetrou nos sertões, trazendo a cultura que hoje nos ilumina. Sim, tenho muito orgulho do jumento...
O desembargador fez uma pequena pausa para recobrar o fôlego e retomou seu discurso original:
– Assim como a preguiça é a chave da rotina, e a avidez o móvel do servilismo, a mentira é o prodigioso instrumento da hipocrisia. A Humanidade nunca ouviu palavras mais nobres do que algumas de Tartufo, mas nunca algum homem produziu atos mais em desacordo com elas. Seja qual for a sua disposição social, na privação ou na proscrição, na opulência ou na miséria, o hipócrita está sempre disposto a adular os poderosos, e a enganar os humildes, mentindo a ambos. Aquele que se acostuma a proferir palavras falsas, acaba por faltar a si mesmo sem repugnância, perdendo toda a noção de lealdade para com o próprio espírito. Os hipócritas ignoram que a verdade é a condição fundamental da virtude. Esquecem a sentença multissecular de Apolônio: “De servo é mentir, de livres, dizer a verdade”. Por isso, o hipócrita está predisposto a adquirir sentimentos servis. É o lacaio dos que o rodeiam, o escravo de mil amos, de um milhão de amos, de todos os cúmplices da sua mediocridade.
Novamente a voz interrompeu o discurso:
– Cala a boca, negro!
Novo corte epistemológico. Limpando o suor do rosto com um lenço, Artur Virgilio localizou visualmente o agressor e foi direto ao assunto:
– Negro?... Negro?... Sim, por que, não?... Foram os braços negros dos escravos africanos que ajudaram a colonizar este imenso país. Foram os negros africanos que nos legaram o sincretismo religioso, a musicalidade, a culinária de paladar único e a candura de espírito, muitas vezes confundida com subserviência. Negro também é o petróleo, que está impulsionando uma nova revolução industrial em nosso país, e tem pujança suficiente para reduzir a miséria e a distância que nos separa dos países desenvolvidos. Sim, eu tenho muito orgulho do negro...
O desembargador fez nova pausa para recobrar o fôlego e retomou seu discurso original, cada vez mais incisivo:
– Não tendo valor para a verdade, não é possível tê-lo para a justiça. Em vão os hipócritas vivem jactando-se de uma grande equanimidade, procurando adquirir prestígios catonianos: a sua prudente cobardia impede-os de ser juízes toda vez que possam comprometer-se na lavra do veredicto. Preferem tartamudear sentenças bilaterais e ambíguas, dizendo que há luz e sombras em todas as coisas: não o fazem, entretanto, por filosofia, senão, por incapacidade de se responsabilizarem pelos seus juízos. Dizem que estes devem ser relativos, embora no íntimo da sua maioria julguem infalíveis as suas opiniões. Não ousam proclamar a sua própria suficiência, preferem avançar na vida sem outra bússola, além do êxito, oferecendo o flanco e margeando, e evitando colocar a proa na direção do mais insignificante obstáculo. Os homens retos são objetos do seu centrado rancor, pois, com sua retidão, humilham os oblíquos. Estes, porém, não confessam a sua cobardia, e sorriem servilmente aos olhares que os torturam, embora ainda o vexame: enrodilham-se, a estudar os defeitos de homens virtuosos, para filtrar pérfidos venenos na homenagem que, a todas as horas, são obrigados a tributar-lhes. Difamam surdamente. Traem sempre, como os híbridos que trazem nas veias sangue servil. Deve-se tremer, quando eles sorriem, pois vêm acariciando o cabo de algum estilete oculto sob sua capa.
Mais uma vez a voz interrompeu o discurso:
– Cala a boca, macaco!
Artur Virgilio tirou o lenço do bolso, limpou o suor da face, e enquanto dobrava o lenço para recolocá-lo no bolso do paletó, mirou o sujeito:
– Macaco?... Macaco?... Macaco?... (o desembargador pensou mais um pouco, para falar sobre algo bem grandiloqüente presente na natureza dos símios, mas foi inútil. Não há quase nada a se dizer a respeito da natureza dos macacos. Ele, então, resolveu chutar o pau da barraca) Macaco?... Macaco?... Macaco é a puta que o pariu!... E se você não abandonar este comício agora mesmo, eu desço do palanque e lhe cubro de porradas, seu rufião insolente!...
O sujeito escafedeu-se na mesma hora, com o rabo entre as pernas, e o desembargador foi ovacionado pela multidão por quase dez minutos. Artur Virgilio Filho foi o candidato mais votado em Codajás e se elegeu deputado estadual pela primeira vez. Ele se reelegeria em 1950 e 1954, tornando-se um dos grandes líderes do PTB no Amazonas.
Em 1958, Artur Virgilio Filho se elegeu deputado federal e, em 1962, senador da República, tendo sido líder do presidente João Goulart no Senado. Em fevereiro de 1969, ele teve seus direitos políticos cassados pelo famigerado Ato Institucional n.º 5 e abandonou a política. Seu filho, Artur Neto, foi três vezes deputado federal, líder do presidente FHC no Congresso, Prefeito de Manaus, Ministro Chefe da Secretaria Geral da Presidência da República e atualmente é Senador da República. Representante da quarta geração, Artur Bisneto se elegeu vereador de Manaus e, posteriormente, deputado estadual, sempre pelo PSDB. Ou seja, apesar de enfrentar muitos preconceitos, o “mulato ilustrado” deixou como legado uma nobre descendência.
A música do Capeta
Abril de 1998. Com Parintins em pé de guerra contra o prefeito Carlinhos da Carbrás, o fiscal de tributos federais, Antônio Andrade, convocou uma reunião com todas as lideranças do município, para decidirem o que fazer, já que a via judicial não estava dando resultados. O script era sempre o mesmo: alguém conseguia uma liminar afastando o prefeito, mas o prefeito, logo em seguida, conseguia uma liminar cassando a anterior, e o impasse ia se estendendo, com prejuízos incalculáveis para o município. Só quem estava tirando proveito da situação eram os advogados das partes envolvidas.
A reunião foi agendada para a casa do padre Lupino. Na data combinada, estavam presentes as principais lideranças de Parintins, incluindo políticos, intelectuais e representantes comunitários: Antônio Andrade, Edmilson Prado, João Pedro Gonçalves, Bi Garcia, Tadeu de Souza, Floriano Lins, Heraldo Maia, Henrique Medeiros, Enéas Gonçalves e por aí afora. A decisão do coletivo, que vinha sendo discutida pelos quatro cantos da cidade, era chutar o balde e partir para a violência explícita. Como havia algumas máquinas pesadas da Prefeitura estacionadas na praça da Liberdade, a prova dos nove seria tirada naquela noite: um grupo seria escolhido a dedo, na dita reunião, para se encarregar de jogar gasolina nas máquinas e atear fogo. O pau ia quebrar.
Atual presidente regional do PT, o ex-deputado estadual João Pedro Gonçalves não quis deixar barato e resolveu cortar da linha de três pontos:
– Olha, nós vamos definir uma coisa: isso aqui tem a aprovação de todos!...
O padre Lupino, que acompanhava a discussão à distância, arregalou os olhos e devolveu a bola de manchete para o campo adversário:
– Façam de conta que eu não estou aqui! Façam de conta que eu não estou aqui!...
Diante do nervosismo do padre, a solução pirotécnica acabou sendo descartada e a reunião foi suspensa.
Uma semana depois, o padre Lupino encontra o compositor Carlos Paulaim perto da igreja. Falando bem baixinho, como se a “conspiração” já estivesse nas ruas, o padre começa a conversar com o compositor:
– Bom dia, Carlos Paulaim. Me falaram que você tem uma música que fala do capeta... Como é essa música?...
A música realmente existia. Carlos Paulaim havia feito a composição para detonar um médico que seria candidato a vice-prefeito de Nhamundá, e ela havia caído no gosto da população do baixo-Amazonas. Ele cantou a música e, após a execução, perguntou pela opinião do padre.
– O quê que o senhor acha, padre? Será que vai colar?...
– Olha, meu filho, eu não sei onde nós vamos parar com essa situação... mas, sei lá!... Leva essa música lá pra rádio Alvorada e pede pra eles tocarem, mas não fala que falou comigo...
Carlos Paulaim fez uma pequena modificação na letra (trocando “Nhamundá” por “Parintins”) gravou a música e colocou na mão dos programadores musicais da rádio Alvorada, que pertence à Igreja. A música começou a tocar noite e dia e virou a trilha sonora do verão da ilha:
“Parintins jamais vai aceitar/ Um forasteiro cheio de armação!/ É o famoso mentiroso,/ É o rei da enrolação!/ É um satanás que chegou nessa cidade/ E difamou as Irmãs de Caridade,/ Enganou muito na ilha/ E tentou bater no padre!/ Pra lá, capeta!/ Pra lá, capeta!/ Se não respeitas a Igreja,/ O que é que tu respeitas?...”
Até hoje, a música de Paulaim possui a mística da canção Marselhesa, entoada pelos camponeses franceses durante a tomada da Bastilha. O prefeito Carlinhos da Carbrás foi cassado pela Câmara Municipal de Parintins. O padre Lupino morreu na Itália, no início de 2003.
Wednesday, January 31, 2007
Eminência parda
No barco Iana, do eterno secretário de Transportes Iomar Oliveira, estão viajando, além do governador, o prefeito de Itacoatiara, Mamoud Ahmed, o diretor do Idam, deputado federal José Melo, o ex-presidente da OAB-AM, Alberto Simonetti, e meia dúzia de aspones.
Por volta das 10h da manhã, o barco pára no porto, localizado num barranco íngreme de quase 20 metros, e a comitiva desce apressada, sob uma salva de fogos de artifício. Uma multidão aguarda o governador agitando bandeirinhas, sacos de sementes, enxadas e ancinhos.
Amazonino sobe numa caçamba, ao lado de Mamoud e Zé Melo, e uma carreata, engrossada pela multidão que vai a pé, ganha o rumo da agrovila. A bordo do Iana só ficaram Simonetti, que não teve coragem de escalar o paredão, e o garçom Agapito.
Dez minutos depois, uma comitiva de vinte mulheres começa a descer o barranco em direção ao barco. Simonetti está em uma mesa saboreando quinze tipos diferentes de queijos franceses e enxugando uma coca-cola família de dois litros.
Ao seu lado, o garçom Agapito, responsável pelo corte dos queijos e pela reposição de gelo no copo do advogado, lê uma revista. A mulher mais idosa, que aparenta ser a líder da turma, se aproxima, toda tímida, pára na entrada do barco e inicia uma conversa de genésio pra genaro:
– O governador num tá aí, não, né?.. – pergunta a anciã, sem levantar a vista do chão, enquanto limpa as mãos na saia encardida.
– Não, ele saiu! – diz Simonetti.
– E ele vai demorá?... – insiste ela, olhando algum ponto no infinito.
– Não tenho a menor idéia! – responde Simonetti.
– Eles foram pro Itapeaçu, num foram?... – quer saber a anciã.
– Tenho a impressão que sim! – diz Simonetti, enquanto acende um cigarro e pede do Agapito uma segunda coca-cola família de dois litros.
– É... a agrovila fica longe. O sinhô já foi lá?... – insiste a senhora, ainda sem fitar o advogado, mas já querendo estender a conversa.
– Não, ainda não tive esse prazer! – devolve Simonetti.
– Nem tem vontade de ir?... – insiste a anciã, mais uma vez.
– Quero cegar que não! – diz o advogado, encerrando o papo.
Vendo que daquele mato não saía cachorro, a senhora se dá por vencida e resolve ir embora. Ela começa a descer vagarosamente a prancha do barco em direção ao barranco quando tem um estalo. Virando-se para Simonetti, olhos nos olhos, ela dispara à queima-roupa:
– Ainda que mal pergunte, parente, o sinhô é mesmo o quê?...
– Eu? Eu sou a eminência parda do governo! – brincou Simonetti.
– Reminenci barba?... – indagou a anciã, visivelmente assustada, pensando tratar-se de algum novo palavrão inventado na capital.
– Eminência Parda. Eu é que mando no governo. O governador só faz aquilo que eu mando. Como sou um homem muito ocupado, quase não participo das inaugurações de obras. Então eu mando o Amazonino, o Mamoud ou o Zé Melo irem no meu lugar, pra me representar...
O rosto da mulher se iluminou.
– Entonces é com o sinhô mesmo que nóis quer falar, “sêo” reminenci!
Em questão de minutos, as vinte mulheres estavam em torno da mesa do advogado. Era uma questão simples. Um temporal havia destruído a capela da comunidade de Uacará, onde elas moravam, e as mulheres queriam falar com o governador pra saber se era possível o Estado construir uma nova capela no lugar da antiga.
Segundo elas, há quase seis meses que estavam fazendo os cultos religiosos ao relento. Já tinham apelado até para Santo Expedito, o santo das causas impossíveis, mas, até aquele momento, ninguém tinha movido uma palha para ajudar a comunidade. Simonetti nem titubeou:
– É só isso? Ah, mas isso não é problema. Quando o Amazonino chegar, vocês avisam pra ele que já falaram comigo e que eu dei a ordem para construir a capela. Se der alguma “bronca”, vocês me chamam...
As mulheres só faltaram beijar os pés do advogado.
Duas horas depois, a comitiva que tinha ido a Itapeaçu estava de volta. Assim que o governador desceu da caçamba, foi cercado pela mulherada. A líder foi direto ao ponto:
– Dotô Amazonino, aquele sinhô lá do barco mandou o sinhô construir a capela da nossa comunidade, lá no Uacará. Cumo ele disse que quem manda no governo é ele, nóis quer saber do sinhô quando é que as obra começa...
– Que senhor do barco? – quis saber Amazonino
– Aquele ali, o “sêo” reminenci barba! – e a anciã apontou para o Simonetti, ainda se refestelando com os queijos franceses e com uma nova coca-cola família de dois litros. “Ele disse ainda que se desse alguma bronca, pra nóis chamar ele...”, insistiu uma das mulheres.
Pego no contrapé, o governador não passou recibo:
– Bom, se ele mandou, tá mandado, quem sou eu pra questionar...
Aí, chamou um dos aspones de lado e mandou ver:
– Conversa aí com essas senhoras, pra ver esse negócio da construção da capela, que eu não tô sabendo de nada. E providencia para que o início dos serviços comece na próxima semana...
De volta ao barco, Amazonino, ainda constrangido com o inusitado da situação, encurralou a “eminência parda” no canto do ringue:
– Porra, gordo, desse jeito eu não te trago mais nas viagens. Que história é essa de ficar prometendo obras pras pessoas, na maior cara dura?...
– Mas, meu governador, o senhor não disse que o governo é feito por nós? Eu só estou fazendo a minha parte... – devolveu o advogado, acendendo um novo cigarro. Amazonino quase morreu de rir.
A capela foi construída em menos de duas semanas. Não me surpreendo nem um pouco se os moradores tiverem colocado no altar principal duas estatuetas de gesso, do Simonetti e do Amazonino. O status deles, na comunidade de Uacará, é de verdadeiro santo das causa impossíveis.
A moega
A referida unidade era constituída de descascador, secador, beneficiador e empacotador, podendo ser traduzida como o sonho transformado em realidade dos agricultores da calha do rio Madeira. O palanque, armado em frente da dita cuja, estava pequeno para tanta gente. Todo mundo queria participar daquele momento histórico.
Como maior autoridade do Estado, cabia ao governador Gilberto Mestrinho encerrar a solenidade com um daqueles discursos vibrantes, que costumam deixar os ouvintes de olhos marejados e coração apertado.
Pelo protocolo da Prefeitura, assim que o governador encerrasse o discurso, ele e o prefeito cortariam a fita simbólica e a unidade começaria a funcionar.
O “script” estava todo nos trinques, mas aí surgiu um agricultor para colocar água no chope. Ele conseguiu furar o bloqueio dos seguranças, subiu no palanque, puxou o governador pela lapela do paletó e sussurrou no seu ouvido:
– Governador, o senhor está de parabéns mais uma vez, só que os homens esqueceram da moega, governador, esqueceram da moega. E sem a moega, isso aí vira um elefante branco, não serve pra porra nenhuma...
Enquanto os seguranças tiravam do palanque aquele “furão” impertinente, o governador chamava seu secretário de Agricultura num canto e levantava a bola de manchete, para ver se ele sabia cortar da linha de três metros:
– Um dos irmãos Marmentini acaba de me dizer que vocês não providenciaram a moega. Que diabos é moega e por que sem ela a unidade de beneficiamento não vai funcionar?
Do alto de sua prosopopéia, o secretário sobe da linha de três metros e corta na diagonal, com convicção:
– Moega, governador, também conhecida como tegão, tremonha ou canoura, é uma peça de madeira em forma de tronco de cone invertido, colocada por cima do mó de pedra do moinho, e de onde cai o grão que vai ser moído. E, para ser franco, eu realmente não vi essa peça na unidade durante a inspeção desta manhã.
– Ah, bom! – suspirou o governador, como se tivesse acabado de se lembrar da segunda lei de Newton.
Já sabendo que a unidade não iria funcionar, Gilberto Mestrinho iniciou seu discurso por esta parte:
– Amazonenses de Humaitá! Eu quero pedir desculpas a vocês porque, devido a um pequeno problema de logística, a unidade de beneficiamento de grãos não vai poder entrar em funcionamento daqui a pouco, tal como havíamos prometido –, explicou o governador. “Na realidade, para a unidade funcionar está faltando apenas a moega. O que eu quero garantir para vocês é que a moega já foi licitada, já foi comprada, já foi embarcada e uma hora dessas está vindo de balsa pelo rio Madeira, devendo chegar aqui o mais tardar na próxima semana...”
Os agricultores foram à loucura. A moega a que eles se referiam é um buraco de seis metros de profundidade por cerca de quatro metros de boca, também conhecido como depósito de trapiche. É uma espécie de silo escavado, onde o arroz, ainda com casca, é armazenado para subir pelo elevador e começar o processo de beneficiamento.
O secretário tinha dado para o governador uma definição de moega típica de dicionário. No caso específico de Humaitá, o buraco (da moega) era mais embaixo.
Na frente do palanque, os irmãos Scandolara estavam tiriricas:
– Vôte, que o governador endoidou de vez. Como é que um buraco desses navega de balsa?...
Os irmãos Bandeira também estavam irritados:
– Putz, mas fazer licitação para comprar um buraco? Não era mais fácil compar pás e picaretas?...
O governador só ficou sabendo que a cortada em diagonal do secretário de Agricultura tinha sido “bola fora” uma semana depois. E a balsa que transportava o buraco licitado nunca chegou ao seu destino.
Caramuri
A missão da comitiva era conquistar o apoio de uma matriarca do clã dos Assayag, a superbacana Pérola Assayag, na época responsável em Parintins pelo escritório da Taba (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica).
Ao atingir o espaço aéreo da ilha de Tupinambarana, o pequeno bimotor que levava a comitiva do vereador começa a fazer uma série de vôos rasantes, o que incluía descidas em parafusos, vôos cegos e arremates de ponta-cabeça.
Os insulares, claro, ganham as ruas, não apenas para apreciar as acrobacias aéreas, mas, principalmente, para torcer secretamente por um erro do piloto, o que faria o bimotor se esborrachar no chão. É voz corrente na ilha dos bumbas que o verdadeiro parintinense detesta pavulagem, principalmente durante o período eleitoral.
Depois de 15 minutos de acrobacias nos céus de Parintins, finalmente o bimotor pousa na pista do aeroporto local, sob os aplausos de milhares de pessoas. Feliz da vida, o vereador Carrel Benevides desce do avião acenando para os milhares de eleitores em potencial, que acorreram ao local em busca do piloto-suicida.
Depois de distribuir autógrafos, como se fosse um cantor de rock, Carrel sobe na traseira de uma pick-up e inicia uma apoteótica carreata pelas ruas da cidade. Sérgio Litaiff, Mário Jorge e Luiz Carlos Brandão, também aboletados na traseira da pick-up, providenciam uma queima de morteiros digna de uma milícia taleban.
Na seqüência, após azucrinarem a população com o estampido de dez mil tiros de morteiros naquela pachorrenta manhã de domingo, a comitiva pára na frente da casa de dona Pérola Assayag. Sem saber do que se tratava, ela, hospitaleira como sempre, pede pra turma entrar e serve limonada, refrigerante, cafezinho, bolo de milho, pudim de leite e tapioquinhas no coco.
Quando Carrel se apresenta e discorre sobre suas reais intenções, dona Pérola é de uma sinceridade genuinamente parintintim. Limpando as mãos no avental imaculadamente branco, ela mira o vereador nos olhos e dispara um exocet de médio alcance:
– O senhor é caramuri!
Carrel entende “caramuru” e fica todo pimpão. Caramuru, como todo mundo sabe, foi o apelido tupi que os tupinambás da Bahia puseram no português Diogo Álvares – náufrago que teria atingido as costas baianas em 1510 – e que significa “filho do trovão”. Os dez mil tiros de morteiros haviam servido para alguma coisa.
Com o ego mais inflado do que nunca, o vereador resolve mostrar que foi um bom aluno de História:
– Obrigado pela comparação elogiosa, dona Pérola, mas o nome não é caramuri, é caramuru...
Aí foi a vez de dona Pérola chutar o pau da barraca:
– Não, meu filho, o nome certo é caramuri. Esse é o nome de uma frutinha que só dá aqui de quatro em quatro anos, igualzinho a um bocado de políticos...
O papo mixou na mesma hora.
Dez minutos depois, Carrel abandonava a ilha, sem fogos de morteiros ou aplausos apoteóticos, e ainda bastante injuriado com a história do caramuri.
Mesmo assim se elegeu deputado federal constituinte, atropelando na reta final um candidato-anta chamado Antar. Mas isso é outra história.
Discurso sobre a usura
Durante a enchente de 1953, por exemplo, quando as águas do rio Amazonas invadiram metade da cidade, uma lancha desgovernada atropelou uma carroça na rua da frente, vitimando o jegue do Chico Carroceiro. O acidente de trânsito criou um problema de competência envolvendo a Capitania dos Portos e o Detran.
Mais recentemente, o Santo Antônio da comunidade de Rondon pulou do altar e quebrou uma perna. Verdade. Quando os fiéis chegaram na capela, o santo estava no chão com a perna esfacelada, apesar das portas e janelas continuarem hermeticamente fechadas. A estatueta de gesso foi restaurada na sede do município e depois chumbada no altar, para evitar novas estrepolias.
As curiosidades não param por aí. Em que outra cidade do nosso estado os açougues vendem bananas, os “Chapéus de Palha” são cobertos com telhas Brasilit e o Botafogo ostenta um garboso uniforme verde e branco? Segundo o juiz aposentado Raimundo Silva, hoje advogado de causas populares e eterno candidato a deputado estadual, “Itacoatiara é a única cidade do planeta onde Visage anda de bicicleta, Acari joga futebol e Tatu é motorista de táxi”.
A ironia com os apelidos e nomes das pessoas parece ser um esporte local. Eis alguns outros exemplos, colhidos ao acaso: Carataí sobe em poste telefônico, Ratinho é gerente de rádio, dona Neném tem 90 anos, Pacu não bebe água, só cachaça, dona Rica é remediada, o Mapará morreu afogado, “seo” Diamante é pobre de dar dó, Jesus foi secretário municipal, dona Mocinha está cada dia mais velha e a dona Esperança já morreu faz tempo.
Em termos políticos, a cidade sempre foi privilegiada. Tanto é verdade, que exportou várias lideranças políticas para as cidades vizinhas, como Urucurituba, Silves e Itapiranga.
Nos anos 80, quando a ex-Freguesia de São José de Urucurituba era administrada pelo ilustre Félix Vital, o presidente da Câmara Municipal da cidade era um itacoatiarense da gema, Perseverando Gama, vulgo “Mezinho” (porque tomava muito “mé”), trompetista da maior competência.
Ele e seu compadre Flávio Libório, também itacoatiarense, também biriteiro, também vereador e também músico (saxofonista) eram presença constante na alvorada celebrada no dia de São José, data em que se comemora o aniversário do município.
Determinado dia, quando se dirigiam de barco para uma dessas alvoradas na “cidade velha” (o prefeito Félix Vital havia mudado a sede do município para um novo local, com melhor infraestrutura), Perseverando chamou o compadre num canto e explicou a situação:
– Olha, compadre, nóis vai falá pro povão e não pode dar vexame. Assim, acho melhor preparar os discursos antes, porque a gente vai encher a cara de birita e depois pode se complicá...
Flávio Libório concordou que as ponderações eram pertinentes. Cada um deles pegou uma folha de papel em branco, fizeram suas anotações e Libório guardou os dois discursos no bolso do paletó. Perseverando fez um texto sublime, de deixar todo mundo engasgado de emoção. Vice-presidente da Câmara Municipal, Libório era meio bronco, daí, que simplesmente escreveu meia-dúzia de quadrinhas obscenas, daquelas grafitadas em mictórios públicos, e o nome de alguns parentes que pretendia visitar.
Depois da alvorada, os dois compadres foram fazer o que mais gostavam, ou seja, tocar chorinhos no boteco do “seo” Amiraldo, encher a cara de cachaça e jogar conversa fora. Eles passaram o dia entretidos nessas nobres funções até chegar a hora do comício.
Quando subiram no palanque, ainda meio grogues, Libório entregou ao compadre uma folha dobrada supostamente contendo o discurso do edil e se dirigiu ao microfone para ler o seu. Pela hierarquia do Poder, Perseverando seria o último orador da noite.
O discurso de Flávio Libório foi um primor de concisão e construção estilística, surpreendendo até ele mesmo. Os aplausos da população já duravam dez minutos quando o locutor anunciou o último orador:
– Agora, com vocês, o nooosso Perseveeerando Gaaama, presidente da Câmara de Urucurituba, representando sua Excelência o prefeeeito Félix Vitaaal!..
Ao abrir a sua folha de papel, Perseverando levou um susto: aquele texto tinha sido escrito pelo Bocage. Ele olhou para o compadre, quase pedindo clemência, mas este nem se dignou a lhe lançar um olhar. Libório continuava em estado de êxtase, olhando para um ponto fixo no infinito e saboreando intimamente os aplausos da multidão. Só, então, a ficha caiu.
– Meus amigos, muito boa-noite! – começou Perseverando, amassando a folha de papel e jogando num canto, com raiva. “Infelizmente, eu não tenho nada o que falar porque esse filho da puta do meu compadre roubou meu discurso e já falou tudo que eu tinha que falar. Muito obrigado!”
A vaia que se seguiu dava para ser ouvida em Itacoatiara. Perseverando ficou quase seis meses sem dirigir a palavra ao compadre.
Bonitinha, porém ordinária
Coxas musculosas, bunda empinada, lábios grossos e peitões durinhos, Laudicéia também é durona e nunca deu a menor brecha para as cantadas pouco sutis da galera porque está casada, de véu e grinalda, com um crioulo enorme chamado Nêgo Beto, bombeiro hidráulico em tempo integral e pedreiro nas horas vagas.
O sujeito sempre vai buscar a distinta no final do expediente. Tem cara de poucos amigos e algumas marcas de corte de navalha no pescoço, fruto dos seus dez anos como leão de chácara num garimpo de Rondônia. E o negão é alto, parrudo, uma verdadeira jamanta de quase cento e vinte quilos.
De qualquer forma, a mulata é um verdadeiro colírio para os freqüentadores da Prefeitura. Principalmente porque nos últimos meses ela resolveu ir trabalhar com cada vez menos roupa. Laudicéia não tem o menor pudor em desfilar modelitos que mostram aquele puta corpão fenomenal, capaz de desencadear o famigerado sexual harassment (“assédio sexual”) até num convento de beneditinos.
Um dia, ela aparece de blusinha amarrada na cintura, deixando o umbiguinho de fora e calça comprida com o cós abaixo dos quadris. No outro, vai de shortinho jeans dois números abaixo do seu, tão apertado que expulsa as bochechas da bunda para as laterais.
No dia seguinte, aparece com uma saia branca transparente, que encobre uma minúscula tanguinha amarelo-limão, e assim por diante. Bom, mas neste dia, Laudicéia está discreta como uma colegial que vai fazer a primeira comunhão.
Além do vestido de estampas florais, com manga bufante e comprimento abaixo dos joelhos, e de um pequeno xale sobre os ombros, ela também está usando óculos escuros, tem um lenço numa das mãos e um rosário na outra, e seus braços apresentam algumas manchas vermelhas.
Laudicéia tira os óculos, para enxugar uma lágrima, e no lugar do olho esquerdo está uma posta de sangue pilado, que lembra um pedaço de bife mal passado. O inchaço das pálpebras não deixa sequer perceber a existência do olho.
Concentrado nos seus afazeres, Ivan Ether continua impertubável. Vira e mexe, na periferia, sempre acontece uma baixaria dessas, uma briga de ciúmes ou coisa parecida.
– O que aconteceu? Quem fez uma barbaridade dessas? – pergunta o prefeito.
– Foi meu marido, ele foi embora de casa e me deixou com as crianças. O bandido acha que eu lhe boto chifre...
– Não diga? Que sacanagem! Eu sempre achei que ele não valia nada. Bom, mas se eu puder lhe ajudar em alguma coisa...
– Eu gostaria que o senhor me demitisse com todos os direitos, porque amanhã mesmo eu vou embora pra Manaus.
O prefeito nem pensou duas vezes. Chamou o Chefe de Pessoal da Prefeitura e lhe instruiu a fazer a coisa certa. O pagamento foi feito na mesma hora e Laudicéia foi embora, com sua dor, sua tristeza e suas chagas.
Duas semanas depois, dia de pagamento dos barnabés, Ivan Ether chega para mais um dia de expediente e quem encontra na ante-sala do seu gabinete? Exato, a dita Laudicéia, vestida ainda mais discreta do que viúva de mafioso. O prefeito fica cabreiro. Chama o Chefe de Gabinete e pergunta o quê que a mulata sestrosa está fazendo ali.
– Ela disse que é um assunto particular e que só fala com o senhor, responde o auxiliar.
Ivan Ether resolve dar um chá de cadeira na distinta. Três horas depois, autoriza a entrada da mulata.
Laudicéia entra de cabeça baixa, abre a bolsinha, tira uma caderneta meio ensebada, entrega para o prefeito e, sem levantar a vista, confessa meio envergonhada:
– Essas pessoas aí andaram fazendo umas imoralidades comigo e não pagaram o combinado. Gostaria que o senhor descontasse o que eles me devem direto na folha de pagamento, porque amanhã mesmo quero ir embora para Manaus. Se depender deles, vou levar o maior xexo da paróquia...
O prefeito abriu a caderneta e estava lá, escrito com uma letra miudinha:
Pedrinho (codinome do Secretário de Finanças, João Pedro Calixto), dois candelabros italianos, um canguru perneta e um carrinho de mão. Pagou 40 reais. Falta vinte.
Vico (codinome do Tesoureiro da Prefeitura, Valdivino Cavalcante), um carro alegórico, um boquete e uma vaca atolada. Pagou 15 reais. Falta quinze.
Eli (codinome do Secretário de Obras, Elizandro Melo), um chicotinho queimado, dois papai-e-mamãe e uma beira de cama. Pagou 10 reais. Falta trinta.
Dudu (codinome do Chefe de Pessoal, Eduardo Resende), um banho de língua, três espanholas e um cachorro pirento. Pagou 40. Falta 25.
Caco (codinome do Chefe de Gabinete, Carlos Lizardo), dois frangos assados, um sessenta-e-nove e uma morte sarracena com petit-pois. Pagou 30. Falta 45.
E a lista com nomes de parceiros, tipos de transas, quantidades, haver e dever se estendia por quase quatro páginas. A mulatinha era organizada.
Sem outra saída, Ivan Ether guardou a caderneta, mandou Laudicéia esperar na ante-sala e, pelo telefone, convocou um por um os meliantes. A conversa era direta, sem firulas:
– Negócio é o seguinte: ou você paga a sua dívida com a Laudicéia pra mim, agora, neste momento, e em espécie, ou quem vai cobrar a conta é o Nêgo Beto, marido dela...
Todo mundo meteu a mão no bolso e se limpou.
No final da odisséia, Ivan chamou a mulata e lhe entregou exatos 535 reais. Laudicéia deu um beijo no rosto do prefeito e saiu da sala, rebolando a bunda mais do que o habitual, querendo demonstrar sua gratidão eterna pelo alcaide.
Novamente sozinho, o prefeito ficou meditando sobre as idiossincrasias do mundo. Quando seus auxiliares lhe diziam que a Laudicéia era uma pessoa muito dada, ele pensava numa coisa completamente diferente.
De qualquer forma, conforme o depoimento sincero do alcaide, aquela morte sarracena com petit-pois lhe deixou completamente besta. E morto de inveja.
O bisbilhoteiro
Ex-prefeito, ex-deputado estadual e ex-deputado federal, Josué Pai era um jornalista das antigas, meio boêmio, meio mulherengo, tremendo boa pinta, galanteador, bom de papo, sempre bem-humorado, e, para completar, o homem tinha um texto enxuto, elegante, pragmático, inteligente. Sua “Crônica do Dia” era uma primorosa aula de gramática e audição obrigatória para quem queria ficar por dentro da situação política do país.
Além de possuir os grandes “cobrões” do rádio, a Difusora funcionava como uma revolucionária escola de radiojornalismo. Se tivessem talento, os “office-boys”, que lá eram batizados de “primavera”, sabe-se Deus por quê, poderiam se transformar em operadores de áudio, dee-jays e, até mesmo, em locutores profissionais. Foi assim que começaram suas carreiras bem sucedidas os figuraços Sebastião da Mata (o “Pitombinha”), Jurandir Vieira, Carlinhos e muitos outros.
Bom, mas com a Difusora sendo administrada pelos seus dois filhos mais velhos (Josué Filho, o “Magrão”, e Maria da Fé, a Fezinha), Josué Pai deu-se ao luxo de só passar na emissora para fazer a crônica do dia. Ele chegava por volta das nove horas da manhã, se trancava em sua sala, lia os jornais do dia, escolhia um assunto e começava a rascunhar o texto. Por volta das onze horas, ele ia para o estúdio, onde gravava o texto de uma só vez. Na maior parte das vezes, o jornalista fazia a sua crônica ao vivo.
Quando estava de mau humor (o que era raro), Josué Pai começava seu texto com um chavão rebarbativo: “Está colhendo hoje, no jardim de sua inigualável existência, mais uma primavera, a peralta fulaninha de tal, filha do estimado sicrano de tal e de dona beltrana de tal” e ia nesse diapasão até o fim, alinhavando metáforas, silepses e sinédoques de dar suspiros em poetas parnasianos.
Quando estava de bom humor e escolhia um alvo (municipal, estadual ou federal), ele se superava na arte de esculhambar com elegância. Nenhum locutor, até hoje, conseguiu superar o velho mestre no seu domínio absoluto da língua portuguesa e na sua verve finíssima, afiada em esmeril. Seu bordão final (“e até amanhã, se o nosso Senhor Bom Deus assim nos permitir”) era, simplesmente, majestoso.
De qualquer forma, nos últimos dias, Josué Pai andava incomodado com uma azucrinação meio banal. Toda vez que ele estava concentrado, escrevendo seu texto, alguém, solertemente, abria a porta da sala. Quando o jornalista levantava a vista para olhar o intruso, a porta era fechada rapidamente e o sujeito sumia. Isso quebrava a concentração e deixava Josué Pai puto da vida. Ele resolveu dar uma lição no curioso.
Apesar de não se meter em encrencas, o jornalista era precavido e ostentava, garbosamente, um Taurus 38, de cano longo e cabo de madrepérola, para desencorajar os “pretensos” ofendidos pelas suas crônicas demolidoras de querer fazer justiça com as próprias mãos. Josué Pai, a exemplo do saudoso jornalista Umberto Calderaro Filho (de quem era amigo íntimo), não costumava levar desaforos pra casa. Quando não estava na sua cintura, o revólver ficava descansando na primeira gaveta da escrivaninha de sua sala.
Um belo dia, Josué Pai fingiu que estava concentrado no texto, mas, na realidade, estava de ouvido ligado em qualquer barulho que surgisse na porta. Quando a maçaneta foi rodada e a porta começou a ser aberta bem devagar, o jornalista pegou o revólver na gaveta e disparou no meio do trinco. Foi um estrondo assustador.
Depois de dar um grito, que misturava pânico, nervosismo e terror animalesco, o “primavera”, de quem a história sequer guardou o nome, saiu numa correria desembestada e só parou quando chegou na sua residência, lá nas proximidades do igarapé do Crespo. O moleque ficou tão assustado que nem voltou na empresa para receber sua indenização.
A partir daquele dia, nunca mais, em tempo algum, alguém bisbilhotou o jornalista.
Mudança de hábito
O seringal do Caítaú deu origem a uma vila, que depois virou uma pequena cidade, que depois virou a capital do município de Juruá, quando este foi desmembrado de Carauari no final dos anos setenta, durante o governo de José Lindoso.
O pessoal de Carauari, que detestou ter perdido parte de seu território, continuou se referindo pejorativamente ao novo município como Caítaú, para desespero dos juruaenses.
Recém-eleito prefeito do município, Tabira Ferreira, irmão do eterno Subsecretário municipal de obras de Manaus, o ubíquo Tabajara Ferreira, tomou posse no seu primeiro mandato (hoje ele está no terceiro) em meio a uma encrenca federal: como o prefeito anterior não recolhia para os cofres públicos as receitas provenientes das contas pagas para a Telamazon, a companhia telefônica simplesmente parou de operar na cidade. A cidade de Juruá ficou isolada.
Para minorar o sofrimento da população, Tabira comprou um possante rádio-transmissor-receptor, faixa cidadão, que instalou no seu gabinete, e as comunicações passaram a ser feitas por meio das ondas hertzianas. Diariamente, centenas de moradores faziam fila na sede da Prefeitura para mandar recados e notícias para seus parentes.
Determinada manhã, enquanto Tabira despachava com seu secretariado, o rádio quebrou a monotonia da reunião com um apelo desesperado:
– Caítaú, Caítaú, Caítaú, Carauari chamando urgente. Câmbio!
Tabira nem se dignou a olhar para o aparelho.
Cinco minutos depois, recomeçou a ladainha.
– Caítaú, Caítaú, Caítaú, Carauari chamando urgente. Câmbio. Responda se estiver na freqüência, Caítaú. Câmbio. Carauari chamando urgente. Câmbio.
O prefeito continuou despachando normalmente, como se o apelo não lhe dissesse respeito. E o locutor do município vizinho na mesma ladainha.
Lá pelas quatro horas da tarde, provavelmente cansado de bater na mesma tecla, o locutor de Carauari resolveu mudar de tática:
– Juruá, Juruá, Juruá, Carauari chamando urgente. Câmbio.
Tabira deu um salto sobre o microfone, abriu a freqüência e mandou bala:
– Custou, mas aprendeu o nome do município, né, filho da puta?... Fala o que tu tá querendo dizer, desgraçado! Juruá na escuta. Câmbio.
Nunca mais chamaram Juruá de Caítaú.
Trocando as bolas
– Professora Deonísia, ainda não deu cinco horas da tarde, e já fecharam as portas do grupo escolar Carvalho Leal. A dona Elaíze, mãe do Cabralzinho, foi barrada no portão e está uma fera. Será que a senhora poderia fazer alguma coisa?
Deonísia consultou o relógio de pulso.
Faltavam cinco minutos para as cinco horas.
Ela resolveu encarar os fiscais. Se fossem moradores do bairro, saberiam que uma ilustre moradora do bairro era candidata a deputada estadual e por certo dariam uma forcinha. Se não fossem, ela iria exigir os direitos da anciã de entrar na seção eleitoral já que o prazo de votação ainda não havia sido esgotado.
Deonísia não reconheceu nenhum dos fiscais, mas também não se deu por vencida. Foi lá na frente do portão, gritou, esperneou, mostrou a constituição, implorou pelos sentimentos cristãos dos sujeitos, enfim, rodou a baiana. Com medo de ver o circo pegar fogo, os fiscais baixaram a guarda. Dona Elaíze, uma octagenária muito simpática, conseguiu entrar.
Cinco minutos depois, dona Elaíze sai da seção eleitoral, com a certeza do dever cumprido, e procura a sua benfeitora para agradecer. A professora está numa rodinha de correligionários, discutindo animadamente a divisão de cargos no futuro gabinete.
A octagenária se aproxima da rodinha e diz, numa voz tímida:
– Eu só queria dizer que votei na senhora. Muito obrigada por tudo, dona Beth Azize, e se Deus quiser a senhora está eleita...
A professora Deonísia teve uma crise nervosa e caiu no choro. Se no seu próprio reduto, ela era confundida com uma adversária, imagine nos outros cantos da cidade.
Não se elegeu, claro, mas Beth Azize foi uma das mais votadas no pleito.
A esquadrilha da fumaça e a batalha campal
O Diretório Universitário (DU), a União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas (Uesa) e diversos Sindicatos de Trabalhadores controlados por ativistas à esquerda do prefeito (que nos anos 60 era um aplicado militante comunista, não custa lembrar), comandaram a reação.
A linha de frente da tropa de choque anarco-sindicalista-comunista-petista-trotskista era formada por Eron Bezerra, Omar Aziz, George Tasso, Vanessa Graziottin, Luíza Elaine, Chico Braga, Guto Rodrigues, Crisólogo Oliveira, Rui Brito, Ivanci Negão, Francisco Sávio, Vicente Filizzola, Sandra Oliveira, Antonio Carlos Maciel, Lucio Carril, Ailton Soares, Sandro Barsal, Adenilton Pinto, João Jaburu, Élson Melo, Gina Gama, Durango Duarte, Paulino Costa, Ricardo Moraes e Sebastião Nunes, entre outros.
No dia 20 de setembro, os revoltosos decidiram fazer um badernaço de protesto no terminal de ônibus da praça da Matriz, na hora do “rush”. A manifestação tinha tudo para ser pacífica. Tinha, porque, assim que a Polícia Militar chegou no pedaço, os ânimos começaram a ficar exaltados.
Enquanto os policiais faziam um cordão de isolamento no entorno da igreja da Matriz e os líderes da manifestação pediam calma aos manifestantes, a passeata ia e vinha pelo mesmo trajeto, como se fosse uma barata tonta.
No meio da fuzarca, praticamente ensanduichados pelas duas facções beligerantes, centenas de populares que estavam deixando o trabalho e só queriam chegar em casa o mais rápido possível.
Foi aí que a porca torceu o rabo. Um estudante mais irritado atirou uma pedra no pára-brisa de um dos ônibus que descia pela Sete de Setembro (o terminal estava praticamente interditado pelos manifestantes) e Hades abriu as portas do inferno.
Em questão de minutos, o terminal da Matriz e todo o seu entorno virou uma praça de guerra. Sem saber distinguir quem era manifestante de quem era transeunte, a tropa de choque da PM baixou o cacete democraticamente, atingindo todo mundo que estava dentro da sua área de ocupação.
Os manifestantes (e os populares) reagiram, devolvendo com paralelepípedos, pedras e pedaços de pau a gentileza dos meganhas. A pancadaria generalizada se estendeu do terminal de ônibus da Matriz ao terminal de ônibus da Constantino Nery.
Mais de 90 ônibus tiveram seus pára-brisas destruídos. Dezenas de manifestantes foram presos, entre eles Eron Bezerra, Chico Braga, George Tasso, Gina Gama, Ivanci Negão, João Jaburu, Élson Melo e Socorrinha Izola.
Dois dias depois da confusão, os manifestantes resolvem partir para o segundo round. A concentração começou às 14 horas no antigo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), hoje Faculdade de Estudos Sociais (FES), reunindo ativistas políticos de todas as facções de esquerda.
Eles saíram em passeata pela rua Major Gabriel, com a pretensão de entregar uma carta ao governador Gilberto Mestrinho pedindo a cabeça do prefeito, mas foram encurralados pelas forças policiais quando atingiam a Sete de Setembro.
Acossados por golpes de cassetetes, cães policiais e bombas de efeito moral, e em visível desvantagem numérica, os manifestantes bateram em retirada, voltando a refugiar-se no ICHL.
Os policias tentaram invadir o ICHL, para continuar o massacre, mas foram contidos pelo diretor do Instituto, João Bosco Araújo, atual superintendente de A Crítica. Numa época em que a covardia era a regra (o regime ameaçava endurecer e o presidente-general João Figueiredo parecia cada dia mais enroscado para controlar seus “radicais”), João Bosco foi de uma coragem exemplar.
Ele não só proibiu a entrada dos meganhas, como, depois de fechar os portões para garantir a integridade física dos manifestantes, recomendou que estes saíssem em pequenos grupos, a exemplo dos demais universitários deixando as salas de aula, para evitar que fossem presos. A repressão montou uma campana nas proximidades do Instituto.
Por volta das nove da noite, quando a maioria das pessoas já havia ido embora, o professor universitário Frederico Arruda (que até recentemente era superintendente estadual do Ibama) resolve cair fora. Seu “fusquinha” é parado pela polícia e os três ocupantes vão em cana: Frederico Arruda, o antropólogo Paulo Monte e Maria Madu, uma conhecida ativista do Moan.
Um segundo carro é abordado e também vão em cana José Ribamar Mitoso, Socorrinha Izola e George Tasso, membros ativos da esquadrilha da fumaça do PC do B. As prisões continuaram em vários pontos da cidade forçando o PC do B a acionar seu dispositivo de segurança para liberar a rapaziada.
Na cadeia, Socorrinha, uma estudante de Administração com uma voz capaz de rachar vidros em Opera House, entra em pânico. “Taaaasso, Taaaasso, o quê que esses meeegaanhas vão fazer com a geeeente?”, berrava a universitária.
Numa outra cela, tranquilão como um cantor de reggae, George Tasso dava as coordenadas: “Calma, companheira, calma! Daqui a pouco chega o Secretário de Segurança e manda a gente embora”.
Com um revólver apontado para a cabeça de Ribamar Mitoso, o policial Metralha tentava obriga-lo a assinar um depoimento “fajuto”. Enojado com a cena, Paulo Monte partiu pra cima do policial, aos gritos, e a Delegacia virou a casa da mãe Joana.
No meio da confusão, Frederico Arruda conseguiu telefonar para o advogado H. Dias, que já chegou no local trazendo diversos habeas corpus. Frederico Arruda, Paulo Monte, Madu, Luiza Elaine e Ribamar Mitoso foram liberados, mas os outros permaneceram em cana.
Por volta das cinco da manhã, os deputados estaduais João Pedro Gonçalves (na época militante do PC do B, hoje presidente regional do PT) e Francisco Queiroz (uma das reservas morais do PMDB, infelizmente já falecido) conseguem acordar o Secretário de Segurança, um coronel de pavio curto de sobrenome Lustoza.
João Pedro explica a situação e assegura: “Todos os detidos são pessoas bem-educadas, oriundas de famílias tradicionais de Manaus e foram presas ao arrepio da lei!”.
O coronel está irredutível. “Os presos são baderneiros e estavam violando a ordem pública. Eles vão ficar no xilindró pra aprenderem a se comportar como gente”.
Depois de muita conversa, os dois deputados conseguem sensibilizar o Secretário e ambos rumam para a Delegacia do Morro da Liberdade, onde estavam os detidos.
Na hora em que o Secretário de Segurança se identifica para o delegado plantonista, a voz aguda de Socorrinha ecoa na delegacia: “Taaaasso, Taaaasso, cadê o viaaaaado desse Secretário de Segurança que não cheeega, pra tirar a geeente daqui?”.
O coronel Lustoza quase caiu pra trás. E sua reação foi de alguém em surto psicótico: “São esses merdas que vocês chamam de gente educada? São esses merdas que são filhos de famílias tradicionais? Pois eles vão ficar presos uma semana até lavarem a boca com água, sabão e detergente!”, esbravejou o militar.
Foi um custo explicar que Socorrinha sofria de claustrofobia e que aquela ofensa nada tinha de pessoal, era apenas o desabafo de alguém que havia sido preso ilegalmente. Depois de uma nova rodada de negociações comandada pelo saudoso Chico Queiroz, o coronel Lustoza acabou liberando a moçada.
Ah, sim: apesar da quizumba, o prefeito Amazonino Mendes continuou irredutível e manteve o aumento da passagem de ônibus, o que, entre outras coisas, dificultou um pouco mais a ida da classe operária ao Paraíso (uma invasão na Zona Leste, que depois virou o bairro Valparaíso).
De lá pra cá, o ódio recíproco e as escaramuças entre os comunistas militantes e o ex-militante comunista só fizeram aumentar. Freud explica.
O inferno são os outros
Como fiscal de tributos, Barroso havia consolidado uma fama de homem sério, íntegro e honesto, e gozava de uma popularidade merecida entre os comerciantes e a elite local. Almeida era o preferido dos pobres porque fazia extrações dentárias de graça.
A campanha estava embolada, com a cidade dividida entre o extrator de rendas e o extrator de dentes. Os analistas políticos garantiam: a eleição seria decidida no dia da votação, numa disputa apertada, voto a voto, urna a urna. O candidato que conseguisse levar mais eleitores aos postos de votação durante o pleito seria o eleito.
No dia da votação, inexplicavelmente, Barroso amanhece com uma dor de dente irritante. Depois de ingerir dezenas de analgésicos, sem sucesso, ele resolve dar o braço a torcer e ruma ao consultório odontológico de Mário Almeida, em busca de ajuda.
O candidato foi de uma sinceridade comovente:
– Olha, doutor Mário Almeida, eu sei que em alguns comícios andei ofendendo sua honra, mas aquilo fazia parte do jogo político – começou. “Mas quem está aqui não é o candidato Barroso, mas o cidadão Barroso. Eu queria que você me consultasse e medicasse como consultaria e medicaria uma pessoa comum, que precisa da ajuda de um profissional.”
– Claro, claro, claro, doutor Barroso! – derreteu-se Almeida em mesuras. “Vossa senhoria não pode esquecer que eu fiz o juramento de Hipócrates, de fazer o bem sem olhar a quem. Afinal de contas, antes de ser um político, eu sou um profissional da saúde com a obrigação moral de minorar o sofrimento de meus semelhantes. Vamos examinar esse dente e veremos o que pode ser feito.”
Mário Almeida aplicou uma anestesia local, examinou o queixal (que apresentava apenas uma mancha branca na superfície, como se fosse um início de cárie), fez um curativo rápido e liberou o paciente.
Barroso, agradeceu, aliviado, e saiu do consultório direto para as ruas, iniciando a árdua tarefa de convencer os eleitores a sufragarem seu nome.
Meia hora depois, passa o efeito da anestesia e a dor de dente retorna com uma ferocidade kamikaze. Doutor Barroso sente as fisgadas no queixo descendo para o resto do corpo e a sensação é de que estão martelando a unha encravada do seu dedão do pé à razão de três marteladas por minuto. A dor é simplesmente insuportável.
Sem outra alternativa, Barroso freta uma “voadeira” no porto de Manacapuru e ruma para Manaus. Durante a viagem, de quase seis horas, o candidato só falta rolar no chão, de tanta dor. O queixo vira um inchaço só. Do porto de Manaus, Barroso vai direto para o consultório do dentista Luciano Martins, seu amigo há várias décadas e relata, rapidamente, o acontecido.
O dentista examina o dente do paciente e tem uma surpresa: o protético de Manacapuru havia “brocado” o queixal até o nervo ficar exposto. Aí, introduziu na cavidade um pequeno pedaço de goiabada e cobriu o buraco com uma camada de porcelana. Quando o efeito da anestesia passou, a ação do açúcar no nervo exposto se encarregou de fazer o resto.
Mesmo depois de medicado, o candidato não quis voltar ao município, já que só chegaria na cidade depois do fim da eleição. E com Barroso fora do pleito, Mário Almeida sagrou-se prefeito de Manacapuru.
O fiscal de rendas só foi descobrir que quem faz o juramento de Hipócrates são os médicos, e não os dentistas, muitos anos depois. Mas, aí, a Inês já estava morta.
Balcão das Almas
– Nós hoje vamos conversar com o candidato a vereador Abdala Zacarias, filho de uma das mais ilustres famílias do nosso município – começou o apresentador. “E a primeira pergunta é a seguinte: doutor Zacarias por que é que ninguém viu até hoje uma propaganda sua na cidade de Itacoatiara? A sua candidatura é mesmo pra valer?...”
Abdala Zacarias tomou um susto, mas se recompôs.
– Na realidade, devo admitir que devido a minha origem humilde, meus eleitores estão localizados na zona rural e não na zona urbana – explicou o candidato. “E esse negócio de cartaz, ‘santinho’ e panfleto não está com nada. O negócio é a propaganda boca a boca, com visitas nas casas dos eleitores. Mas claro que sou candidato pra valer. E atenção, atenção: papel na mesa e lápis na mão, que Abdala Zacarias vai falar seu número.”
O candidato, então, recitou seu número, bem pausadamente, cerca de catorze vezes seguidas, até ser interrompido pelo apresentador.
– Bom, mas agora que todo mundo já decorou o número do doutor Zacarias, os ouvintes querem saber quem está apoiando sua candidatura? O senhor pode declinar o nome de alguns dos seus cabos eleitorais? – insistiu o apresentador.
– Claro, claro, com o maior prazer! – garantiu Zacarias. “Lá na Ilha Grande do Soriano têm os compadres Chico Gabriel e dona Zulmira...”
– Primo, esses dois aí já morreram! – sussurrou Zé Felix.
Como o microfone do candidato estava aberto, a cidade inteira ouviu a intervenção do assessor.
Abdala Zacarias ficou meio desconcertado, mas não se deu por vencido:
– Lá na comunidade Dom Pedro Segundo, quem está me dando a maior força são os compadres Ireno, Caroné e Marinho...
– Primo, esses três aí também já morreram! – insistiu Zé Felix.
Zacarias começou a ficar nervoso.
– Eu quero aproveitar a oportunidade para mandar um abraço para os compadres Valé e Antonio Pinheiro, lá na comunidade de Santa Luzia, que estão se desdobrando para consolidar minha candidatura. Valeu, meus compadres!
– Primo, o Valé e o Antonio Pinheiro já morreram há um bocado de tempo! – avisou Paulo Almeida.
Além de nervoso, Zacarias começou a ficar puto. Virando-se para os dois assessores, ele chutou o pau da barraca:
– E os compadres Moló e Cândido Bunda, que estão fazendo um trabalho da moléstia nas comunidades Firipá e São José do Uatumã? Hein, hein? Vão me dizer que os dois também já morreram?...
– Pois é, primo! – Zé Felix, baixou a cabeça, tristemente, dando-se por vencido. Paulo Almeida confirmou a desgraça: Moló e Cândido Bunda já estavam na terra dos pés juntos há uma eternidade.
Zacarias perdeu as estribeiras. Esquecendo que o microfone continuava aberto, o candidato iniciou um estridente bate boca com os dois assessores até que o apresentador, providencialmente, colocou uma vinheta no ar, suspendendo a transmissão do programa.
Abdala Zacarias não foi eleito, claro. Também, pudera. Com os cabos eleitorais que ele arranjou, só se a eleição fosse para administrador do cemitério...
Em nome do Pai
No pequeno palco armado em frente à agência encontram-se, entre outras autoridades, o prefeito da cidade, Enéas Gonçalves, o pai do prefeito e então deputado estadual, Gláucio Gonçalves, e o pároco da Catedral de Nazaré, padre Francisco Lupino. Uma multidão fanática aguarda o pronunciamento do senador.
Fábio Lucena apanha o microfone, dá dois passos à frente, encara a multidão e começa:
– Povo de Parintins! Eu te saúdo em nome do pai (aí, volta-se solenemente e faz uma pequena mesura para Gláucio Gonçalves. A multidão aplaude estrepitosamente. Fábio aguarda pacientemente os aplausos diminuírem para continuar)...
– ... em nome do filho (aí volta-se solenemente e faz uma pequena mesura para Enéas Gonçalves. Os aplausos agora são de final de Copa do Mundo.)
O rosto do padre Lupino se ilumina. Se for mantido a seqüência natural, Fábio deve falar alguma coisa do tipo “e em nome do Espírito Santo que move este abnegado pároco de Parintins, o nosso assaz estimado e progressista padre Lupino.”
E o religioso fecha os olhos, numa atitude plena de beatitude, esperando o maná que deve jorrar da boca do senador diretamente para os seus ouvidos sedentos.
Quando, enfim, os aplausos diminuem, Fábio muda completamente o script:
– ... e em nome do nosso grande comandante Gilberto Mestrinho!
O padre Lupino não consegue esconder a decepção. Até então, ninguém havia falado para o religioso que Fábio Lucena era um democrata embebido de teoria marxista e ateu de carteirinha. Os elogios (que o padre bem merecia, por sinal) ficaram transferidos para as calendas gregas.
Vai elogiar bem assim no inferno!
Aí, veio a gota d’água.
Um dia, criticando a mudança operada na direção do Banco Central pelo presidente FHC, Sabino disse que a economia brasileira estava tão sem rumo que haviam colocado como autoridade monetária um tal de Gustavo Boiola, fazendo um trocadilho infeliz com o sobrenome (Loyola) do novo presidente do banco.
Julio Ventilari não perdoou. Comentando o pronunciamento do parlamentar, ele bateu de soco inglês: “Se for boiola, mas entender de economia, a população vai aplaudir. O que ninguém agüenta mais é deputado analfabeto.”
Sabino acusou o “uppercut” na boca do estômago. No mesmo dia em que saiu a nota na coluna “Número Um”, ele assumiu a tribuna para lamentar o ocorrido:
– Tem um colunista social nesta cidade que tem muita raiva de mim, pelo fato de eu ser pobre – começou. “Eu nunca neguei minhas origens. Sou pobre, sim, minha infância foi muito difícil, e tive muitas dificuldades para chegar aonde cheguei. Não nasci em berço de ouro, como muitos nesta casa, e sempre lutei muito pela vida.”
O deputado Francisco Bambolê, que estava no plenário, resolveu solidarizar-se com o colega e pediu para fazer um aparte elogioso, que foi prontamente concedido.
– É verdade, nobre deputado, eu conheço sua história de vida e sei da sua difícil trajetória para chegar aonde chegou – iniciou. “Também, não foi pra menos. Filho de um pai ignorante, tendo uma mãe analfabeta, nascido numa família de gente rude, passando privações, sem nunca ter tido boas condições de se instruir, o senhor é um vencedor. Depois de adulto, já dentista formado, só conseguir um péssimo emprego na polícia e ainda assim ter sido contemplado nas urnas com um mandato de vereador e outro de deputado, diz mais do caráter do nosso povo do que do vosso. Porque é difícil a população votar em gente assim que nem Vossa Excelência, querido deputado...”
Sabino só não jogou o microfone na cabeça do Bambolê, porque sabia que ele não estava ironizando, mas falando do fundo do coração. O que não impediu que os demais deputados morressem de rir dos “elogios ofensivos”.
Dois dias depois desse incidente, o deputado Darcy Michiles estava na tribuna da Assembléia falando da sua atuação em favor do município de Maués.
Empolgado com o discurso do deputado, Francisco Bambolê pediu um aparte.
– É pra me esculhambar ou pra me elogiar, deputado? – quis saber Michiles.
– Mas é claro que é para lhe elogiar, Excelência! – derreteu-se Bambolê.
– Ah, sendo assim, eu não vou lhe conceder o aparte não! – avisou Michiles.
E não concedeu.
Elogios do Bambolê, pelo visto, era nitroglicerina pura.
Comunistas, uma raça desunida
No mês seguinte, o CGT organiza uma greve geral em favor do plebiscito sobre a manutenção do regime parlamentarista (sob pressão, o Congresso marca o plebiscito para janeiro de 1963). Em outubro, João Goulart cria a Superintendência da Reforma Agrária (Supra).
Em janeiro de 1963, através de plebiscito, impõe-se o retorno ao presidencialismo.
Os trabalhadores não perdem tempo. Em abril, o CGT envia à Câmara Federal um memorial em favor da reforma agrária. O PCB divulga um manifesto sobre as reformas de base e designa uma comitiva para ir a Itacoatiara discutir o assunto.
A reunião é na sede do sindicato dos portuários. Antogildo Pascoal Viana, presidente do sindicato dos estivadores de Manaus, começa seu discurso insistindo em mais união entre os operários e os camponeses, única alternativa para garantir as reformas de base.
No meio do discurso, Antogildo é interrompido por um portuário conhecido como “Camaleão”. Todo engessado e com a cabeça enfaixada, ele chegou carregado numa cadeira de rodas improvisada (uma “preguiçosa” de madeira com rodinhas de rolamento) e se posicionou na frente do palanque. Fitando Antogildo, abriu o coração:
– Excelença, excelença, o sinhô está falando muito em união, mas isso esses cabra daqui num sabe o qui é não, excelença! Isso tudo é uns cabra desunido que só a muléstia! Isso tudo é uns cabra escroto que só vendo! Isso tudo é uma traírage só! Vô só lhe dá um exemplo! Sabe porque eu tô desse jeito, todo entrevado, sem nem pudê andá direito? Pois então miscute!...
Camaleão pigarreou um pouco e começou a relatar sua odisséia.
– Uns mês atrais, o nosso sindicato resolveu entrá di greve. Ficou todo mundo parado, vendo os navio atracá no porto, sem muvê uma palha! Aquilo mexeu comigo, excelença! Aquilo só podia ser coisa de cumunista! Cumunista é que num acridita em Deus e num gosta de trabaiá! Daí eu arresolvi ajudá os prático a descarregá uma partida de trigo, que já tava faltano nas padaria. Ninguém quis me acompanhá, fui sozinho, que num sô de rejeitá trabaio.
Camaleão deu uma tossida forte, para limpar bem os pulmões, a traquéia e os brônquios, e foi em frente:
– Entrei no navio só cum a cara e a curage. Os cabra do sindicato se aproximaro do navio e ficaro só olhano. Daí comecei a operá o guindaste. Na primeira saca de 60 quilos que levanto, a rudana do gancho fica engatada. Subi naquela altura de quase oito metros do guindaste, pra desengatar a bicha, mas aí perdi o equilíbrio e desabei lá de cima. Caí no chão de cu trancado. Com o baque, quebrei logo a bacia... Pra completá, abri um talho de um parmo na cabeça e essa perna aqui se quebrou em treis parte... Em vez de me acudí, sabe o que os cabra dissero: “Agüüüüeeenta, filho da puta!!! Isso é pra tu nunca mais furá greve!!!” E eu fiquei lá no chão, todo estrupiado... É ou num é uma raça muito desunida, excelença?...
Camaleão quase foi linchado pelos sindicalistas presentes.
Dois anos depois, após o golpe militar de 64, o pacato Antogildo foi utilizado pelas forças da repressão para demonstrar que “tudo que é sólido desmancha no ar” (frase de Marx, sobre o capitalismo selvagem).
Os meganhas jogaram o sindicalista pela janela do quinto andar do hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro, transformando-o no primeiro “suicida” amazonense da causa operária.
Os Sem-teto colocam o Bambolê na roda
Na época, a incendiária irmã Helena vivia promovendo invasões de terras na zona urbana de Manaus e o prefeito resolveu pegar o pião na unha. O papel da nova Secretaria seria neutralizar as ações da religiosa.
A primeira intervenção do Secretário ocorreu durante uma invasão de casas pertencentes ao município, na zona leste da cidade. O ex-prefeito Artur Neto havia construído um conjunto residencial no bairro Jorge Teixeira, mas antes que as casas fossem sorteadas para a população um contingente de “sem-teto” ocupou o conjunto.
Francisco Bambolê tomou ciência da invasão e foi pra lá, conversar com os moradores. Para impressionar a galera, ele levou dois caminhões cheios de guardas municipais e funcionários da Defesa Civil armados até os dentes e uma equipe jornalística (os repórteres Marcelo Dutra e Panjoca, e o cinegrafista Roberval Barão). O aparato repressivo intimidou os invasores, que prometeram abandonar as casas. Prometeram, mas não cumpriram.
No dia seguinte, o Secretário é chamado no gabinete do prefeito.
– Porra, Bambolê, os moradores continuam ocupando ilegalmente aquele conjunto – disparou Amazonino. “O quê que tá faltando pros caras saírem? Que eu vá lá pessoalmente?...”
O Secretário convocou a tropa de choque e partiu para o local da conflagração. Os invasores, de novo, ficaram com medo das forças de repressão, e, de novo, prometeram que iam abandonar as casas. Prometeram, mas não cumpriram.
No dia seguinte, Amazonino liga para o Secretário, já perdendo a paciência:
– Que porra é essa, Bambolê, que porra é essa? – iniciou o prefeito. “Há dois dias que eu peço pra tu resolveres aquele caso da invasão, e minha conversa entra por um ouvido e sai pelo outro. O quê que tá faltando? Que eu nomeie um novo secretário?...”
Dessa vez quem ficou puto foi o Secretário. E ficou tão puto que, na pressa de mostrar serviço para o chefe, esqueceu de convocar as forças de repressão. Levou apenas a equipe de jornalistas. Os moradores, claro, resolveram encarar a comitiva.
Espumando de ódio por ter sido miseravelmente enganado nas duas vezes anteriores, Francisco Bambolê subiu em cima de uma Kombi e convocou os invasores para uma conversa franca, de homem pra homem. Cerca de 150 invasores toparam o desafio e cercaram o veículo.
– Olha, minha gente, eu sou um vereador eleito pelo povo mais humilde dessa terra – começou ele. “Isso quer dizer que eu sou um homem pobre. E como pobre, eu conheço três tipos de pobres. Tem o pobre pai d’égua, que a gente diz que não é pra invadir a propriedade alheia e ele não invade. Tem o pobre-égua, que sabe que não é pra invadir o que é dos outros, mas assim mesmo ainda invade. E tem o pobre filho da égua, que nem vocês, que a gente diz que é pra sair da propriedade alheia e ele não sai...”
Pra quê que o vereador foi dizer isso! Sentindo-se injuriados, os “filhos da égua” partiram para a batalha campal e detonaram o pequeno exército de Brancaleone. A Kombi teve todos os seus vidros quebrados a pauladas. Panjoca fingiu um desmaio providencial e só levou alguns chutes nas costelas. Marcelo Dutra, Barão e Bambolê só não levaram mais catiripapos na nuca porque tinham um preparo físico de maratonistas, mas só pararam de correr quando chegaram na bola do São José Operário.
No dia seguinte, a Polícia Militar foi convocada e desalojou os invasores. Francisco Bambolê nunca mais colocou os pés no conjunto.
Os energúmenos da Dona Sudepe
A Colônia de Pescadores de Parintins forneceu ao parlamentar um dossiê completo sobre a atividade pesqueira na região, mostrando como aquelas medidas adotadas pelo Governo Federal colocavam em risco a sobrevivência de centenas de cabocos, todos eles praticantes da pesca artesanal. O problema da destruição dos estoques de pirarucus, tambaquis e tucunarés durante a época do defeso, segundo os pescadores, estava na pesca predatória por meio de arrastão, praticada pelos barcos oriundos do Pará.
O comício foi realizado no cruzamento das avenidas Amazonas com Paes de Andrade, no centro histórico de Parintins. Milhares de pessoas aguardavam ansiosamente o discurso do parlamentar, que já tinha fama de não ter papas na língua. E Fábio não decepcionou. Com aquela sua voz de trovão, azeitada minutos antes por uma dose de uísque sem gelo, ele exibiu uma folha de papel para a multidão e foi direto ao ponto nevrálgico:
– Mal cheguei a esta cidade e já fui procurado por dezenas de humildes pescadores, que denunciaram mais uma atrocidade perpetrada pela dona Sudepe. Vejam bem, senhoras e senhores, a que ponto chegou a estupidez inesgotável dos burocratas encastelados em Brasília. Pois a dona Sudepe, no seu afã de ser mais realista do que o rei, baixou uma portaria onde diz solenemente que a partir de agora um pirarucu, para ser pescado nos lagos amazônicos, deve possuir mais de um metro e meio de comprimento!
Fábio ajeitou os óculos, fez de conta que estava lendo a dita portaria, balançou a cabeça negativamente, em desaprovação, amassou o papel com violência e jogou para um canto do palanque. Aí, voltou a rugir, mais furioso do que de costume:
– Seria bom, muito interessante e extremamente proveitoso, se esses energúmenos da dona Sudepe abandonassem por algum tempo as suas salas com ar refrigerado, existentes em Brasília, e viessem, nem que fosse uma única vez na vida, acompanhar a pescaria de pirarucu sendo executada pelos nossos irmãos hinterlandinos. E eu imagino a cena. O nosso caboco, sob um sol inclemente de 40 graus, espreitando aquela massa continental de água doce, concentrado como um monge budista na posição de lótus, tentando divisar a silhueta do pirarucu no espelho d’água, no meio das ramificações de cajaranas e murerus. Para evitar a sonolência e atenuar as ferradas de mutucas, pium, meruim e potó, ele masca bolas de ipadu. O braço, cansado de segurar o arpão na posição de arremesso, começa a dar sinais de cãibra. Mas o nosso caboco é valente e sabe que a luta pela sobrevivência é uma luta renhida. Passam-se quatro, cinco, seis horas, até que o caboco perceba um pirarucu vindo à tona. Então, em vez de arremessar o arpão para fisgar imediatamente o animal, visto que em questão de segundos o pirarucu retorna às profundezas do lago, o caboco se levanta na proa da igarité e pergunta: “Êi, seu pirarucu, quantos metros de comprimento o senhor tem?... Porque se o senhor não tiver mais de um metro e meio, eu vou acabar sendo preso...”. Francamente, dona Sudepe, mas isto é de uma estupidez bizantina!!!
Os aplausos da multidão ao orador foram tão altos, que davam para ser ouvidos nas salas com ar refrigerado, existentes em Brasília.
O Santo Guerreiro e os Dragões da Maldade
Ex-deputado estadual por três legislaturas e ex-deputado federal, o saudoso Josué Pai, que sempre foi um homem honesto e prestativo, pagou um preço muito alto por confiar demais nos seus subordinados. Ao fazer vista grossa para o balcão de negócios em que seus auxiliares transformaram a Prefeitura, virou um alvo fixo da oposição. Em julho de 1964, o vereador Rodolfo Vale (PST) entrou com um processo de “impeachment” contra o prefeito, por improbidade administrativa. Evandro, que era amigo pessoal de Josué, foi ter com ele e explicou a situação. Josué preferiu acreditar na versão dos subordinados. Os dois brigaram feio.
A Comissão Parlamentar de Inquérito era composta por cinco vereadores, sendo que três deles (João Bosco Ramos de Lima, Zé Marques e Ismael Benigno) eram funcionários da Difusora. Os três votaram um parecer inocentando o prefeito e o parecer foi levado para votação no plenário. Evandro ficou revoltado com o resultado da CPI.
Às nove horas da manhã, o presidente da CMM, Zânio dos Reis, abriu a sessão:
– Vamos colocar em votação o parecer...
– Não pode, porque você é filho da puta! – berrou Evandro, partindo pra cima do presidente. O edil ficou tão assustado que desmaiou. A sessão foi suspensa por quase cinco horas. Por volta das duas da tarde, o vice-presidente Raimundo Aleixo retomou os trabalhos. Evandro bateu firme:
– Aleixo, eu sou teu amigo, mas não coloca esse parecer pra ser votado com esses três em plenário. Eles têm que se julgar impedidos! Tem que ser feito um outro parecer, porque eles impuseram esse parecer na CPI e agora querem impor aqui no plenário. Não pode!
Aleixo reabriu a sessão e colocou o parecer em votação. Evandro arremessou um cinzeiro, que passou tirando “fino” da cabeça do vereador e se espatifou na parede. Aos gritos de “filhos da puta, bando de ladrões!”, Evandro partiu pra cima da mesa diretora. A sessão foi suspensa de novo.
Os vereadores decidiram matar o “brigão” no cansaço. Começaram a se revezar na Câmara, esperando Evandro se ausentar do plenário. Quando isso acontecesse, eles votariam e aprovariam o parecer. Seis horas da tarde, um cunhado de Evandro foi saber o que estava acontecendo. Ele explicou a situação e pediu que seu cunhado trouxesse armas e munição. Onze da noite, Evandro continuava na bancada. Passou a noite lá.
No dia seguinte, Aleixo e mais quatro vereadores resolvem abrir a sessão (Manaus tinha onze vereadores na época e a CMM funcionava no salão nobre da antiga Prefeitura). O placar seria de 5 a 1 e dariam os trâmites por findo. Quando Aleixo abriu a boca, Evandro sacou uma pistola 7.65 e um 38 duplo cano longo, e engatilhou as armas. Não ficou uma alma viva no plenário nem nas galerias.
Duas horas depois, o vereador João Bosco criou coragem e foi falar com ele. Evandro não se fez de rogado:
– Olha, Bosco, eu estou louco! – avisou. “Se vocês colocarem esse parecer em votação, eu vou atirar pra matar! E o primeiro que vai morrer é quem estiver presidindo a sessão.
Evandro ficou na bancada o dia inteiro, igual a um Bill the Kid anacrônico. A sessão ainda suspensa. Por volta das nove da noite, chega o vereador Paulo Nery (licenciado e Chefe de Polícia do governador Artur Reis), na companhia de vários oficiais e soldados. Evandro contou o que estava acontecendo.
Preocupado com a zorra que estava acontecendo, o governador queria falar com o “brigão”. Evandro concordou em ir até o Palácio Rodoviário, desde que fosse garantido que na sua ausência não haveria sessão para aprovar o famigerado parecer. Paulo Nery telefonou para o governador e ele concordou. Um major e quatro soldados ocuparam o plenário da Câmara.
Quando Evandro e Paulo Nery chegaram na casa do governador, nos altos do Palácio Rodoviário, já estavam lá o general Álvaro Santos, comandante do GEF, e meia dúzia de coronéis. O general foi logo detonando: “Em nome de quem o senhor está fazendo essa baderna na Câmara Municipal? O senhor agora virou xerife da cidade?...”
Evandro não deixou por menos: “General, eu estou me comportando assim em nome dos mesmos princípios que o senhor aprendeu na Escola Militar. Porque eu sou segundo tenente, com carta patente do Exército!”
O general tomou um susto. Aí, chamou um coronel, conversaram baixinho, e ele voltou à carga: “ E daí? Qual é o direito que dá pro senhor fazer essa arruaça?...”
O maninho se arretou: “O meu direito, general, é o de lutar pelos princípios da revolução! Ou o senhor não fez a revolução?! Há corrupção na prefeitura de Manaus, general...”
– Como é que o senhor prova? – insistiu o militar.
Evandro estendeu-lhe um calhamaço, com um parecer técnico proferido por um capitão de engenharia do Exército, confirmando o superfaturamento de obras e a utilização de material inadequado. O general ficou pasmo.
Evandro deixou a casa do governador e voltou para o plenário da Câmara, onde ficou de campana. Passou o resto da noite sem pregar os olhos. Na manhã seguinte, na abertura da sessão, o vereador João Bosco, líder do prefeito na Câmara, leu a carta de renúncia de Josué Pai. Só então Evandro deixou a CMM e foi pra casa dormir, depois de passar 54 horas no plenário.
Em outubro de 1964, com base no relatório da CPI, o governador Artur Reis demitiu Josué Pai do cargo de Juiz do Tribunal de Contas e o indiciou pelo crime de responsabilidade. Absolvido das acusações, o combativo radialista da “Crônica do Dia” daria a volta por cima, se elegendo deputado federal mais duas vezes.
Evandro Carreira se afastou da política em 68 para exercer a advocacia, sendo considerado durante muitos tempo “a voz dos que não tinham vez”, já que não cobrava honorários da população carente. No início dos anos 70, ele comprou uma briga federal com a Prefeitura durante a desapropriação do lupanar “Rosa de Maio”, onde hoje está localizada a Estação Rodoviária, ganhando a causa e uma bela indenização para o dono, que lhe valeram régios honorários.
Em 1974, foi eleito senador pelo MDB. Ecologista quando ninguém sabia o significado da palavra, Evandro ganhou o apelido de “senador pororoca” pelo discurso caudaloso que fazia (e ainda faz) em defesa da Amazônia. É um santo guerreiro!
Wednesday, January 17, 2007
O poeta apaixonado
Um dos mais conhecidos textos teatrais de Pedro Bloch, a peça “Dona Xepa” conta a história de uma feirante que, abandonada pelo marido, criou os dois filhos sozinha, dando-lhes tudo o que podia. Ela abdica de sua própria vida e faz todos os sacrifícios para oferecer a Edson e Rosália uma realidade mais cor-de-rosa do que a sua. O desejo das pessoas simples de ver seus filhos doutores e sentirem-se orgulhosas por isso é a chave de todo o conflito que rege a trama. Enquanto Edson se empenha em tornar-se um escritor e esbarra na dificuldade de entrar no mercado editorial, a ambiciosa Rosália só pensa em fazer um casamento financeiramente rentável, que a faça ter uma vida de luxo e ostentação.
Em Manaus, a peça foi encenada pelo Teatro Escola do velho Braga – um conhecido chapeleiro que também consertava guarda-chuvas –, tendo no papel de “Dona Xepa” a estonteante Marisa Lobato, uma vênus calipígia da maior competência. O poeta e futuro vereador Farias de Carvalho, que participou da peça num papel secundário, ficou mortalmente apaixonado pela, digamos assim, “padaria” da atriz. Não era para menos. Perto do porta-malas da moça, os “derrières” de Viviane Araújo, Suzana Alves e Scheila Carvalho seriam confundidos com o da Olívia Palito. Pra completar, a distinta era casada com um militar de alta patente e nunca deu a mínima para o olhar de cachorro pidão do renomado poeta.
Tempos depois, em meados dos anos 60, durante uma reunião informal de poetas e jornalistas no “Palácio da Moda” (na realidade, eles iam lá diariamente para matar o tempo e filar cafezinho do empresário Belmiro Vianez, dono da loja e amigo da turma), eis que Farias de Carvalho depara-se com uma epifania: a estonteante Marisa Lobato, em carne e osso (muito mais carne do que osso, claro), ostentando um coladíssimo vestido de lycra na cor “vermelho-hemorragia”. Vinda da “Quatro e quatrocentos” (depois Lobrás), a vênus calipígia ia subindo a Eduardo Ribeiro em direção à Confeitaria Avenida e passou pela frente do “Palácio da Moda”. Farias de Carvalho entrou em transe místico. Parado na calçada, ele ficou saboreando avidamente aquela aparição divina.
Ainda transfigurado, o poeta entrou no “Palácio da Moda”, descolou um lápis Johan Faber n.º 2 com Belmiro Vianez e, num papel de embrulho, rascunhou um soneto, que se tornou instantaneamente um dos grandes clássicos da nossa poesia porno-erótica:
Este teu cu, ó minha doce amada,
Voltado, assim, pras bandas do nascente,
Pareceu aos meus olhos, de repente,
Um pedaço de lua ensangüentada!
Às preces desta pica apaixonada,
Que me ponho a adorá-lo diariamente
Nesta minha capela de calçada.
E o teu róseo botão enfim me deres,
Cheia de amor e de paixão profunda,
O quarto Sputinik arremetendo
Na abóbada do céu da tua bunda!
Codinomes
Anos Setenta. Depois do pacote de abril de 77, uma tentativa desesperada do Governo para impedir que o MDB fizesse maioria na Câmara e no Senado, o ministro da Justiça Armando Falcão baixou uma portaria dando o tiro de misericórdia na oposição, para a eleição de 78: a partir dali, os debates e perorações dos candidatos estavam proibidas. As propagandas na tevê e no rádio se resumiriam a um currículo resumido dos candidatos, dito em “off”, numa voz extremamente impessoal. Em contrapartida, os candidatos poderiam escolher até três nomes diferentes, incluindo os apelidos.
Simpatizantes do MDB, os intelectuais do Clube da Madrugada resolveram “simular” como seria uma eleição, com eles no papel de candidatos, e o pintor Afrânio de Castro foi escolhido, por unanimidade, para criar o novo apelido de cada um dos candidatos, conforme rezavam as novas regras eleitorais.
O resultado foi hilariante.
Imaginem a foto de cada intelectual no vídeo e uma voz em off dizendo “para deputado estadual, você vota assim”:
Thiago de Mello, ou Thiago, ou Caranguejeira de Pijama.
Aloísio Sampaio, ou Aloísio, ou Coronel Farofa.
Arthur Engrácio, ou Engrácio, ou Jacaré do Banhado.
Juscelino Taketomi, ou Taketomi, ou Jiquitaia Moscovita.
Anthístenes Pinto, ou Antísthenes, ou Kid Sarará.
Luiz Bacellar, ou Bacellar, ou Visconde de Sabugosa.
Van Pereira, ou Van, ou Cabocão da Bunda Roxa.
Jorge Palheta, ou Palheta, ou Peixe-boi de Havana.
Wagner Troncoso, ou Troncoso, ou Mutum.
Carlos Genésio Braga, ou Genésio Braga, ou Zebrinha.
Jefferson Peres, ou Jefferson, ou Bezerrinho de Ouro.
Ernesto Penafort, ou Penafort, ou Neguinha do Leite.
Alcides Werk, ou Alcides, ou Porquinho da Índia.”
Obviamente, ninguém, do grupo, foi candidato, mas os “apelidos” bolados pelo Afrânio de Castro renderam arengas homicidas entre quase todos os nomeados. O pintor morreria afogado, na década seguinte, durante um porre federal na praia da Ponta Negra.
Briga de muro
Anos Cinqüenta. Candidato a prefeito de Guajará, o coronel Severino Malta, que, antes, nunca havia se metido diretamente numa eleição majoritária, achou que era sopa no mel. Bastava dar uma ordem que os moradores da cidade iam referendar seu nome, sem estrebuchar. Afinal de contas, não era assim que ele dava as cartas, lá no seu seringal?
Vaidoso, o coronel escolheu o melhor muro da cidade para publicar sua ordem unida, exatamente o muro do cemitério. Seus cabos eleitorais pintaram o muro de um branco imaculado e colocaram lá, em letras garrafais, na cor vermelho-hemorragia, pra todo mundo ler (e obedecer):
Vote no Coronel Severino.
Na noite seguinte, a oposição foi lá e cravou um “não”, com o mesmo tipo de letra e a mesma tinta. A frase mudou de sentido e deixou todo mundo pasmo pela ousadia:
Não Vote no Coronel Severino.
O coronel ficou puto. Aquilo só podia ser coisa dos comunistas.
Os “marqueteiros” foram chamados às pressas, porque a candidatura do homem já estava virando motivo de chacotas.
Depois de analisarem a situação, os “marqueteiros” acrescentaram uma nova frase, para consertar o estrago anterior: “pra ver só o que acontece!”.
De onde se olhasse, lá estava a frase autoritária: “Não Vote no Coronel Severino, pra ver só o que acontece!”
A oposição, claro, não deixou barato.
Na calada da noite, sapecaram uma nova frase, embaixo da anterior, com tipologia e cor diferente, que soou como um desafio:
“Pois então a gente vai ver, seu coronel de merda!”
E viram.
Desmoralizado com a sessão de desafios que havia acontecido no muro do cemitério, sob os seus bigodes, o coronel abandonou a eleição. E foi cuidar de seus gados, porcos e galinhas, que nunca foram influenciados por ideologias exóticas, incluindo a dos comunistas.
Briga de muro
Anos Cinqüenta. Candidato a prefeito de Guajará, o coronel Severino Malta, que, antes, nunca havia se metido diretamente numa eleição majoritária, achou que era sopa no mel. Bastava dar uma ordem que os moradores da cidade iam referendar seu nome, sem estrebuchar. Afinal de contas, não era assim que ele dava as cartas, lá no seu seringal?
Vaidoso, o coronel escolheu o melhor muro da cidade para publicar sua ordem unida, exatamente o muro do cemitério. Seus cabos eleitorais pintaram o muro de um branco imaculado e colocaram lá, em letras garrafais, na cor vermelho-hemorragia, pra todo mundo ler (e obedecer):
Vote no Coronel Severino.
Na noite seguinte, a oposição foi lá e cravou um “não”, com o mesmo tipo de letra e a mesma tinta. A frase mudou de sentido e deixou todo mundo pasmo pela ousadia:
Não Vote no Coronel Severino.
O coronel ficou puto. Aquilo só podia ser coisa dos comunistas.
Os “marqueteiros” foram chamados às pressas, porque a candidatura do homem já estava virando motivo de chacotas.
Depois de analisarem a situação, os “marqueteiros” acrescentaram uma nova frase, para consertar o estrago anterior: “pra ver só o que acontece!”.
De onde se olhasse, lá estava a frase autoritária: “Não Vote no Coronel Severino, pra ver só o que acontece!”
A oposição, claro, não deixou barato.
Na calada da noite, sapecaram uma nova frase, embaixo da anterior, com tipologia e cor diferente, que soou como um desafio:
“Pois então a gente vai ver, seu coronel de merda!”
E viram.
Desmoralizado com a sessão de desafios que havia acontecido no muro do cemitério, sob os seus bigodes, o coronel abandonou a eleição. E foi cuidar de seus gados, porcos e galinhas, que nunca foram influenciados por ideologias exóticas, incluindo a dos comunistas.
Óbvio ululante
Dezembro de 2000. O publicitário Renato Pitanga está caminhando pela avenida Eduardo Ribeiro, quando é abordado por um velho conhecido.
– E aí, Pitanga, há quanto tempo, hein? Porra, tu viu só a sacanagem que fizeram com a família Tiradentes? O Ronaldo perdeu a reeleição para deputado estadual, o Robson perdeu a reeleição para vereador de Manaus e a dona Maria não teve nem quarenta votos para a Câmara Municipal de Iranduba. Agora eu te pergunto: os Tiradentes vão viver de quê?...
Pitanga não se fez de rogado:
– Rapaz, eles tem posto...
O sujeito esbugalhou os olhos, tomado de surpresa:
– Sem sacanagem? Os Tiradentes já tem posto de gasolina em Manaus? Não acredito. Em menos de dez anos de vida pública e os sacanas já tem posto de gasolina?...
O publicitário resolveu esclarecer o assunto:
– Não, não é nada disso. Você perguntou de quê que eles estão vivendo e eu respondi que eles tem posto. Posto no cu de um, posto no cu de outro...
Lady Godiva
Outubro de 1965. No mês anterior, o ex-diretor da Guarda Rodoviária, Jonga Chama, havia capotado um carro na estrada da Ponta Negra depois de ter visto uma aparição, no mínimo, estranha: uma mulher nua, andando de bicicleta, no meio da madrugada. Ninguém sabe até hoje se Jonga perdeu a direção do carro extasiado pelas curvas da mulher ou se o acidente foi fruto de um acesso inexplicável de pânico. O certo é que a aparição da Lady Godiva manauense era fruto de acaloradas discussões no Café do Pina, uma espécie de bar do Armando dos anos 60, ou seja, o Café do Pina era o ponto de encontro dos “insiders”, jornalistas, políticos, intelectuais e desocupados da província.
Na mesma época, e todos acadêmicos de Direito, Benedito Lyra (que depois foi duas vezes presidente do TRT), Otílio Tino (que também foi presidente do TRT), Valter Caldas (um brilhante advogado e que, durante muitos anos, foi presidente do Atlético Rio Negro Clube), Jorge Rezende (que chegou a ser procurador geral do Estado) e Abrahim Aleme (que virou jornalista e publicitário de renome, além de, na juventude, ser um tremendo boa-pinta, com seus mortais olhos azul piscina e sua verve sempre afiada) andavam com outras preocupações mais existencialistas: curar a gagueira crônica de um colega de turma, chamado José Ribamar Afonso, que entraria para a nossa história como o “Delegado do Diabo”. No Café do Pina, eles souberam da história da Lady Godiva e decidiram curar a gagueira do amigo pelo único método tradicional que não tem contra-indicação: dando um puta susto no sujeito.
Depois de um paciente trabalho de campo nos principais lupanares da cidade, Abrahim Aleme contratou uma meretriz que fazia ponto no Itamaracá e explicou a brincadeira. Jorge Rezende descolou uma bicicleta e passou uma semana inteira ensinando a vadia a pedalar direito. Benedito Lyra se encarregou de comprar os remédios necessários para uma eventual emergência. No dia acertado para a “aparição”, Valter Caldas roubou o Simca Chambord da família, botou os amigos dentro do carro e foram todos para a Ponta Negra. Sem saber de nada, Ribamar Afonso havia sido contemplado com uma deferência especial e estava aboletado na janela da frente, ao lado do motorista. Os outros quatro iam no banco traseiro.
A estrada da Ponta Negra, para quem não se lembra mais daqueles tempos, era uma autêntica trilha de rally no meio da selva. Do quartel do 1º BIS até o bar Chapéu de Palha, que ficava localizado próximo de onde hoje está o Tropical Hotel, não havia qualquer sinal de civilização. Andar por ali, de madrugada, era um convite certo para ser assediado por curupiras, mapinguaris, matintas-pereira, visagens, assombrações, caboclinhos, pretos velhos, exus, jumas, iaras, gnomos, duendes, ogros, elfos, ovnis, barangas, dragões e tudo o mais que a imaginação humana (ou o cagaço) pudesse conceber para controlar a adrenalina a mil por hora, que sempre batia em quem se aventurava por aqueles ermos.
Bom, mas depois de tomarem umas cervejas, beliscarem umas iscas e ficarem jogando conversa fora no Chapéu de Palha até por volta de meia-noite, os seis amigos resolveram retornar para a cidade. Quando passavam pela trilha lateral que dava acesso para a Prainha, a vagabunda saiu do meio do mato, completamente pelada, pedalando uma Raleigh de competição, e se posicionou exatamente ao lado de Ribamar Afonso. O diabo é que a mulher era de uma feiúra paquidérmica. Perto dela, uma mulher desenhada por Picasso seria atribuída a Rafael. Entre outras coisas, a baranga era magra, desdentada, tinha um rosto asqueroso e dois seios flácidos quase atingindo o meio da cintura. O susto foi tão grande que Ribamar Afonso simplesmente desmaiou. Aí, quem entrou em pânico foi o resto da turma.
Valter Caldas parou o carro, afrouxou o colarinho do amigo e deu-lhe três tapas no rosto, sem saber que isso só funciona em filmes americanos e, assim mesmo, quando a mocinha é histérica, o que não era o caso. Ribamar continuou desmaiado. Benedito Lyra sacou um vidro de amoníaco do bolso, embebeu num lenço, e aplicou nas narinas do infeliz. Depois de alguns minutos, Ribamar abriu os olhos, mas o amoníaco havia lhe embrulhado o estômago. A primeira golfada de vômito que deu pegou no rosto de Valter Caldas. Ainda meio tonto por causa do amoníaco, ele virou a cabeça para trás e disparou a metralhadora de gêiser na direção dos ocupantes do banco traseiro. Ao sentir o cheiro nauseabundo do vômito no próprio rosto, Otílio Tino não conseguiu segurar as cervejas e as calabresas que trazia no estômago e despejou em cima de Jorge Rezende. Foi uma reação em cadeia. Todo mundo vomitou em todo mundo. Em questão de minutos, o odor dentro do carro dava a impressão de que eles estavam transportando chorume de aterro sanitário.
Para consternação geral dos infelizes, assim que conseguiu cair em si, Ribamar disparou:
– Pu-pu-puta q-q-ue pariu! Vo-vo-vocês viram só aque-aque-aquela vi-vi-visagem? Ca-ca-cacete! Eu qua-qua-quase que me cago to-to-todo!
O plano tinha ido por água abaixo. Apesar de todo o esforço da turma, Ribamar estava mais gago do que nunca.
Enquanto limpavam o vômito do carro com as próprias roupas, os cinco amigos discutiam em voz baixa (para que Ribamar não escutasse) onde haviam cometido o erro – e todas as evidências apontavam para Abrahim Aleme.
– Eu acho que o susto não foi tanto pela aparição, mas pela feiúra da mulher – explicou Valter Caldas. “Se em vez de pegar uma cabrita do Itamaracá, o Aleme tivesse contratado uma daquelas potrancas do La Hoje, a história seria outra...”
– O pior não é isso. Já pensou se, além de gago, o Ribamar fosse hipertenso? – questionou Benedyto Lira. “Imaginem só a merda que ia dar, a gente chegar com um defunto para entregar pra família dele?...”
– Eu perdi essa aula, mas se o Ribamar tivesse morrido de susto o Aleme seria indiciado por homicídio doloso ou culposo? – ironizou Jorge Resende.
Cada vez mais cabreiro, Aleme resolveu abrir o jogo:
– Olha, bicho, eu não fiz isso de propósito, não. Vocês sabem que essas meretrizes não fazem nada se não tiver dinheiro na parada. Acontece que eu ando mais “liso” que bunda de tanajura e a Sebastiana foi a única que aceitou participar da brincadeira em troca de uma noite de amor comigo. Porra, eu, que fui pro sacrifício, não estou reclamando de nada. Vocês deviam era estar me chaleirando, porque se não fosse esses meus olhos azuis a gente ainda estava a ver navios. Pelo menos agora a gente já sabe que o Ribamar não sofre do coração e que essa gagueira dele não é de fundo psicológico...
A confissão do publicitário foi desconcertante. Benedito Lyra, Jorge Rezende, Otílio Tino e Valter Caldas só faltaram se ajoelhar na frente de Aleme e recitar “manitu” três vezes. Afinal de contas, para abater uma “visagem” daquelas e não abotoar o paletó na mesma hora, só mesmo o sujeito tendo o corpo fechado. O Ribamar Afonso, que viu a “morte” de perto, que o diga...
PhD em Agá
Durante o primeiro governo do Amazonino Mendes, ele era auxiliar de maquinista dos barcos Yana e Yanamã, pertencentes ao então secretário de Transportes da época, Iomar Oliveira. Adepto da filosofia cavalcantiana de que “quem não puxa-saco, puxa carroça”, esmerou-se na arte de bem servir aos seus patrões. E, provavelmente, aprendeu a ler a mente em algum curso intensivo com a madame Marúcia, recém-chegada da cidade de Faro. Bastava o governador pensar em fumar, que o sujeito já estava ali, lépido e fagueiro, estendendo o maço de Marlboro e o isqueiro aceso. O governador comentava com algum aspone sobre a exuberância dos murerus, e, imediatamente, o cidadão mergulhava n’água, retornando em seguida com uma imensa corbeille de murerus. O governador fazia menção de espirrar, e o sujeito já tinha gritado “saúde!”, lá da casa das máquinas.
Homem de poucas luzes, incapaz de resistir a um ditado de cinco linhas, o servilismo foi fundamental para alavancar uma carreira empresarial (sic) invejável. Em menos de quinze anos, o ex-auxiliar de maquinista Nardier Pinheiro transformou-se em dono de posto de gasolina, balsas, rebocadores, lanchas, carros importados, mansões, construtoras, empresas comerciais e, conforme foi noticiado pela imprensa, em emérito falsificador de notas fiscais. Basta lembrar que aquela nota fiscal adulterada, atribuída ao deputado Mário Frota no célebre caso das fitas, tinha as digitais do referido cidadão. Mas, como diria Nasrudin, ele aqui abandona a nossa história.
Julho de 1999. O lavrador Lázaro Rufino, um dos grandes plantadores de grãos de Humaitá, liga para o ex-deputado federal João Thomé, suplente do senador Gilberto Mestrinho, e entabula uma conversa que beirava o desespero:
– Thomezinho, aconteceu uma desgraça. O Idam nos enviou uma partida de calcário para melhorar o solo, a gente usou o material na maior boa fé do mundo, mas o solo ficou pior do que era antes. Perdemos praticamente tudo o que plantamos. Um engenheiro agrônomo de São Paulo foi medir o pH do solo e disse que estava perto de dois, ou seja, está muito mais ácido do que vinagre. A gente já foi se queixar no Idam, mas os caras não estão nem aí. O pior é que está batendo o maior desespero em todo mundo. Será que dava para o senhor descobrir o que está acontecendo?
João Thomé pediu que lhe fosse enviado uma amostra do calcário e, de posse do material, enviou o mesmo para que fosse analisado na Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM), de Manaus, e no Museu Emílio Goeldi, em Belém. Os laudos das duas entidades foram conclusivos: aquele tipo de calcário deveria ser utilizado, exclusivamente, como massa asfáltica ou nos serviços de drenagem de pântano. Utilizá-lo como corretor de solo seria, no mínimo, estupidez. Diante do resultado, Thomezinho ficou possesso e procurou o governador Amazonino Mendes, para relatar o ocorrido.
Mas aqui cabem algumas explicações técnicas para a gravidade do problema. Um dos fatores que tornam o solo bastante ruim para o plantio de qualquer cultura se chama chuva ácida. É simples. Toda vez que se queima um combustível, e este combustível possui enxofre, como o petróleo, um dos resultados desta queima (SO2) se transforma em ácido sulfúrico, fruto de uma recombinação entre o vapor de água presente na atmosfera e o referido elemento. Como todo mundo sabe, a atmosfera é composta por 80% de nitrogênio. Sob alta temperatura (resultante de uma combustão, por exemplo), o nitrogênio produz os chamados gases nitrosos, que também se recombinam com o vapor de água e produzem o ácido nítrico. Esses dois tipos de ácidos atingem o solo por meio da chuva. Queimadas e chuva é o que não falta em Humaitá.
O composto principal do calcário se chama óxido de cálcio, que na presença da água se transforma em hidróxido de cálcio e reage como uma base, neutralizando os referidos ácidos e baixando o pH do solo. Maiores explicações podem ser obtidas em qualquer livro de química do segundo grau. De qualquer forma, o calcário enviado para Humaitá possuía menos de 10% de PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total, quando o mínimo aceitável é 65%), ou seja, tinha tanta serventia para corrigir o solo quanto fazer calagem com pó de cimento. Pior: na presença de água, este tipo de calcário se transforma num poderoso impermeabilizante. Sem se dar conta da situação, centenas de agricultores “impermeabilizaram” suas áreas de plantio e perderam praticamente tudo que haviam investido na compra de sementes.
Dono de uma fazenda em Manacapuru, onde produz ração animal e cria peixes em açudes escavados, João Thomé estava possesso porque sente na própria pele os dramas do setor primário e tem consciência das dificuldades que atingem os agricultores amazonenses. O governador escutou o relato do ex-deputado e também ficou possesso.
Responsável pelo Idam, o deputado federal José Melo foi chamado no gabinete do governador. Com os dois laudos abertos sobre a mesa de reunião, Amazonino estava simplesmente puto:
– Que merda é essa, Zé Melo, que merda é essa? A porra desse Idam gasta dez milhões de reais numa compra de calcário que não serve pra bosta nenhuma e deixa os nossos agricultores numa situação extremamente difícil. Eu quero saber agora mesmo quem foi que forneceu essa merda pro governo!
Visivelmente constrangido, José Melo analisou os laudos técnicos, consultou alguns papéis que trazia numa pasta, voltou a olhar para os laudos técnicos, meditou um pouco, balançou a cabeça negativamente como se estivesse resolvendo uma complexa equação exponencial não-linear, respirou fundo e, sem outra alternativa, abriu o jogo:
– Quem ganhou a licitação foi a firma do Nardier...
A taxa de glicose do governador disparou o sinal vermelho, deixando a diabetes do “caboco” em estado de alerta máximo:
– Nardier? Nardier? E desde quando aquele merda entende de agricultura? Porra, Zé Melo, o Nardier é PhD em fazer agá. Ele deve entender tanto de agricultura quanto tu entendes de fissão nuclear. Eu não agüento mais essas cagadas de vocês, juro que não agüento. E sabe por que? Porque vocês fazem uma merda atrás da outra, mas na imprensa sai publicado que eu sou o único responsável! Esse pessoal da A Crítica me dá porrada todo dia por causa de vocês! Eu mando fazer uma coisa, vocês fazem outra... Porra, assim não dá! Agora tu vais me fazer o seguinte. Procura a porra do Nardier e resolve a situação. Ou ele entrega um calcário que preste, na mesma quantidade acertada, ou ele devolve o dinheiro e a gente compra no mercado interno, no mercado externo ou até de extraterrestres. Eu só quero que o problema dos agricultores seja resolvido! Que merda! Que merda! Que merda! (e Amazonino ficou repetindo o mantra até José Melo deixar a sala).
A licitação tinha sido do tipo menor preço e a firma do Nardier havia vencido várias empresas tradicionais como a Itatinga, Dolomita do Brasil, Vitacal e o Grupo Demito, entre outros. O menor preço entre os “tradicionais” tinha sido R$ 12,76 (ou US$ 6,50) para o calcário dolomítico agrícola com PRTN de 80%. O empresário havia vencido a concorrência oferecendo brita calcária a R$ 4,25 (ou US$ 2,17), uma verdadeira pechincha, se não fosse o fato de que a tal brita só tinha serventia para a construção civil e a siderurgia.
Mas o empresário havia agido de boa fé (pelo menos foi o que ele disse depois para o governador). Alguns meses antes, conversando com o empreiteiro D8, que estava asfaltando a BR 174, Nardier teve acesso a uma planilha de custo onde aparecia a brita calcária e soube que ela era utilizada para evitar que a ação dos olhos d’água, comuns na região, minassem a camada asfáltica. Quando soube da licitação do Idam, deduziu sabiamente que Amazonino estava planejando asfaltar a BR 319 e resolveu participar deste esforço patriótico para romper o isolamento de Manaus com o sul do país. Só deu para os agricultores de Humaitá.
Terroristas
Setembro de 2001. O deputado federal Luiz Fernando Nicolau, em companhia do médico oftamologista Jacob Cohen, prepara-se para embarcar no vôo 2205, da Varig, com destino a Brasília. Os ataques terroristas realizados nos Estados Unidos há uma semana haviam deixado o planeta à beira de um ataque de nervos, enquanto a paranóia oriunda da questão da segurança nos aeroportos estava na ordem do dia.
Na terra do Tio Sam, caças da força aérea receberam ordem para atacar qualquer aeronave considerada suspeita em espaço aéreo americano. A fronteira dos Estados Unidos com o México foi fechada em vários pontos. A CNN, depois de mudar o logotipo de sua manchete permanente de “América Sob Ataque” para “América em Guerra”, a ele acrescentando uma graciosa bandeirinha americana tremulando logo abaixo do peito do apresentador ou apresentadora, havia passado a semana inteira mostrando um resumo visual dos trágicos acontecimentos ao som da canção “New York”, da banda U2.
Na Rússia, o presidente Vladimir Putin realizou uma dezena de reuniões de emergência com seus principais ministros e convocou o conselho de segurança. A força aérea russa também adotou “medidas anti-terroristas” que não foram especificadas. Milhares de soldados russos ocuparam os principais aeroportos do país. As forças de segurança da França foram colocadas em estado de alerta e soldados enviados para os aeroportos e estações do metrô. O controle de fronteiras também foi intensificado.
Israel fechou seu espaço aéreo para vôos internacionais e evacuou missões diplomáticas e instalações de instituições judaicas no mundo todo. Em Berlim e Istambul, as ruas em volta das embaixadas americanas foram isoladas por carros da polícia. As bases militares da Otan em Nápoles, Aviano, Istrana e Leghorn estavam em alerta máximo. O vice-ministro da Defesa do Japão, Takemasa Moriya, disse que a segurança em torno das bases militares americanas no país e dos aeroportos japoneses havia sido intensificada.
Em Manaus, a ordem era atrapalhar a vida de qualquer sujeito com pinta de muçulmano. O deputado Luiz Fernando Nicolau, nascido em uma família de origem maronita (cristãos libaneses), foi o primeiro a ser barrado no detector de metais. Depois de uma minuciosa revista na sua pasta presidente, os Federais encontraram uma perigosíssima tesourinha de cortar unhas, que foi logo apreendida (formulário nº 147371, de “Objetos Retidos /Metained Articles”, emitido pela Varig).
Provavelmente confundido com o libanês Imad Mouyhine, aquele ex-secretário do Hezbollah que já foi formalmente acusado pelo atentado à embaixada de Israel em Buenos Aires, o médico Jacob Cohen foi o segundo a cair na “malha-fina” porque levava um suspeitíssimo embrulho de papel laminado. Uma equipe de especialistas em explosivos foi chamada ao local e a área interditada. Com extremo cuidado, os Federais abriram o embrulho para constatarem, espantados, que tratava-se de uma inocente partida de quibes e esfihas, feitas pelo Hiram Jamil Tufic, filho do deputado.
Enquanto os dois suspeitos confabulavam com os Federais, aproximou-se do grupo o empresário Abdul Hauache, diretor da TV Manaus, e o ex-prefeito de Humaitá, Mustafa Said, acompanhado de seu filho, Amin Said. Eram patrícios demais juntos, para não chamar a atenção da Interpol. Sem saber direito o que estava acontecendo, Abdul foi direto ao ponto:
– E aí, Nicolau, como é que está aquela nossa batalha em Brasília?...
O empresário referia-se, evidentemente, à luta pela prorrogação da Zona Franca, mas os Federais associaram a expressão a uma referência velada à jihad – a guerra santa – tendo como teatro de operações o próprio Planalto Central. E ficaram cada vez mais convencidos de que estavam diante de uma célula da organização Al-Gamaa Al-Islamya (Grupo Islâmico), financiada pelo milionário saudita Osama Bin Laden, o principal suspeito de ser o mentor dos atentados nos Estados Unidos.
O deputado, que ainda não havia feito uso da sua “carteirada de parlamentar”, começou a ficar incomodado com a situação. Mentalmente ele se perguntava: “Seqüestrar um avião e jogar aonde? Em cima da mansão do Amazonino? Nem valeria a pena, já que a casa está cheia de infiltrações...” O médico Jacob Cohen estava transtornado porque os Federais, em busca de explosivos, haviam despedaçado todas as esfihas e quibes. Abdul Hauache começou a ficar cabreiro porque uma menina do Infraero começou a olhar fixamente para ele e, depois, para uma foto do Bin Laden publicada na revista Época, provavelmente comparando os dois. Justiça seja feita, mas sem a barba e o turbante, o saudita fica a cara do empresário. Foi quando surgiu uma luz no fim do túnel.
O vice-governador Samuel Hanan, que ia embarcar no mesmo vôo, viu aquela rodinha esquisita e foi cumprimentar a turma. Só então caiu a ficha, para os Federais. Se um judeu era capaz de fazer uma festa daquelas para aquele bando de árabes, era porque os árabes deviam ser “tudo gente boa”. Após trocarem informações via telefonia celular com o bureau de Operações Anti-Terroristas, sediado em Bruxelas, na sede da OTAN, os Federais resolveram liberar os suspeitos, dando antes alguns pedidos formais de desculpas.
Dentro da aeronave, Nicolau e Cohen, que estavam na classe Executiva, comentaram o incidente com Hanan. O vice-governador divertiu-se com a história e fez alguns comentários cáusticos sobre a segurança nos aeroportos brasileiros. Na hora em que foi servido o almoço (aquele indefectível filé ao molho de madeira com arroz de brócolis), o deputado apanhou a faca Tramontina de aço inoxidável de inacreditáveis quinze centímetros e o garfo, de tamanho idem, mostrou para o vice-governador, e falou:
– Hein, Samuel. Você acha que se eu quisesse seqüestrar um avião iria usar uma tesourinha de cortar unhas, se o próprio serviço de bordo da aeronave nos oferece essas armas maravilhosas?...
– Pois é. Vai ver que os Federais ficaram com medo de você entrar na cabine de comando e ameaçar cortar as cutículas do piloto – ironizou o vice-governador. “Segundo o Artur Neto, um sujeito sob pressão e tendo um bife arrancado no canto da unha é bem capaz de jogar uma aeronave em cima de um edifício...”
Segundo as más-línguas, o deputado tucano só incendiou a Feira do Bagaço, na época em que foi prefeito de Manaus, porque um auxiliar (Marco Santos? Tenente Fernando? Capitão Bonates? Jefferson Coronel? Valdo Garcia?) havia lhe arrancado um bife do dedo anelar durante uma mal-sucedida operação de manicure. Ah, sim, a tesourinha do Luiz Fernando Nicolau foi devolvida no porto de destino, na presença de um funcionário da Varig e de três testemunhas.
Rei do Agá
Maio de 2001. Os moradores que se dirigem ao mercado municipal de Parintins para as compras dominicais são surpreendidos com uma mensagem estourando nos alto-falantes fincados na orla da cidade, onde funciona a Voz Praiana: “Às 4h ele já está acordado. Às 4h15 já está nas ruas trabalhando. Às 4h30 já está no seu gabinete despachando. Esse é o prefeito mais trabalhador do Amazonas, do Brasil, e, talvez, do mundo”, berrava o locutor, referindo-se a Enéas Gonçalves.
Ninguém suportava mais a maldita ladainha, mas o locutor não estava nem aí para os transeuntes. Irritada com o puxa-saquismo deslavado, uma moradora esperneou e pediu “pelamor de Deus” que o sujeito parasse de falar besteiras e colocasse pra tocar uma toada do Garantido ou do Caprichoso. O desfecho da súplica da moradora foi de uma tristeza ímpar. Para surpresa de todos, e sem perceber que o microfone estava ligado, o rapaz falou em alto e bom som para toda orla de Parintins ouvir: “Minha filha, eu não posso colocar música de nenhum boi. Recebi uma grana preta do prefeito para fazer um agá para ele e estou aqui, cumprindo minha parte no acordo.”
A vaia que se seguiu dava para ser ouvida em Barreirinha. Foi o suficiente para o tiro da “propaganda enganosa” sair pela culatra e acabar com a lambança do locutor naquele exato momento. E os parintinenses puderam voltar a ouvir as magníficas toadas de seus bois favoritos.
A macumba da nega
Abril de 1988. O então diretor da Fundação de Desenvolvimento e Ação Comunitária (Fundac), Omar Aziz, resolve lançar-se candidato a vereador pelo Partido Democrata Cristão. Ex-militante do PC do B, Aziz nunca havia disputado uma eleição e resolveu aconselhar-se com o deputado Nonato Lopes, ex-secretário de Segurança do Estado. Depois de ensinar o caminho das pedras ao neófito, o deputado presenteou-lhe com um cabo eleitoral da pesada: o pai de santo Manuelzinho do Gantois, parente distante da famosa mãe Menininha, mas verdadeira lenda-viva do bairro da Compensa.
O pai de santo jogou os búzios e concluiu que o caminho de Omar Aziz estava bastante complicado. Suas chances de se dar bem na eleição eram praticamente nulas. Para abrir o caminho, só havia um jeito: o candidato teria de fazer um rango especial para Xangô, o santo da justiça, e realizar um despacho na Cachoeira Grande do Tarumã, numa sexta-feira, 13, por volta da meia-noite. O acepipe para o santo era composto de dois quilos de quiabo, meio quilo de acaçá (farinha baiana), amendoim torrado, azeite de dendê, cebola e camarão seco.
Omar seguiu as instruções ao pé da letra. Picou bem os dois quilos de quiabo e a cebola. Em uma panela de alumínio, fritou a cebola picada e depois jogou os camarões, o amendoim e o quiabo lá dentro, mexendo bastante até eles ficarem macios. Depois misturou o azeite de dendê na comida e mexeu mais um pouco. Por último, colocou tudo numa vasilha de barro (alguidar), forrada previamente com um mingau de farinha e levou para as matas do Tarumã. Como não havia encontrado acaçá no mercado Adolpho Lisboa, Omar resolveu substituir a mesma por uairini. O pai de santo não gostou da mudança. Aquilo era farinha pra pirão de peixe, não para um Orixá de respeito como o deus dos relâmpagos. A vingança de Xangô, viu-se depois, foi maligna.
Na mesma época, o serelepe Domingos Leite, braço direito do então governador Amazonino Mendes desde a época da construtora Arca, havia sido picado pela mosca azul e também era candidato a vereador pelo mesmo PDC. A exemplo de Omar, Domingos Leite tinha se iniciado na vida pública pelas mãos de Amazonino, em 1983, quando foi nomeado diretor do Grupo de Tarefas Emergenciais (GTE) da Prefeitura. A exemplo de Omar, Domingos Leite tinha um cabo-eleitoral da pesada: a mãe Leocádia, da Casa das Minas, que morava no bairro da Praça Catorze de Janeiro, reduto de sambistas da gema e de catimbozeiros pedra noventa.
Diferente do terreiro de Manuelzinho, freqüentado por Omar Aziz, na Casa das Minas não se vendiam “banhos” preparados, nem poções de qualquer natureza, nem se cobravam consultas. Também não se preparavam “guias”, nem se “fazia a cabeça” a troco de dinheiro, muito menos se realizava despacho em encruzilhada mediante remuneração. Com exceção do altar cristão, não havia, sequer, local fixo para queima de velas ou incenso. Os tambores tocavam apenas em festas especiais em homenagem a voduns aos quais são dedicados esses dias.
Havia outras diferenças. Na Casa das Minas moram alguns homens, filhos ou maridos das dançarinas (“filhas de santo”). Entre eles estão o runtó, chefe, zelador e tocador do principal tambor da Casa. Além disso, a cerimônia do sacrifício dos animais é realizada pelo runtó-chefe, mas dirigida pela chefe da Casa e assistida pelas demais dançarinas. Ou seja, todas as decisões da Casa das Minas, tanto espirituais, da ordem do culto, como materiais, são tomadas pelas mulheres, apesar de importantes funções do culto estarem nas mãos do runtó-chefe.
Por último, todos se vestem de igual modo. Não há, como em outros terreiros, a suntuosa troca de trajes que identifica o Orixá, quando ele baixa em suas filhas. Na Casa das Minas, o único traço a ser distinguido, quando o vodun está em terra, é a toalha branca que envolve quase todo o corpo da dançarina. O vodun, homem ou mulher, é diferenciado por pequenos detalhes que passam desapercebidos a quem os observa pela primeira vez: o vodun homem usa um pequeno lenço de cetim dobrado e preso no ombro e o cabelo penteado para trás. O vodun mulher usa o lenço na cintura e o cabelo sobre a orelha. Além disso, apenas os voduns homens usam uma bengala, com a qual, por vezes, marcam o passo das danças.
Bom, de qualquer forma, nos sete meses seguintes, Omar Aziz e Domingos Leite, e seus respectivos guias espirituais, se enfrentaram numa verdadeira guerra fratricida. Omar teve que tomar mais de dez banhos de descarrego, completamente pelado, na Cachoeira Alta do Tarumã, o que quase lhe valeu uma pneumonia. O hoje empresário Durango Duarte, que havia substituído o candidato na direção da Fundac, era um de seus fiéis escudeiros e o responsável direto pela compra de ervas aromáticas, banhos de cheiro, talismãs, pólvora seca, amuletos, raspas de chifre de bode, espumosas e o que mais fosse indicado pelo pai de santo Manuelzinho do Gantois durante seu transe mediúnico. Mordido pelo caso da farinha uairini, Xangô estava cada vez mais exigente.
Domingos Leite também não teve vida mansa. Entre outras coisas, ele teve que importar de Codó, no Maranhão, dezenas de bodes negros com a testa rajada de branco, galinhas d’Angola cegas de nascença e garnizés do bico roxo com as esporas em forma de meia lua, para serem sacrificados nas matas virgens da Colônia Antonio Aleixo. Um de seus grandes escudeiros, Rubens Patinete, conta que Domingos Leite só não foi mordido por uma surucucu pico de jaca em uma destas incursões porque devia ter o corpo fechado.
Quando, enfim, as urnas foram abertas, Omar Aziz estava radiante: ele era o nono vereador mais votado do pleito e o sexto do PDC. O quinto do PDC era Domingos Leite. O diabo é que o PDC (ou Xangô?) só elegeu cinco candidatos e Omar ficou de fora, restando-lhe a primeira suplência. Pior mesmo aconteceu com Ricardo Moraes, do PT: ele foi o segundo mais votado do pleito, mas o partido não fez legenda e ele dançou. Ricardo era apoiado pela Igreja Católica. Quer dizer, nesse negócio de forças sobrenaturais influenciarem em uma eleição, os católicos ainda estão na Idade Média. E, cá pra nós, a macumba da nega Leocádia era boa.
I will survive
Agosto de 2001. Uma semana antes do foneticista Ricardo Molina provar que a fita contendo uma suposta conversa telefônica entre o deputado estadual Mário Frota e o empresário David Benayon, envolvendo o senador Jader Barbalho em um esquema de propinas na Sudam, havia sido montada, o deputado amazonense andava com os nervos à flor da pele.
Nos últimos quinze dias, seu calvário tinha sido perambular como um zumbi pelas redações de jornais, repartições públicas, ruas, avenidas, becos, praças, sindicatos, botecos e biroscas, munido de um mini CD Player portátil e, invariavelmente, pedir para o primeiro conhecido que desse bobeira que ouvisse com bastante atenção o CD, onde estava transcrita a fita forjada.
Após a audição, Mário Frota segurava o ouvinte desavisado pelos ombros e, olho nos olhos, suplicava:
– Fala, aí, meu irmão! Tu achas que essa voz é minha? Hein? Hein? Tu achas que essa voz é minha?
A maioria concordava que era uma imitação grosseira.
Alguns, porém, demonstravam uma certa dúvida, o que levava o parlamentar a reprisar determinados trechos da “conversa”, numa tarefa que, se ninguém interrompesse, poderia durar o resto da vida. O resultado deste exaustivo exercício mental foi que, a cada 100 vezes que reprisava a fita, o deputado acabava encontrando uma coisa nova, que tanto podia ser uma mesóclise pessimamente estruturada como um pronome adverbial sendo usado como sujeito.
E a cada descoberta, mais o deputado ficava puto. Os sujeitos que urdiram a trama não só queriam que ele passasse por corrupto, mas – suprema heresia! – principalmente por um analfabeto de marca maior.
Na sexta-feira, depois de identificar uma nova estultice na fita, Mário Frota foi mostrar a descoberta para o deputado federal Artur Neto, um dos poucos políticos que ficou ao seu lado desde o primeiro momento. Artur Neto tinha outras preocupações. O líder tucano estava aguardando a visita de um amigo secreto e não queria que Mário Frota soubesse do encontro, muito menos do motivo da visita. Só que esta nova visita totalmente inesperada poderia colocar tudo a perder. Normalmente expansivo, Artur Neto mostrou-se, nesta noite, extremamente sorumbático. A conversa entre os dois foi de parentes distantes numa ante-sala de velório, sem saber direito quem era o morto.
Impaciente, Artur Neto começou a consultar ostensivamente o relógio, mas Mário Frota não estava nem aí, cada vez mais empolgado com sua nova faceta de Philip Marlowe, o detetive de Chandler. Ele repetia o trecho da fita no aparelho de som indefinidamente e pedia a opinião de Artur. Mais diplomata do que nunca, Artur desfazia-se em mesuras: “Claro que não é a tua voz, Mariozinho, claro que não é a tua voz. A tua voz tem um timbre todo especial. Ela é tão límpida nas oitavas, que, muitas vezes, me dá a impressão de estar ouvindo Cole Porter ou Chet Baker...”
Duas horas depois, e vendo que mesmo inflando o ego de Mário Frota o mesmo não ia embora, Artur Neto resolveu mudar de tática. Diminuiu a luz da sala, deixando-a quase penumbra, foi lá na cozinha, trouxe uma garrafa de vinho branco, colocou na mesinha de centro, apanhou um disco no porta CD, colocou para tocar e disse, quase numa confissão a meia voz: “Essa música tem tudo a ver com o que você está passando, meu estimado amigo!”
Mário Frota tomou um susto ao ouvir os primeiros acordes de “I Will Survive”, na voz inconfundível de Gloria Gaynor.
– Peraí, meu irmão, essa música tem uma temática gay... – reagiu, nervoso.
– Ah, deixa de bobagem, Mariozinho, e pega um copo de vinho. Agora, presta atenção e vê se esses versos não têm tudo a ver contigo – e Artur começou a cantar, acompanhando a cantora: “Did you think I'd lay down and die? / Oh no, not I / I will survive... / Oh as long as I know how to love / I know I'll stay alive / I've got all my life to live, / I've got all my love to give and / I will survive... / I will survive... (Você pensou que eu deitaria e morreria? / Oh não, eu não / Eu vou sobreviver.../ Enquanto eu souber como amar / Eu sei que permanecerei viva / Eu tenho minha vida toda para viver, / Eu tenho meu amor todo para dar e / Eu vou sobreviver... / Eu vou sobreviver...)
– Quê que é isso, meu irmão, agora você pegou pesado! Pô, Artur, sem gozação, eu estou te estranhando...
Artur agora estava observando o céu estrelado de Adrianópolis.
– Oh, Mariozinho, você já viu como esta lua cheia está bonita? Este céu estrelado, essa música romântica, esse vinho branco, nós dois aqui sozinhos, tudo isso me faz lembrar que recentemente o Michael Stipe, do REM, saiu do armário. Ele deu uma entrevista para a revista Time dizendo que vive com um cara há mais de três anos. Eu acho legal essa coisa da pessoa descobrir novos horizontes depois que entra na meia idade, você não acha?...
Mário Frota estava tremendo como vara verde, mas atribuiu o fato ao ar condicionado.
– Ih, rapaz, mas esse teu papo tá muito esquisito – conseguiu balbuciar.
– Qualé, Mariozinho? Eu te conheço há trinta anos e agora você quer dar uma de preconceituoso? – continuou Artur, procurando um novo disco no porta CD. “Só estamos nós dois aqui. Somos amigos de velha data, adultos bem resolvidos, e a gente precisa de vez em quando de umas experiências mais radicais. Tu não achas, não?...”
– Porra, meu irmão, experiência mais radical do que essa que estou passando... – contemporizou Mário Frota. “Me sinto como um cristão enfrentando leões famintos no Coliseu com muita gente da platéia torcendo para eu ser logo morto...”
– Não, não é desse tipo de experiência que estou falando – atalhou Artur Neto. “Estou falando dessa coisa mais visceral, mais de pele, dessa coisa que vem de dentro, como uma força estranha. Tu não sentes isso, não?...”
Quando Donna Summer começou a cantar “Love To Love Baby”, Mário Frota percebeu que a situação havia atingido o imprevisível “break even point”, estando a um passo de se tornar insustentável. Visivelmente constrangido, ele apanhou o seu CD Player portátil, guardou o CD com a transcrição da fita na bolsa e isolou a bola na arquibancada:
– É, Artur, o papo está muito bom, muito interessante, muito filosófico, mas eu preciso resolver umas pendengas com meu advogado. Se tiver tempo, te ligo amanhã. Boa noite!
E antes que Artur se aproximasse para o tradicional abraço de despedida, Mário Frota já estava ligando o carro e fugindo em disparada, como se tivesse escapado por pouco de ser abduzido por um ET.
Susto maior teve o amigo secreto do parlamentar tucano quando entrou na sala meia hora depois e deparou-se com Artur Neto rolando pelo chão, babando de tanto rir, como se tivesse treinando para doublê da Linda Blair num futuro remake de O Exorcista.
A Ponte
Em 1975, o empresário Ari Antunes desabou em Manacapuru trazendo o decreto sobre a intervenção na cidade e a sua nomeação para o cargo. Filho de uma das mais tradicionais famílias da cidade, o vice-prefeito Edmilson Teles estava ocupando o cargo de alcaide, já que o titular, Raimundo de Oliveira e Silva, o Dico, estava em Brasília rezando para não ser cassado. Edmilson garantiu ao interventor que, como tinha sido eleito pelo povo, não abandonaria a cadeira de prefeito nem morto. Depois de cinco horas de discussões, o vice-prefeito resolveu entregar o cargo sem provocar uma guerra civil.
Na época, o Secretário de Obras do Estado era o engenheiro José Fernandes e o grande sonho de Manacapuru residia na construção da ponte sobre o rio Ariaú, cuja travessia ainda era executada por barcas movidas a tração animal. A rodovia Manuel Urbano já existia desde os anos 60, mas a travessia do rio Ariaú demorava o mesmo tempo que a travessia do rio Negro, no trecho Manaus-Cacau Pirêra, o que era um verdadeiro absurdo. Ari Antunes conseguiu convencer José Fernandes a preparar um edital de concorrência pública para a construção da ponte sobre o rio Ariaú, sem que o governador Henoch Reis tomasse conhecimento.
Numa das visitas que fez ao município para inaugurar uma pequena escola primária, o governador ficou surpreso com a quantidade de gente presente à solenidade. Pelos cálculos dos organizadores, praticamente toda a população de Manacapuru e dos municípios vizinhos (Novo Airão, Iranduba e Manaquiri) estava comprimida no entorno da escola. Quando Ari Antunes iniciou seu discurso, Henoch Reis ainda estava emocionado com a ovação delirante.
Em vez de falar sobre a importância da nova escola para os estudantes da cidade, o interventor falou sobre a importância da ponte sobre o rio Ariaú para o desenvolvimento econômico do município. E o povo delirou de vez quando Ari Antunes exibiu a cópia do edital de concorrência pública para a construção da ponte, afirmando que o governador “fazia questão de assinar o mesmo diante da população do seu município natal”.
Pego de surpresa, Henoch Reis também não pensou duas vezes. Assinou o edital, fez um rápido discurso de improviso elogiando a construção da ponte e saiu da solenidade amaldiçoando José Fernandes até a quinta geração.
De qualquer forma, a licitação foi feita, tendo sido vencedora uma empresa de Porto Velho. Entretanto, como os estudos técnicos indicavam que seriam necessárias fundações de alto porte, que demandavam bastante dinheiro, e o orçamento do Estado de 1975 já havia sido estourado, o governador prometeu ao interventor que a obra seria realizada no ano seguinte.
Com a saída do interventor em março de 1976, a obra caiu no esquecimento. Nenhum dos prefeitos que o sucederam (Joaquim Melo, Pedro Rates e Paulo Freire) se interessou pelo assunto. A ponte sobre o rio Ariaú somente seria construída e inaugurada em 1992, durante a primeira gestão do prefeito Ângelus Figueira
Spikinglis
Julho de 1985. O então superintendente da Sham, Gregório Dias, se matricula em um curso intensivo de inglês para fazer bonito quando for acompanhar o governador Gilberto Mestrinho nas viagens internacionais. No ano anterior, ele havia se perdido no centro de Los Angeles e, quando finalmente conseguiu telefonar para Luiz Costa, que estava no hotel, dando a sua localização exata, explicou que estava em frente a uma loja Bloomindgale’s, no cruzamento das ruas “go” com “don’t go”, provavelmente confundindo a sinalização da faixa de pedestres com as placas indicativas das avenidas. O superintendente foi resgatado por uma equipe da Swatt.
Disposto a nunca mais pagar um mico deste calibre, Gregório foi à luta. Aluno aplicado e assíduo, depois de alguns meses ele já estava com uma pronúncia levemente britânica e era capaz de dizer “al bi stein riãr fór a fiu deiz”, sem deslocar o maxilar ou ter uma crise de asma. Com mais algum tempo de estudos, Gregório já sabia a diferença entre “laundry service”, “scrambled eggs” e “double room”, e tinha absoluta convicção de que era capaz de circular pela ilha de Manhattan sozinho, igualzinho ao Woody Allen.
A primeira viagem do governador em que Gregório Dias foi novamente convidado para participar da comitiva, acreditem se quiser, era exatamente para Nova York. No segundo dia na Big Apple, Gregório escutou um casal de argentinos tecer elogios a uma mega-exposição de Degas, que estava rolando na cidade, e ficou todo assanhado.
Como, naquele dia, o boto tucuxi iria participar de um almoço com alguns líderes da cidade e o resto da turma estava de folga, Gregório resolveu visitar a dita exposição, que estava acontecendo no museu Guggenheim, lá no Upper West Side (o hotel deles ficava no outro lado da ilha, perto de Wall Street).
Munido de um daqueles livros de frases básicas em inglês, Gregório convenceu o rapaz da recepção a comprar seu (dele) ingresso para o museu e subiu para o quarto, para mudar de roupa.
O superintendente estava no meio do banho, quando o mensageiro do hotel bateu na sua porta, para entregar o ingresso. Caprichando na pronúncia, Gregório começou a berrar:
– Bituín, bói! Bituín, bói! Bituín, bói!
O mensageiro esperou mais um pouco, bateu de novo na porta, e Gregório repetiu a mesma ladainha. Pensando tratar-se do refrão de alguma música latina, o mensageiro foi embora. O superintendente subiu nas tamancas. Depois do banho, ele foi tomar satisfações com o gerente do hotel, que por sinal era brasileiro.
O superintendente explicou o que havia acontecido, nos seus mínimos detalhes. Sério como cachorro andando de canoa, o gerente explicou que “between” realmente significava “entre”, em português, mas que só poderia ser utilizado em inglês quando se referisse a algo existente fisicamente entre duas pessoas ou objetos. Se ele queria que o mensageiro entrasse na sala, deveria ter dito “go ahead, boy!” ou “come on, boy!”.
Injuriado, Gregório Dias cancelou na mesma hora seu curso intensivo de inglês. Por telefone.
Remédio milagroso
Março de 1951. O deputado Antônio Deodato havia sido eleito prometendo não deixar seus eleitores na mão, se um dia adoecessem. Mal ele tomou posse na Assembléia Legislativa, seu gabinete virou uma extensão do Hospital da Samdu, com dezenas de pessoas brandindo sua receitas médicas, mostrando suas chagas e chorando convulsivamente. Para gerenciar aquele circo de horrores, o deputado abriu um crédito na farmácia Rosas, que ficava na Sete de Setembro, ao lado da Sapataria Limongi, e pra lá despachava as receitas.
O primeiro mês de boa ação consumiu seu salário de deputado. No segundo mês, evaporou-se o salário do deputado e o do seu chefe de gabinete. Percebendo que seria o próximo a ter o salário confiscado involuntariamente, o assessor parlamentar do deputado cantou a pedra:
– Deputado, têm um remédio novo na praça, que resolve qualquer problema. É um antibiótico importado, chamado penicilina, mas que aqui é vendido como benzetacil. A injeção custa uma mixaria e eu tenho um primo, que é enfermeiro, que pode fazer as aplicações aqui mesmo no gabinete. A gente só faz isolar um canto com cortinado para ele trabalhar.
Dito e feito.
No dia seguinte, apareceu um sujeito trazendo uma receita do xarope Iodeto de Potássio, porque estava com “o pulmão fraco”. Ele foi encaminhado ao enfermeiro. Sem dissimular o prazer sádico da operação, o enfermeiro, um crioulão de quase dois metros, aplicou uma injeção de benzetacil de 4.800 unidades no músculo do braço direito do sujeito.
A sensação, segundo o paciente relatou depois, era de que estavam amputando seu braço com um serrote cego. A dor era de nervo exposto de queixal recebendo água gelada, elevada à enésima potência. E o inchaço instantâneo do músculo deixava o braço inversamente parecido com o do marinheiro Popeye.
– Volte aqui na próxima semana, para tomar a segunda dose! – avisou o enfermeiro.
O segundo sujeito que apareceu no gabinete trazia uma receita de remédio para artrite. Recebeu a benzetacil e saiu com o braço completamente desconjuntado. Um gordinho, que tinha uma receita de remédio para úlcera, recebeu a benzatacil e saiu amaldiçoando o enfermeiro, o deputado, o chefe de gabinete e as respectivas genitoras.
Um careca, portador de uma receita de remédio para panarício no dedo, teve os incisivos trincados, de tanto fazer força entre os dentes para suportar a dor. Uma mulher, que trazia uma receita de remédio pra tosse seca, levou uma benzetacil nas nádegas e quase saiu do gabinete andando de joelhos. A perna direita, onde havia sido aplicada a injeção, simplesmente recusava-se a obedecer os comandos enviados pelo cérebro. Estava paralisada, quase morta.
A fama do remédio milagroso alastrou-se entre a população. Ninguém voltava para receber a segunda dose. Em um mês, não aparecia mais ninguém sequer para receber a primeira dose. Dois meses depois, o enfermeiro foi dispensado pela absoluta falta do que fazer. Nunca mais o deputado foi perturbado por doentes renitentes ou hipocondríacos.
Brasileño si, como no?
Abril de 1983. Preocupado com a falta de assistência social às camadas mais pobres da população, o vereador Bianor Garcia fundou um Comitê da Cidadania, onde eram expedidos, gratuitamente, vários documentos oficiais, como certidão de nascimento, certidão de casamento e carteira de trabalho. No mesmo local também eram realizados serviços de fotografias para outros documentos, tipo carteira de identidade, carteira de saúde, carteira de motorista e certificado de reservista. Tudo bancado do próprio bolso pelo vereador.
Um belo dia, o corretor de imóveis Juan Rojas, argentino de Rosario Central, fã de Carlos Gardel e professor de tango na boate Acapulco, comparece à sede da Polícia Federal, com um envelope na mão. Solícito, um agente pergunta se ele veio renovar o visto do passaporte ou renovar a carteira modelo 11, de estrangeiros residentes. A resposta do argentino deixou o agente com uma pulga atrás da orelha:
– No, no. Yo soy brasileño del Manaquiri y mi padres ainda moram lá, na calle Ajuricaba, número 72B, acerca del casario del alcaide. Estoy acá para tirar mi carteira de identidad. Esta es mi certidón de nascimento y las duas fotografias 3x4 qui si necessita!
O argentino entregou o envelope ao agente. Ele abriu, conferiu a autenticidade do documento, verificou a data das fotos e jogou a isca:
– É, os seus papéis estão em ordem. Mas como foi que você conseguiu esta certidão?
– Ah, esto mi fué doado graciosamente por dom Bianor Garcia, el jefe del Comissariado de la Cidadania.
O argentino foi detido na mesma hora e metido no xadrez. Dez minutos depois, o Comitê da Cidadania era fechado pelos federais, que ainda confiscaram todos os documentos em branco existentes no local.
O vereador só não foi em cana porque um juiz acreditou que ele não agira de má fé e lhe concedeu um habeas corpus preventivo. Mas Bianor Garcia ainda passou um bom tempo respondendo a um inquérito na Polícia Federal, por estar doando certidões de nascimentos brasileiras para cidadãos estrangeiros.
Patriota
Durante o curto período em que foi interventor de Manacapuru (de julho de 75 a fevereiro de 76), o empresário Ari Antunes se destacou por não seguir o modelo clássico do político tradicional. Normalmente, quando um prefeito ia visitar alguma vila da zona rural, seus correligionários eram avisados antecipadamente para preparar a recepção, que incluía, entre outras coisas, uma portentosa queima de fogos de artifício e um comício para a população. Ari Antunes mudou as regras do jogo. Ele, simplesmente, alugava uma “voadeira” e se mandava para o lugar, sem avisar nada a ninguém. Chegando lá, o interventor visitava as obras, discutia o que tinha de ser discutido e ia embora na moita, sem causar alarde.
Na época, Manacapuru era um município-gigante, com cerca de 57 mil km2 de área (atualmente, após o desmembramento do Caapiranga, Beruri, Manaquiri etc, o município possui apenas 7 mil km2), e a visita do prefeito à zona rural era praticamente um acontecimento histórico.
Ari Antunes também tinha outra peculiaridade. Em vez de andar na zona rural de paletó, gravata, calça de giz riscado e sapatos de verniz (como era a moda entre os políticos), preferia andar igual aos cabocos, ou seja, de bermudas, descalço e sem camisa.
Um dia, o interventor estava se preparando para fazer uma visita ao Caviana e ao Beruri, onde estava realizando algumas obras, quando encontrou no porto o madeireiro Odilon Picanço, que morava em Beruri. Enquanto o barco fretado para a Prefeitura estava sendo carregado com cimento, pedras, ferros e tijolos, que seriam utilizados nas obras das duas vilas, os dois conversaram sobre amenidades e depois se despediram.
Ari Antunes seguiu para o Caviana.
Odilon partiu para Beruri e, lá chegando, espalhou logo a boa nova: preparem os fogos que o interventor está vindo aí!
No início do entardecer, o barco de Ari Antunes aportou no imenso barranco existente na frente de Beruri.
Querendo aproveitar as últimas horas de luz do dia para conferir as obras, Ari saltou do barco e subiu correndo o barranco.
Ao chegar em cima, quase teve um infarto: uma escola primária estava em formação de honra, aguardando sua chegada, com a população inteira ao redor. Mal enxergaram o interventor, os alunos começaram a cantar o Hino Nacional e hastear a bandeira.
Ari Antunes não teve outra saída. Perfilou-se ao lado do pavilhão nacional, colocou a mão sobre o peito e começou a cantar o hino em voz alta, como um verdadeiro patriota.
Apenas de bermudas, descalço e sem camisa.
Abusado
Junho de 1990. Candidato a reeleição, o deputado federal José Dutra (PMDB) está participando de um comício na cidade de Nhamundá. Posicionado na frente do palanque, um sujeito bastante alcoolizado, não pára de esculhambar com o deputado:
– Sai daí, safado! Tu é corrupto, porra! Tu só fala merda, porra! Tu pensa que a gente acredita nesse teu papo furado? Vai te catar, porra! Tu é ladrão, que eu sei! Tu pensa que aqui tem leso, é? Aqui num tem leso, não, otário! Se manca, nariz de fole! Tu só fala merda! Pára com isso, porra! Pede pra cagar e vai pra moita! Qualé, vai encarar? Sai pra lá, otário, que num gosto de homem! Homem e urubu, comigo é na pedrada! Tu é corrupto, porra! Se manque!
Incomodado com o constrangimento de José Dutra, o vereador Paulinho Faísca (PFL) chama o delegado da cidade, que era compadre do deputado, e explica o que está acontecendo. O sujeito vai em cana.
No dia seguinte, o delegado, ainda meio puto, chama o sujeito para tomar seu depoimento e mandá-lo embora:
– Qual é a tua, parente? Como é que você enche a cara de truaca e vai pra frente do palanque esculhambar uma pessoa distinta como o José Dutra? Tu tás ficando maluco, porra? Tu não sabes que o Dutra foi um sindicalista combativo durante a época da ditadura? Que foi um orador brilhante da sua turma de Direito? Que foi três vezes deputado estadual? Que foi deputado federal constituinte? Que foi Secretário Estadual de Justiça?
O sujeito, ainda meio gorozado, não titubeou:
– Ah, é? Então porque que o senhor não dá o cu pra ele?...
Ficou preso por quase três meses.
Baixinho
Maio de 1977. O vereador Fábio Lucena, líder do MDB na Câmara Municipal, está discursando violentamente sobre as conseqüências nefastas do “pacote de abril”, uma série de medidas draconianas com que o presidente-general Ernesto Geisel manietou o Congresso Nacional:
– A grei que exerce o poder, desde o rei ao palafreneiro, conseguiu que o Senado e a Câmara dos Deputados deixassem em segundo plano a questão econômica. Nem mesmo a decretação dos novos níveis do salário mínimo, em níveis que mal dão, e se assim o forem, para uma cesta de alimentação semanal, nem mesmo esses níveis mereceram a obsequiosa atenção do Congresso.
Baixinho como um anão de Velásquez, o vereador Waldir Barros, líder da Arena, resolve revidar:
– Permite V. Exª um aparte?
Fábio Lucena faz de conta que não é com ele e continua:
– Não que o Congresso tivesse querido descurar desses problemas. Em absoluto, Sr. Presidente, é que uma questão mais alto se alevanta, e é a questão institucional. E o debate sobre a questão institucional deve prevalecer sobre todos os demais. Nós, quando como oposicionistas, cumprimos aqui o nosso papel de divergência, de conflito legítimo com o aparelho de poder, com o Governo, quando nós verberamos a ação militarista, nós não verberamos a conduta do militar. O militar, entregue aos seus afazeres profissionais, em qualquer das armas, merece o respeito e os encômios de toda a cidadania, de toda a Nação brasileira. O que nós desejamos, na verdade, é que, para a conquista do poder, por militar, por civil ou por padres, qualquer que seja o postulante do poder, nós desejamos que ele se submeta à vontade popular, pelo caminho legítimo do banho lustral nas urnas.
Waldir Barros volta à carga:
– Sr. Presidente, o orador está fugindo ao debate e ferindo o regimento interno ao não me conceder o aparte...
Fábio se vira para o vereador, cofia o vasto bigode, e, como se estivesse analisando um inseto, mete bronca:
– V. Exª me desculpe, mas quem está ferindo o regimento desta Casa é V. Exª. O regimento interno diz que para solicitar um aparte, o nobre edil deve ficar de pé ao lado do microfone, e V. Exª continua sentado, numa clara manifestação de desprezo pelo orador...
Pego no contrapé, o baixinho Waldir Barros começa a pular feito um desesperado e gritar a plenos pulmões:
– Eu estou de pé, Sr. Presidente! Eu estou de pé, Sr. Presidente!
As gargalhadas da platéia quase fizeram a galeria desabar com o inusitado da cena.
Carne reimosa
Agosto de 1985. O então prefeito de Manacapuru, Paulo Freire, atual deputado estadual pelo PTB, havia colocado um médico cubano para administrar o hospital da cidade, mas a população andava se queixando que o atendimento piorara consideravelmente. O vereador Alfredo Boadana tomou as dores da população e passou a detonar o médico (e, por extensão, o prefeito) da tribuna da Câmara. Buscando uma solução conciliadora, Paulo Freire fez uma reunião entre o médico, os vereadores e líderes comunitários, no balneário Paraíso D’Ângelo.
Fazendo uso de um portunhol verdadeiramente macarrônico, o cubano tentou explicar aos edis e às lideranças populares que o problema do hospital estava no setor de emergência. As brigas de gangues, que ocorriam após os bailes de sábado na cidade, estavam produzindo feridos em escala industrial e o hospital estava ficando cada vez mais sobrecarregado.
– Siñor alcaide, es facil verificar o que estay a ocorrer, explicou o médico mostrando uma papelada cheia de números estatísticos. “La puenta del estrangulamiento del sistema esta nel domingo, quando muchos dolentes atendidos fueram victimados por arma blanca, por guelpes de faca. Nuestro problema es so isso, tuedo domingo la mayor parte del dolentes victimados apresentam muchos guelpes de faca pelos cuerpos, muchos guelpes de faca.”
Sentado ao lado do vereador Pedrinho Palmeira, Alfredo Boadana, que não havia entendido direito as explicações do cubano, questionou:
– Rapaz, o que é qui esse fulêro está dizendo?...
Com a cara mais séria do mundo, Pedrinho meteu bronca:
– Ele está dizendo que o problema do hospital está no domingo, mas que vai passar a dar carne de paca pros doentes...
Boadana perdeu as estribeiras:
– Rapaz, esse cabra é doido. Como é que ele vai dar carne de paca pros doentes? Esse safado não sabe que aquilo é reimoso?...
Aí, resolveu questionar o médico:
– Escuta aqui, ô Zé Bernaldo! Que conversa é essa de dar carne de paca pros doentes? Aquilo tem uma reima da muléstia e, pra doente, é um veneno!...
Como o médico também não entendia muito bem o idioma português, intuiu que Alfredo Boadana estava concordando em gênero, número e grau com tudo o que ele havia falado:
– Es isso, es isso! Usted matou la charada! Não olvidemos que la question abierta es como parar los guelpes de faca nos dolentes, por supuesto!
Pedrinho Palmeira jogou mais combustível na fogueira:
– Agora, além de carne de paca, ele vai dar carne de porco...
De dedo em riste para o médico, Alfredo Boadana não deixou barato:
– Pois o senhor vai dar carne de paca e de porco pra senhora sua mãe, seu gringo maluco! Aqui no meu município, não. Só se o senhor passar por cima do meu cadáver...
E passou a xingar o cubano com adjetivos que fariam corar um caminhoneiro.
Ninguém entendeu mais nada. A reunião teve que ser suspensa às pressas, antes que se transformasse numa batalha campal, e, no frigir dos ovos, o cubano acabou sendo demitido pelo Prefeito.
O vereador Alfredo Boadana, claro, virou um herói popular da noite pro dia. Pelo menos para os ativistas ecológicos que defendem os direitos dos animais, incluindo porco, capivara, paca, tatu. Cotia, não, que não tem reima.
Cacique Arigó
Dezembro de 1995. O deputado estadual Eron Bezerra (PC do B) encaminha um requerimento à mesa diretora da Assembléia Legislativa solicitando uma sessão especial com os caciques Ticuna, para investigar as possíveis causas da alta taxa de suicídio entre os índios. Espalhados ao longo da região do Alto e Médio Solimões, próximo da fronteira com o Peru e a Colômbia, os cerca de 30 mil Ticuna vivem até hoje as conseqüências e dilemas da integração. Em 15 meses, de setembro de 94 a dezembro de 95, foram registrados 10 casos de suicídios entre eles.
O número real de mortes por suicídio nas tribos, segundo a Funai, poderia ser ainda maior, já que o seu levantamento havia abrangido apenas 80% da população. Dos dez casos constatados, oito foram por enforcamento e dois por ingestão de timbó – veneno extraído da raiz de uma planta, que leva à morte por asfixia. Sete dos dez suicidas eram homens, com predominância de jovens.
Na sessão especial, o primeiro orador inscrito foi o cacique Raimundo Benício, o “Arigó”, líder da Comunidade Indígena Ticuna Novo Paraíso, localizada no município de São Paulo de Olivença. O cacique subiu na tribuna, posicionou o microfone e disparou:
– Índio morre por causa de branco safado, que promete, promete, promete e engana índio – começou. “Aquele ali sabe, índio não mente”, continuou o cacique, apontando para o deputado Lupércio Ramos (PDC). “Ele vai tribo, nós junta povo, ele promete gerador pra tribo, promete moto-serra pra tribo, promete barco alumínio pra tribo. Nós vota nele, ele ganha deputado, nunca mais volta tribo. Nós morre de raiva, morre sim. Branco muito safado, muito mentiroso, muito picareta. Ano passado, deputado Luperço pega índio e ó (o cacique fez o sinal de top top com as mãos) na bunda da gente.”
O deputado Beto Michilles (PDC), líder do governo, sai em ajuda do colega:
– Cacique Arigó, o senhor está ferindo o regimento interno desta casa com seu tratamento descortês ao nobre deputado Lupércio Ramos. Eu gostaria que o senhor se limitasse aos fatos que o trouxeram à esta Casa Legislativa.
O cacique fica mordido:
– Branco tudo igual. Cacique falar verdade, branco não deixa. Mas ticuna tem palavra. Um dia deputado Luperço vai voltar tribo, vai sim. Nós junta povo e ó (o cacique fez o sinal de top top com as mãos) na bunda dele.”
Arigó foi retirado da tribuna pelos seguranças.
Thursday, January 11, 2007
Poderoso
O degelo andino e as chuvas torrenciais que se abateram sobre a região haviam provocado uma tragédia de proporções bíblicas.
Milhares de desabrigados ocupavam ginásios esportivos, escolas e igrejas, em dependências improvisadas com barracas de lona e plástico negro, como se a cidade inteira houvesse se transformado em um gigantesco campo de refugiados.
Uma pequena comitiva de aspones seguia o deputado.
Depois de percorrer o Planalto do Piquiri, o deputado Artur Neto parou próximo de onde funcionava o antigo Mercado Municipal, agora invadido por lama, lixo e lodo, e ficou conversando com um grupo de moradores, para se inteirar das proporções do desastre.
Um sujeito bem matuto e turrão, que havia perdido praticamente tudo na enchente, se aproximou da rodinha e ficou prestando atenção na conversa.
Curioso, ele perguntou a um amigo:
– Mas quem é já esse galego, de fala tão bonita?
O outro não se fez de rogado:
– E tu não sabe que é o Artur Neto, que veio lá de Brasília?
– E quem é já esse tar de Artur Neto? – insistiu o matuto.
Um dos aspones, que estava perto da dupla escutando a conversa, resolveu entrar no papo e levantar a bola do chefe:
– O deputado federal Artur Neto é o verdadeiro manda-chuva deste estado...
O matuto, entretanto, não captou a mensagem subliminar e entendeu outra coisa:
– Ah, quer dizer que foi esse fio da égua que fez essa desgraceira toda com a gente?...
Pra segurar o matuto e evitar que ele furasse o bucho do deputado com um espeto de churrasco, foi preciso o concurso de seis PMs.
Um estranho no ninho
O travesti Stephanie du Bois, uma louraça belzebu de quase dois metros de altura que faz ponto na Praça da Saudade, se encarregou de fazer a ponte entre o deputado e o reduto da bicharada.
Cerca de trezentas pessoas, incluindo barbies, lindauras, clubkids, drag queens, travecos, sapatões, michês, bissexuais e boiolas, aplaudiram delirantemente a chegada do parlamentar na sede da Associação Amazonense de Gays, Lésbicas e Simpatizantes.
A primeira oradora da noite se chamava Paulete Pink, uma morena escultural de lábios grossos pintados de rosa choque, peruca azul-turquesa imitando corte Channel, shortinho com estampa de vaca, combinando com botas Doc Martens e jaquetão de couro cru. A santa, que parecia ser a intelectual da turma, foi direto ao ponto:
– Olha, gente, o deputado Maneca merece o nosso voto porque ele não é preconceituoso, entende? Ele respeita a nossa opção sexual, entende? Ele é gente da maior finesse e mesmo estando meio barrigudinho continua sendo um gato, entende?...
A seqüência de aplausos, gritos histéricos e assovios deixaram o parlamentar vermelho como um pimentão.
A segunda oradora, Renatinha Poltergeist, que usava jaqueta bomber de jeans, camisa de tricoline, saia de lã sobre calça jeans e botas Lino Villaventura, também não deixou barato:
– Eu concordo com a minha colega. Além de charmosíssimo, o deputado Maneca merece o nosso voto porque vai lutar pela gente! Esse gatão vai ser uma voz pooooderosa nos defendendo na Assembléia!
Mais aplausos, gritos e assovios.
A cara do deputado estava exibindo aquele misto de constrangimento, desespero e vergonha que ataca um adulto quando os amigos presentes começam a cantar o “Parabéns pra você”.
A terceira oradora, Carmem del Fuego, trajando vestido de renda, trench coat de lã, cinto de couro, sapato plataforma e portando umas unhas gigantescas estilo Zé do Caixão, foi no mesmo diapasão:
– É isso aí, gente, é isso aí! O deputado Maneca está assumindo publicamente esse compromisso com a gente. Todo mundo já sabe que ele é um parlamentar honesto, honrado e gostoso, mas hoje o deputado Maneca está provando também que é um político moderno, liberal e progressista. Audácia dos bofes, mas palmas para ele, que ele merece!
Além dos aplausos, gritos e assovios, uma turma de melissinhas comandadas por uma lésbica trajando a camisa 10 do Flamengo ensaiou o tradicional “já ganhou! já ganhou!”
Foi quando uma barbie mais assanhada, usando blusa tomara-que-caia, saia de patchwork e botas Triton, se levantou no meio da platéia e resolveu chutar o balde:
– Meninas, meninas, a gente tem de votar no deputado Maneca porque ele é um dos nossos! O Maneca é do babado forte! O Maneca faz parte da nossa tchiuuuurma!...
O parlamentar subiu nas tamancas:
– Êi, êi! Não te empolga não, hein? Não te empolga, não! Eu vou defender vocês, mas não sou boiola! Não vem que não tem! Meu apelido é Maneca porque meu nome é Manuel, não tem nada a ver com desfilar em passarela ou usar salto quinze! Vou repetir mais uma vez, hein! Eu não sou boiola! Respeito a opção sexual de vocês, dou o maior apoio pra vocês, mas, pera aí, eu não sou boiola, não!
A sinceridade do deputado conquistou o povo GLS e ele foi um dos mais votados do pleito.
Candidato florzinha
Nos comícios, o deputado diz que o então prefeito, Ângelus Figueira (PFL), cria gado em Uberaba e burros em Manacapuru.
O povo se sente ofendido e dá o troco: começam a aparecer pichações em muros denunciando a homossexualidade do deputado e circulam centenas de xerox de uma revista gay, onde Régis aparece se beijando com um travesti.
O deputado faz circular um documento em que diz que o TCE rejeitou as contas de Figueira em 1997.
Os partidários de Ângelus distribuem a xerox de um jornal em que Régis aparece algemado pela polícia, por estar vendendo dólares falsos no Uruguai.
O pandemônio se instala no comitê eleitoral do deputado e começam a ocorrer as deserções. Dezenas de candidatos a vereador mudam de lado.
Para conter a sangria, todos os candidatos da oposição são convencidos a assumir a defesa de Régis e responder aos ataques “caluniosos” dos partidários de Figueira.
Os deputados estaduais Wallace Souza (PL) e Lupércio Ramos (PFL), e o deputado federal Pauderley Avelino (PFL), em companhia do candidato, fazem visitas de casa em casa para provar que Washington Régis não é falsário nem qualira.
O povo continua cabreiro e cada vez mais desconfiado.
Durante um comício no bairro Terra Preta, o candidato a vereador, Paulão da Central (PC do B), resolve fazer a defesa do deputado caluniado. A emenda saiu pior que o soneto:
– O pessoal do atual prefeito diz por aí, que o nosso candidato não gosta de mulher, que o nosso candidato é boiola, que o nosso candidato é florzinha – começa ele. “E daí, se ele não gostar de mulher? E daí, se ele for boiola? E daí, se ele for florzinha? O Régis vai governar é com a cabeça, não é com o toba...”
Paulão foi expulso do palanque na base do pescoção.
Raízes históricas
Para impressionar a audiência, ele cita suas raízes históricas, que estão fincadas para sempre no solo do município:
– Meu avô foi um dos grandes colonizadores desta região – anuncia. “Quando isso aqui, na virada do século, era só mato e índio, meu avô foi um dos primeiros “brabos” a se embrenhar na floresta. Ele foi um baluarte da civilização branca neste país e morreu de malária, tentando dar um pouco mais de dignidade para os nossos caboclos. Seu corpo foi sepultado aqui neste lugar!”
O segundo orador, Átila Lins, tentando evitar que a platéia viaje no canto das sereias, resolve apelar:
– Vocês acabaram de ouvir o nobre deputado federal Euler Ribeiro. Ele acaba de dizer que o seu avô está enterrado aqui neste lugar. Pois eu dou mil reais para o sujeito que encontrar a sepultura do avô do nobre parlamentar...
Euler Ribeiro só não deu um tiro na cabeça de Átila Lins porque foi contido pelos seguranças.
Lázaro redivivo
Dico havia sido eleito prefeito pela primeira vez em 1963 e bisado o feito em 72, sucedendo ao próprio Jamil Seffair. Como este ansiava ser a única liderança inconteste do município, resolveu dar uma cama de gato no Prefeito e incumbiu esta tarefa aos vereadores do seu grupo político.
O prefeito Dico passou a ter suas contas rejeitadas sistematicamente pela Câmara Municipal enquanto se avolumavam as denúncias de falcatruas cometidas pelos seus auxiliares. Os simpatizantes dos dois grupos políticos começaram a se engalfinhar pelas ruas da cidade.
De repente, Manacapuru se viu envolta na maior crise política da história do município.
Na época, o governador do Amazonas era Henoch Reis, um filho legítimo de Manacapuru, que resolveu fazer uma intervenção cirúrgica radical para colocar um ponto final na baderna generalizada.
Para surpresa de Jamil Seffair, que na época era Secretário Estadual de Administração e sonhava secretamente em retornar ao Poder municipal por meio de uma canetada, o interventor nomeado pelo governador foi o empresário Ari Antunes, dono da serraria Madeiral e que não tinha qualquer vínculo político com nenhuma das correntes que mandavam no município.
Para surpresa maior de Dico, que jamais imaginou que o governador tivesse coragem de decretar a intervenção, a Câmara Municipal não só aplaudiu o ato de violência como ainda recebeu sinal verde para iniciar seu processo de cassação.
A advogada Sulamita Augusta da Silva foi contratada para defender o prefeito.
Numa sessão tumultuada, realizada em janeiro de 1976, Sulamita, depois de levantar a suspeição dos vereadores Edmilton Maddy, Joaquim Melo e Zoraida Alexandre – todos inimigos declarados de Dico –, esgotar os fundamentos jurídicos de que dispunha e perceber que aquela era uma causa morta no nascedouro, resolveu apelar para os sentimentos cristãos dos edis:
– Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra! – disparou a causídica, encerrando sua defesa, visivelmente emocionada.
Pelo visto, os vereadores não tinham pecado algum. Eles cassaram o prefeito por unanimidade e só não o crucificaram de cabeça pra baixo, como São Pedro, porque Dico preferiu ver o circo pegar fogo à distância: uma semana antes, ele havia se auto-exilado em Manaus.
Mas a vingança é um prato que se come frio.
Como um Lázaro ressuscitado, Dico voltaria a ser prefeito de Manacapuru no período de 87-88, após a renúncia do então prefeito Paulo Freire, que foi ser secretário de Agricultura do governador Amazonino Mendes.
Presidente da Câmara Municipal, seu antigo algoz Edmilton Maddy teve que engolir o novo sapo, sem regurgitar.
Pelo visto, nem bala de prata seria capaz de parar o velho Dico, que sabia de cor e salteado a oração de São Jorge da Capadócia. Os catimbozeiros do município garantem que ele tinha o corpo-fechado. Seus inimigos políticos, também.
Friday, January 05, 2007
Real Politik
A quadra da escola está completamente lotada.
José Melo começa um discurso inflamado sobre a necessidade de manter nas escolas as crianças entre sete e 14 anos, mas percebendo a indiferença da platéia resolve mudar de tática:
– Aqui vocês têm escola digna do nome? – vocifera
– Não! – a platéia berra, num coro ensurdecedor.
– Aqui vocês têm fardamento decente?
– Não! – a platéia responde, cada vez mais animada.
– Aqui vocês têm merenda escolar?
– Não!
– Aqui vocês têm atividades extra-curriculares?
– Não!
– Aqui vocês têm professores qualificados?
– Não!
Desolado, José Melo encerra seu discurso derrubando o rei e abandonando o tabuleiro:
– Também, quem manda vocês estudarem nessa merda...
Foi o deputado federal mais votado no município.
Galo da Madrugada
Secretário particular do prefeito, Paulinho Jacob mantém uma rotina espartana há cinco anos: acordar de madrugada, dirigir do condomínio Vivenda Verde (onde mora), no Tarumã, até o Conjunto Adrianópolis (onde mora o prefeito), na zona centro-sul de Manaus, num trajeto de quase 30 quilômetros, para ser um dos primeiros auxiliares a dar “bom-dia” ao alcaide.
Como Alfredo Nascimento têm o péssimo hábito de acordar antes das 5h30 da manhã, o ilustre secretário tem que se virar para não perder a hora.
No dia combinado, o secretário apanha o vereador em casa às 5h e sai dirigindo feito um desesperado para poder chegar a tempo.
Ele estaciona o carro em frente à casa do prefeito e fica conversando com os vigias, monitorando a luz externa de uma das dependências da casa.
Quando aquela luz externa acende, indica que o prefeito entrou no banheiro para fazer sua higiene matinal.
Fabrício, que até então não sabe do que se trata, está estranhando a ausência dos músicos para fazer a alvorada, mas fica na dele.
Paulinho começa a consultar o relógio, cada vez mais excitado.
De repente, a luz externa acende.
Paulinho sai correndo, se posiciona embaixo da lâmpada acesa, e berra para a parede:
– Bom dia, meu prefeito!
Uma voz sonolenta responde lá de dentro:
– Bom dia, Paulinho!
– A doutora Léo Nascimento já acordou? – pergunta Paulinho, com voz trêmula, sem esconder a emoção da pergunta.
A resposta é uma ducha de água fria.
– Já, Paulinho. Ela está lá na cozinha preparando o desjejum das crianças.
O secretário não esconde a decepção, mas mostra um estoicismo fora do comum:
– Então, tenha um bom dia, meu prefeito! Eu estou lá na frente da casa, aguardando as suas ordens.
O vereador Fabrício Lima, que continua não entendendo nada, coloca o secretário na parede:
– Que porra é essa, Paulinho? Você me tira da cama às cinco da manhã, dirige feito um lunático furando tudo quanto é sinal, para chegar até aqui e pagar esse mico? Não tô te entendendo...
O secretário resolve se abrir com o amigo.
– Sabe o que é? O meu maior sonho é chegar um dia aqui na casa do Alfredo e ser a primeira pessoa a dar bom-dia para ele. Mas todo dia, eu sou apenas o segundo, porque a dona Léo acorda primeiro e é a primeira a dar bom-dia para o prefeito. Eu tenho que descobrir uma maneira de ser o primeirão...
O vereador foi de uma sinceridade cruel:
– Se liga na fita, mano! A dona Léo é casada com o Alfredo e os dois dormem na mesma cama. A única chance de você ser o primeiro a dar bom-dia pro prefeito é esperar a dona Léo viajar e pedir pra dormir com ele...
A constatação do vereador evoluiu rapidamente para um bate-boca e quase que os dois amigos se engalfinhavam na frente dos vigias.
El Gran Filosofo
A partida está sendo realizada na casa do empresário Otávio Raman.
Dezenas de aspones estão torcendo para o chefe sair do “capote”, mas Aziz não quer saber de conversa e está comendo até as podres.
De repente, Amazonino se levanta para atender um telefonema e deixa sobre a mesa seu maço de Free Ultra Light.
Marcos Cavalcante apanha o maço de Free com carinho e abre o coração:
– Eu nunca fumei na minha vida, mas se um dia tiver este vício, tenho absoluta certeza de que vou fumar esta marca de cigarro...
E, diante da platéia boquiaberta, explica sua filosofia de vida:
– Quem não puxa saco, puxa carroça!...
Percebendo a manobra entreguista, o então deputado Omar Aziz toma o papel de marcação de Marcos Cavalcante e entrega ao deputado Ronaldo Tiradentes.
Apesar dos protestos do militar, a partida prossegue até o fim e o “negão” leva o maior capote da história (355 a 25).
Seis anos depois, o “filósofo” Marcos Cavalcante pediria a instalação de uma CPI para investigar a EMTU, levaria um capote na Comissão de Ética da Câmara Municipal e renunciaria ao seu mandato de vereador, para não ser cassado por falta de decoro parlamentar.
Cristão novo
O alcaide entrou na sala do governador e tirou um calhamaço de papel de u